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Recomeçar, over and over again

começos

Tomar banho de chuva num dia insuportavelmente quente de verão. Ir ao mercado usando pijamas – ou parte dele – e não estar nem aí, haja vista que o cansaço vencera qualquer pensamento que envolvesse trocar de roupa. Abrir o armário, colocar todas as roupas pra fora e se livrar das velhas demais, das que não mais se usa há pelo menos um ano e daquelas que não cabem mais à pessoa de hoje. Num cotidiano entediante, escolher caminhos insólitos para chegar ao destino regular. Passar batom vermelho em plena segunda-feira sem motivo especial aparente. Olhar-se com menos critério, com mais agrado. Mudar um pouco o rumo, perder-se um pouco, desviar-se do plano inicial e permitir-se vivenciar as pequenezas que se põe no meio do caminho.

Há rituais tão pequeninos que podem ser confundidos com insignificância quando, na verdade, são exatamente o contrário. A habilidade em reconstituir-se diariamente é uma tarefa árdua a quem tenta praticá-la – o que dirá quem sequer tenta?! Sabe-se bem o quão cansativo e enfadonho podem ser os dias que, a princípio, tendem a ser ordinários e desprovidos de quaisquer novidades. Cabe então, a nós que estamos vivendo, não deixar que a virulência desse fenômeno se propague e mudar essa fatalidade.

Trata-se de fazer algo extraordinário todos os dias; de aproveitar cada dia não como o último, nem como o primeiro, mas como o agora, e dar a ele a sua devida e massiva importância. É somente neste momento que se pode mudar aquilo que se desgosta, desaprova e inquieta por dentro. Só neste momento que é possível fazer uma mudança palpável, relevante e que fará dos dias, mais agradáveis de serem vividos. Mudanças imediatas – como consertar o espelho torto do banheiro, comprar um novo chaveiro para a chave de casa e organizar a escrivaninha – ou mudanças a longo prazo – increver-se para aulas daquela terceira língua que sempre se quis aprender, pensar a fundo em fazer um intercâmbio e planejar uma viagem como meia dúzia de amigos – repercutirão de forma inigualável na vida que se conhece, dando luz, sentido e significado sensivelmente mais bonitos a ela.

(Um projeto que ilustra a essência deste texto é o #100happydays, vale a pena checá-lo e participar!)

Começar cada dia às 6 horas da manhã não é um conto de fadas. Contudo, preparando um verdadeiro balde de café a fim de espantar a sonolência, despertando-se a um novo dia positivamente, mesmo quando não se está em um clima bom, já muda o rumo das próximas horas. Mesmo com olheiras profundas, cabelo desgranhado – todo mundo tem bad hair days – e remela no olho! Existe um dia inteiro pela frente, e ele quer, mais do que qualquer coisa, ser vivido. A percepção das miudezas alegres e dos pormenores individuais de cada dia, tornam-os únicos e fazem-nos esboçar um número perceptivelmente maior de sorrisos em seu desdobramento. Cabe a nós fazer do recomeço de cada manhã, o mais belo – e a vida, ah!, essa já é bonita por si. Que tenhamos a coragem em nos reinventar diariamente e costumeiramente, para não perdermos o que há de melhor oportunizado a nós através da mudança, pela comodidade da inércia.

Quando era menor, costumava andar para cima e para baixo carregando o meu game boy e toda vez que um cartucho não funcionava, era necessário retirá-lo, soprá-lo um pouco, colocá-lo de volta no aparelho e tudo voltava a funcionar normalmente. Quiçá esse reset, apesar de aborrecer a quem já estava na fase 13 do Pokemón ou no mundo da água do Mario, fosse necessário para não se esquecer de aproveitar – enjoy – o jogo até naquele ponto chegar; e assim funciona com a vida: cada dia é uma nova chance de começar novamente, que dela desfrutemos!

No mês em que falamos de #começos aqui no Uma boa dose a gente aproveita pra falar do Curso LAUNCH! – onde você pode explorar o tema com quem realmente entende sobre a arte de começar. 🙂

 

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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