Como ser um herói em 10 passos

Pense no seu filme favorito. Ou em algum livro que marcou você. Um conto de fadas daqueles de criança, ou em alguma história que seus pais te narravam.

Pense agora na terra girando, e o dia virando noite; o pôr-do-sol alaranjado dá lugar a uma bela imagem de constelações interagindo entre si, como se formassem alguma peça de teatro que a gente só vê quando a noite está escura. E tente imaginar uma boa explicação para a vida e a morte. Ou por que estamos aqui, e o que estamos fazendo para tentar responder essa pergunta.

Pense também em alguma religião. Ou em algum super-herói. Pense em mitos, estátuas de mármore, deuses gregos e em “Procurando Nemo”. Pense na história da sua vida.

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Foto: Wikipedia

Agora junte tudo isso em uma coisa só. O que há de comum entre todas essas coisas que cruzaram sua mente no último minuto?

A resposta está pulsando dentro da sua caixa craniana, porque o herói de mil faces que protagoniza cada uma dessas histórias vive dentro de nós. A narrativa da nossa vida é também a narrativa de nossos heróis, nossos deuses, todas as pessoas que vivem ao nosso redor — e se você ouvir alguma pessoa vier contando uma história nos próximos dias, ela provavelmente estará pegando emprestado a forma que a humanidade encontrou de explicar o mundo através de histórias, e está encaixando a vida dela nisso, embora talvez nem perceba.

A culpa disso é em boa parte de Joseph Campbell.

Joseph Campbell foi um escritor e acadêmico americano, que ficou mais conhecido pelo seu trabalho com mitologia comparada e teoria literária. Sem dúvida esse é um jeito bastante desinteressante de explicar quem ele é, o que isso tem a ver com o que preciso dizer a você, ou por qual motivo você deveria se importar. Mas ele é também o autor da obra “O Heroi de Mil Faces”, e é graças a esse livro que a gente pode entender o que tem em comum na história da nossa vida, do Buda, do Batman ou do Nemo.

A ideia aqui é até bastante simples: depois de comparar a obra de James Joyce com uma série de mitos gregos e os arquétipos de Jung, Campbell notou um padrão. Há 17 etapas pelas quais passam todos os heróis, englobadas em 3 fases:  partida, iniciação e retorno.

De forma mais simplificada, a ideia pode ser resumida em 10 passos:

 

1. status quo

A vida ordinária, linear e sem desafios que experimenta o herói é o início de toda jornada;

2. chamado para a aventura

O primeiro passo para a jornada do heroi, que pode ser figurado, como sinais ou as circunstâncias que o inspiram, ou mesmo algo literal, como um evento que o chama para partir, como uma aventura, guerra ou desafio;

3. mentor

O heroi conhece uma pessoa, intervenção sobrenatural ou artifício que surge para dar amparo ao herói na sua partida ou desafiá-lo;

O herói cruza a fronteira do mundo ordinário para o novo mundo e começa sua jornada;

5. provações

O herói é testado: todo o seu vigor, persistência, habilidade, valores e conhecimento são postos a prova por desafios menores ao longo do caminho enquanto se aproxima do desafio principal;


6. catarse

O herói enfrenta a figura principal do seu desafio, que detém maior poder e que domina o conflito central da sua existência, buscando reparação ou equilíbrio, e a purificação do seu espírito;

7. morte e apoteose

Ao enfrentar seu desafio e antagonista, o herói ou sua essência precisam morrer — em sentido figurado ou não;

8. renascimento

 Após a  sua morte, figurada ou não, o herói renasce para se reinventar de alguma forma, como se saísse de um casulo;

 

9. resgate do tesouro

Em consequência à sua jornada, o herói consegue resgatar um tesouro que estava em posse do seu antagonista e adquire um aprendizado ou evolui ao obtê-lo;

 

10. volta pra casa

 Finalmente o herói conclui sua jornada, levando consigo o balanço obtido ao se reinventar ou renascer, para se estabelecer novamente em algum lugar e manter um novo status quo.

***

 Talvez você ainda esteja se perguntando “como isso explica o porquê da terra girar”, ou qual a ligação do herói de mil faces com sua vida. Eu entendo; a dúvida é digna. Tesouros, morte ou renascimento não fazem normalmente parte da nossa vida, absorvida por uma zona de conforto que mais parece pequeno universo cômodo em que normalmente gravitamos sem muito esforço.

O ponto aqui é perceber em qual parte da narrativa estão as nossas histórias. Se a sua vida está prestes a mudar drasticamente com a mudança para uma nova cidade e um novo trabalho — e aí está o chamado para aventura — ou se você está no meio da maior crise que lembra ter vivido nos últimos anos, e na verdade essa é a apoteose da sua história nesse ciclo. E o próximo passo é a recompensa de ter sobrevivido a mais essa jornada.

Joseph Campbell ainda se fez notório por dizer que seu grande mote de vida era “follow your bliss”, ou, em português, “siga seu êxtase/felicidade/bem-aventurança”. Penso que o convite que Campbell nos deixa é que, se todos somos heróis, não podemos deixar de perceber em qual fase da jornada estamos, e qual é o nosso bliss.

Colocado de outra forma, como disse certa vez Martin Groß, o presidente da AIESEC na Alemanha em 2013, “todas as perguntas da nossa vida e absolutamente todo o tipo de dúvida que eventualmente tenhamos que enfretar — tudo isso se resume, na verdade, a uma só pergunta: ‘quem você quer ser?’.”

Fica então a pergunta: Quem é o herói que você carrega consigo em sua essência, e qual é sua a jornada?

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Foto: Tumblr

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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