O dia em que me apaixonei por Dora

Ver a Dora pela primeira vez foi um momento absolutamente único.

Era impossível não se apaixonar. Ela carregava consigo todo o vintage legítimo de décadas atrás, com sutis curvas de bom gosto, e o vermelho que a cobria sem dúvida me prendeu a atenção. Dora, uma Olivetti Lettera 31, era a máquina de escrever mais bonita que eu já vira na vida, e por mais que se fizesse necessário ponderar a sua real utilidade, meu fetichismo não me deixou pensar mais que duas vezes. Comprei sem hesitar.

Levou algum tempo até que a Dora viesse de alguma cidade do interior de São Paulo, em uma enorme caixa de papelão. Rasguei a caixa e o plástico-bolha tão impulsivamente que mal deu para absorver o momento. Tirei-a dali, posicionei-a na mesa e fiquei sentado sem fazer mais nada, olhando para ela e apenas contemplando o design da Lettera (e querendo, por alguma razão, que tudo mais na minha vida fosse elegantemente nostálgico como essas máquinas de escrever de outrora).

foto 1

Fonte: Tumblr

‘E agora?’, pensei.

A gente é meio mal-acostumado como geração, eu suponho. As coisas tem sido bem imediatas sempre, e a gente chega a um ponto em que faz sentido odiar um aparelho celular. É preciso reconhecer isso também. A Dora não era um smartphone, e nem o Google sabia direito como usá-la. A Dora não vinha com manual de instruções. A Dora tão somente estava ali, e eu que a entendesse.

Mas esse era o ponto, pensando bem. A Dora era feita de metal, plástico e tinta. O mecanismo interno dela, que movimenta engrenagens a cada bater das teclas como se fosse o interior de um relógio daqueles antigos, era de uma genialidade difícil de descrever. ‘Mas e o computador, com sinais elétricos e códigos binários, é uma invenção muito mais superior e genial’, alguém com certeza diria. Mas a Dora – ah, a Dora! Ela batia as letras com tinta, com um mecanismo tão imediato e sincero que a sentia quase como se fosse de carne e osso.

Foto: João Vítor Krieger

Demorei também para entender as várias alavancas e botões sem nome. Além do sentimento evidente de ter nascido no começo dos anos noventa e ter crescido já com um PC em casa, usar a Dora era até meio que um ritual. E demorei a entender isso, mas nem era tão difícil: você coloca o papel e gira uma manivela para posicioná-lo; move uma pequena alavanca para escolher a tinta preta; desbloqueia o carro que leva o papel da esquerda para direita; e aciona outra alavanca para o espaçamento entre linhas. E estando o papel bem posicionado, você aperta a primeira letra.

Você aperta a primeira letra. Mas com força, para que Dora deixe soltar um alto estalo. Ela golpeia o caractere sem sutileza nenhuma, carimbando-o no papel com tinta fresca da fita posicionada nas duas bobinas. Aquela fonte inconfundível de máquina de escrever, rude e sem muito capricho estético (mas fantástica no quanto ela torna cru a escrita) me faz sentir na companhia de algum pretensioso escritor de outrora, e me imagino dividindo o escritório com Kerouac e a sua própria Dora. Aliás, com alguma outra máquina. A Dora era minha.

Os estalos continuam. Dora se sente à vontade sendo o único som que preenche o vazio da casa nessa noite em que chegou, sem que ninguém mais estivesse lá para ouvi-la falando. Perco-me nela também, e sinto-me escritor diletante por alguns minutos como nunca me senti.

Não me leve a mal. Sem dúvida comprar uma máquina de escrever não é exatamente um bom negócio, quando você considera o retorno de investimento. Não é como se você pudesse extrair dela um ofício, ou um trabalho útil atual, ou usá-la como eficiente meio de comunicação. Isso é evidente. Dora e eu precisamos reconhecer que sua existência é obsoleta.

Mas nenhum de nós dois se importa. Porque Dora me ganhou numa paixão meio sem sentido. Procurando na internet por coisas sobre máquinas de escrever (buscando nutrir um pouco mais o fetiche por ela, talvez), encontrei uma citação de Hemingway. Aliás, se é dele, não sei. Mas, segundo consta, teria o autor dito que “Não há nada no ato de escrever. Tudo o que você faz é sentar em frente a uma máquina de escrever e se deixa sangrar.”

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Fonte: KindOverMatter.com

Dora sabe disso. Talvez seja por isso que ela seja assim vermelha. Dora, aliás, já passou a me ouvir contar tanta coisa que já a trato como a versão concreta do meu porquê de escrever. E ainda que não seja uma grande lição ou uma máxima a vir de um autor consagrado, ou de alguma lista pronta na internet, devo dizer que nela encontrei uma resposta: a gente escreve para se sentir vivo.

A gente escreve para deixar reminiscências a nós mesmos. Para levar nossas experiências para além de nós mesmos e viver na mente de quem lê, ainda que essa segunda existência dure somente o tempo da leitura do texto em questão. A gente escreve para compartilhar nossa meia dúzia de segredos mais elaborados – e Dora saberia disso bem, ouvindo o que a tenho ditado. São segredos bem narrados, ainda que seja preciso mudar os nomes, na esperança de que a história permaneça igualmente emocionante com os personagens adulterados.

E a gente escreve talvez não porque queira, mas porque tem que escrever. Na impossibilidade de guardar todos os pensamentos na cabeça ou de lidar com tantas narrativas sendo sussurradas por nós mesmos ao longo do dia, a escrita é nossa penseira. E hoje, com tanta coisa efêmera e volátil habitando tantos âmbitos de tudo o que a gente faz,  aí sim é que a máquina de escrever – com suas hastes de metal e tinta fresca – se faz o mais próximo que se poderá chegar de deixar algum pensamento vivo com carne e osso.

Vida longa à Dora.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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Sem comentários

  • Disse Lispector em uma de suas crônicas de jornal que escrever é uma maldição, mas uma que salva. A quem escrever é tão essencial, traduziste todos os sentimentos existentes de confidência ao papel e à caneta, no meu caso, e no seu: à Dora. C’est super!

  • gustsievert 12/11/2014   Reply →

    Republicou isso em gustsievert.

  • gustsievert 12/11/2014   Reply →

    Curti muito o texto da Dora primo! Quero conhece-la e ve-la em ação pelas tuas mãos criativas!

  • Marilde 13/11/2014   Reply →

    Quando chega até mim a possibilidade de leitura de algum texto teu…fico curiosa para lê-lo. Assim que esse momento acontece, penso: como esse garoto escreve! E, como escreve bem! Embora eu também escreva, fico pensando ainda mais: como será o teu processo criativo, a tua inspiração ?! E, após esse texto, belamente descritivo, penso que a escrita transcende, sem muitas explicações. Basta estar apaixonado. Primeiramente por si próprio, depois pelo outro e até quem sabe, pela Dora. Mesmo que seja pelo que já foi. O que Eh raro passa a ser o sonho de consumo porque o imediato já se tornou vulgar. Escrever como Dora, sim meu caro, Eh para poucos.

Degustando...