Liberté, igualité, fraternité

Você não é o lugar de onde você veio, nem o seu sotaque ou a sua forma física. Você não é o seu gênero, sua cor nem a sua idade. Ou sua altura, seu peso, seu nome. Você, eu, e todos somos aquilo que pensamos, os livros que lemos e as músicas que ouvimos. Somos os nossos trejeitos, nossos pormenores, nossas palavras preferidas. Nós somos os nossos sonhos e as nossas vontades mais intrínsecas. Somos o lugar aonde estamos indo – onde aponta o horizonte a que visamos alcançar. Nós somos um milhão de coisas diferentes, mas, por fim, desvenciliando-nos de quaisquer variáveis e particularidades que nos tornam pessoas únicas, somos todos seres humanos. E ainda assim, insistem em tratar-nos com diferenciação, mesmo todos nós sendo nominados de uma só maneira.

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Foto: Tumblr.

E, para falar com conhecimento de causa, digo que nós, meninas e mulheres, temos tido impostas a nós as mais diversas regras e determinações sociais que nos enrijecem em uma armadura de ferro – deixando-nos inertes à exterioridade, às nossas vontades e desejos. Fomos caladas, sujeitas a posições de inferioridade e humilhações tamanhas devido ao nosso gênero, contudo, tivemos grandes ancestrais – Joana d’Arc, Maria Quitéria, Edith Piaf, Leila Diniz, Benazir Bhutto e tantas outras – que lutaram pelos direitos dos quais desfrutamos hoje. Tal fato nos qualifica como responsáveis em garantir às futuras gerações os direitos dos quais ainda não usufruímos e libertar-nos dos valores machistas histórica e culturalmente incrustados na sociedade contemporânea.

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Foto: Tumblr.

Há uma discussão entre as próprias mulheres sobre quais seriam esses direitos não-alcançados; a não-equidade de salários, o impedimento de fazer escolhas acerca do próprio corpo, não ser tratada com o mesmo respeito de um homem, em suma, todos dizem respeito à distinção de gênero em diversos âmbitos – escolar, familiar, social, político. Diferenciação percebida, por exemplo, quando pais tratam suas filhas diferentemente dos filhos homens – com mais zelo, cuidado e cautela – seja porque é um hábito cultural ou porque se veem na obrigação de fazê-lo mesmo que isto contrarie suas convicções, em razão de todo o restante da sociedade agir desta forma – “eu não penso assim, minha filha, mas o resto das pessoas, sim.”

Fato é que precisamos libertar-nos desta forma de pensamento em razão de inúmeras meninas se sentirem envergonhadas em agir da forma que bem entendem porque isso pode não ser bem-visto socialmente, porque se privam de viver certos momentos no decorrer da vida, porque deixam de se vestir da forma que mais lhes agrada, porque não se sentem à vontade em compartilhar com seus pais alguns fatores das suas vidas enquanto crescem, já que eles podem não entendê-las bem; porque são, ou melhor, somos bombardeadas durante toda uma vida com frases como, “cruze as pernas!”, “arrume a saia”, “cubra-se!”, como lembrou Chimamanda Ngozi Adichie, em sua brilhante Ted Talk. Discute-se tanto a igualdade de gêneros pura e simplesmente porque a nossa cultura é falha, antiquada e machista, e nós, mulheres e feministas, continuaremos a não aceitar isso como uma verdade e um padrão imutável, fazendo tudo o que pudermos para alterar esse paradigma.

A definição de feminismo é: “A crença de que homens e mulheres devem ter direitos e oportunidades iguais. É a teoria da igualdade de gênero política, econômica e socialmente.” Nesta última semana, Emma Watson, embaixadora da ONU, discursou com excelência sobre o o feminismo e a campanha HeForShe, que busca, através da conscientização e engajamento de homens e meninos, combater a desigualdade entre sexos. Buscamos um mundo onde um menino não tenha que se esconder para chorar, não tenha medo de expor seus sentimentos frente aos seus colegas durante a selva da pré-adolescência e não tenha que optar obrigatoriamente por um brinquedo azul porque o “rosa é de menina”. Um mundo onde eu e tantas outras meninas não tenhamos que nos sentir como duas pessoas em uma – a que somos verdadeiramente e a que precisamos mostrar ser à sociedade a fim de impôr respeito, pois, não demonstrando vastos sentimentos a outrém para que eles não soem como fraqueza ou vulnerabilidade, evitando sermos chamadas pejorativamente de “menininhas”.

Em diversos momentos eu me relacionei com os trechos e exemplos que ela proferira e tenho certeza que assim aconteceu com inúmeras mulheres ao redor de todo o mundo. Há tempos eu me considero feminista apenas por acreditar que devamos ser tratadas com respeito, educação e dignidade tal qual são tratados os homens. Entretanto, assim como a ela, me intriga que ao constatar em voz alta ser feminista, recebamos expressões de espanto e surpresa, como se este fosse um fato absurdo, extremista e extraordinário, que nos qualificasse como alguém que odeia ou repele os homens de alguma forma. O que Watson e tantas outras mulheres incríveis – tentaram e – tentam fazer é endireitar a imagem distorcida e equivocada que se tem a respeito do feminismo e do que ele defende verdadeiramente.

Crescendo, fui taxada como “mandona”, “cabeça-dura”, “radicalista” e inúmeros outros adjetivos por eu expor livremente o que pensava. Já alguns dos meninos da minha idade que, da mesma forma que eu, defendiam seus pontos de vista, argumentavam com convicção e veementemente diziam o que pensavam, não eram qualificados com as mesmas palavras. Existem algumas explicações para esse acontecimento – antropológicas, psicológicas, sociológicas, filosóficas, etc. -, porém, a justificativa que parece ser a mais recorrente é: é esperado de homens que eles exponham suas opiniões sem medo, tenham pulso firme e convicção de seus valores e ideais, mas o mesmo não é esperado de mulheres; logo, quando isso ocorre com uma de nós, somos tratadas como diferentes. Mas não somos diferentes, somos tão capazes, inteligentes, sagazes e competentes quanto homens. Partindo da visão da sociedade, o fato de eu ter ideais feministas me qualifica como uma mulher com opiniões muito agressivas, fortes demais, como alguém que se isola, que repele homens por ser contrária ao machismo. Mas o que eu e tantas outras mulheres queremos dizer é que essa visão está errada; e, por isso, dizemos a todas as pessoas: juntem-se a nós na busca por um mundo onde haja igualdade, respeito e reconhecimento entre gêneros.

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Foto: Tumblr.

“Nós estamos lutando por uma palavra de união, mas a boa notícia é que estamos tendo um movimento de união. Ele se chama HeForShe. Eu os convido a dar um passo à frente, a falar, a ser o “ele” para “ela”. E a se perguntar: se não eu, quem? Se não agora, quando?” – disse o mais novo rosto da luta feminista no mundo. Que saltos-altos, saias e batons não mais sirvam como pretexto para sermos consideradas pessoas menos capazes em quaisquer sentidos, porque nós estamos aqui e provaremos o contrário, custe o que custar. Juntemo-nos todos, mulheres e homens, na busca por um mundo mais justo, harmonioso e belo, onde prevaleçam ideais seculares tais quais os da Revolução Francesa: liberdade, igualdade, fraternidade.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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