Horóscopo

Nunca fui fã de horóscopo. Sempre fui cética a respeito, conhecendo a velha fama de colocar qualquer característica ou possibilidade em cada signo, como se fosse um sorteio. Há essa premissa: serve pra mim, mas pode servir pra qualquer um.

Eis que uma amiga perguntou a hora em que eu nasci para, juntamente à data, calcular o meu ascendente. Na hora, o que me veio à cabeça foi: “what the hell? o que é um ascendente?” Mas preferi não perguntar; e, então, recebi um pequeno texto entitulado: signo de Touro com ascendente em Câncer. Confesso que estava receosa com o que estava prestes a ler, embora a curiosidade mais uma vez tenha ganhado a disputa. Adjetivos como “persistente”, “determinado”, “teimoso”, com “tendência às artes”, “necessidade de expressar sua individualidade” e afins recheavam a página.

Eu já imaginava que poderia haver ali características com as quais eu me identificaria, mas não daquela maneira, não aquelas palavras-chaves ou aquela leitura sobre mim. Encaixou tudo perfeitamente demais pra ser coincidência, mas é, só pode ser – afinal, quem acredita em horóscopo?!

Não são características únicas e exclusivas, quiçá nem propriamente minhas e essa é a beleza da coisa toda: todas as pessoas tem um pouco de tudo em si. Somos um enorme quebra-cabeça que, em maior ou menor dose, contemos em nós frações de tudo quanto é coisa deste mundo. Por isso fiquei tão surpresa com o horóscopo, ele tinha tanto de mim ali, mas não obstante continha tanto de outro alguém, também. É incrível como somos tantos em um só e tantos outros alguéns são-nos, igualmente; e, pois, temos em nós parcelas de todos os signos de todos os ascendentes e planetas.

Fernando Pessoa, assinou como um de seus heterônimos – se não me falha a memória foi Álvaro de Campos – a seguinte frase: “sê plural como o universo.” Ser só uma pessoa, ter um jeito estático, pensamentos imutáveis soa tão acomodado e chato, não é? Sejamos um pouco de cada coisa e mudemos conforme os ventos ventam, que tudo na vida há de ser mais constantemente diferenciado se não nos deixarmos cair no ordinário – sejamos extraordinários sempre.

Dito isso, reitero: horóscopo é só uma desculpa esfarrapada pra vender mais jornais.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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