A visita ao labirinto da Mente. Sonhos e afins.

De repente, você se vê em um local totalmente diferente dos que você já esteve em toda sua vida. O ambiente é incomum e estranhamente vazio. Você vaga por ele com cautela, cada passo previamente calculado.

Observa, muito curioso, os arredores, seus cantos. O incerto é uma certeza aqui. Você caminha e caminha, sem rumo, explorando cada centímetro daquele local.

Você não se lembra como foi parar ali, nem o porquê. Você está confuso e ansioso. Tudo está tão… Estranho…

Sua ansiedade é tamanha que se materializa ao seu lado e conversa com você.

– Mas, ei… Não está muito escuro aqui? Onde você quer chegar, bem? Você não para de andar! E se não der em lugar algum essa caminhada toda? Ei, você está com sede? Puxa, que horas são, afinal? EI! Fala comigo!

Você se vira para o lado de onde a voz vem e olha perplexo e assustado. Se surpreende: até que a ansiedade não é tão feia quanto a fome*.

Então, abre a boca para responder e se lembra de que a ansiedade não é uma pessoa.

– Mas que diacho está acont…? – você se pergunta, porém é o que basta. Nem precisa terminar a frase.
Isso mesmo! Era tudo muito surreal para ser verdade.

Como uma lâmpada que se acende quando você tem uma ideia, você se vê iluminado por uma simples percepção: você está sonhando.

Fantástico… E agora, faço o quê? – Você se pergunta e eu posso até ver o sorriso que estampa na sua face.

A dúvida se esvai tão logo quanto chega: hora de correr contra o tempo, claro!

Tive essa oportunidade de me perceber em um sonho duas vezes. Em ambas, minha única batalha era contra o relógio: a qualquer minuto poderia acordar. E acredite, a última coisa que você quer é acordar.

Há milhões de razões para isso: super poderes, controle. Rever alguém que já se foi, reviver algo, etc. Não há barreiras no universo dos sonhos. O mundo, durante o período o qual você está consciente dentro do inconsciente (oi?), está à suas ordens (e não o contrário, como costuma ser).

O ato de sonhar ainda é um mistério para a ciência humana: não existe uma teoria conclusiva sobre tal. Temos, contudo, teses que trazem suposições acerca de o que nos leva a produzir sonhos e o motivo pelo qual fazemo-lo.

Aqui, nos deparamos com um leque de bifurcações que pode ser dividido em dois grandes grupos: religioso e científico. Ambos tem linhas de raciocínio parecidos, porém conceitos diferentes sobre os elementos de um sonho. O primeiro, por exemplo, se baseia, dependendo de qual crença religiosa estamos falando, no misticismo, comumente premeditório, etc. Já o segundo, trata-o, geralmente, como um condensado de símbolos que, somados, trazem uma mensagem a ser decodificada por quem está sonhando.

Gosto de traçar um caminho no meio dos dois, misturando conceitos de um e de outro, pois vejo, em um modelo híbrido, uma forma de tirar proveito do que há de melhor em ambas as visões.

Vejo o ato de sonhar como mergulhar em si mesmo. E quanto mais fundo, mais dentro de si se está. Cada metro longe da superfície aproxima-nos do nosso Eu interior e fortalece, a medida que avançamos para baixo, o elo entre nosso Bewusste (palavra cuja raiz provém do verbo “wissen“, “saber” em alemão, adaptado como “consciente” em nosso idioma) e Unbewusste ( adaptado para “inconsciente” ou “não-consciente” no Português). Esta ponte de comunicação pode prover ferramentas que servirão como instrumentos para estarmos cada vez mais próximos do Auto-conhecimento.

A ponta do Iceberg, representação de nosso Consciente, é só o começo de uma longa e profunda viagem ao nosso Eu.

A ponta do Iceberg, representação de nosso Consciente, é só o começo de uma longa e profunda viagem ao nosso Eu. Fonte: Google

Seguindo esta linha de raciocínio, podemos supor que, quanto mais inconsciente, mais abstratas são mensagens que recebemos: enquanto o nosso Unbewusste descontrói conceitos para usá-los como meio de comunicação, os captamos e tentamos transformá-los em símbolos para que possam ser decodificados por nós mesmos. Quase um telefone sem fio, né?

Mas este é o lado “técnico” da coisa. Sonhar pode ser mais que isso. Muito mais: nem sempre o atrelamos ao simples ato de dormir e produzir cenas repletas de signos e símbolos. A definição menos racional sugere um anseio (e geralmente dos grandes), algo tão próximo do horizonte que costuma ser quase inalcançável como tal. Está sempre ligado a situações que envolvem realizações (não é a toa que usamos o verbo realizar para referir-nos a completude de um). Tão bom que nunca o vinculamos a algo ruim (criamos outra palavra para isso).

Esta saída, um tanto quanto astuta, nos dá dicas de como enfrentamos, culturalmente, o antônimo de sonho. Façamos uso da mágica da manifestação da cultura nos idiomas para aprofundar-nos neste assunto. Começemos pela etimologia de “Pesadelo” no idioma materno de Freud, o pai da psicanálise.

Albtraum (ou sua variante Alptraum) (pasme, os dois são pronunciados identicamente, apesar de um ter “B” e outro “P”) é como os falantes do alemão nomeiam, no alemão moderno, um sonho ruim. É a junção de Alb, um elfo da mitologia/folclore (não consegui chegar em uma conclusão se é um ou o outro) alemã(o), e Traum, “sonho”. Literalmente, Sonho de Alb. Conta-se que tudo o que este elfo espertalhão precisa fazer para estragar nossa noite é sentar em nosso peito. Feito isto, adeus sonhos belos. Além disso, é interessante reparar que, apesar de Albtraum carregar a palavra TraumAlb enfraquece qualquer esperança de algo bom, uma vez que ele é um cara de poucas amizades na cultura alemã.

Alb em mais um ataque inesperado.

Alb, travesso, em mais um ataque inesperado. Fonte: Johann Heinrich

Já no alemão antigo, usava-se o termo “Nachtschade“, cujo significado é mais próximo da nossa versão de sonho ruim (Nacht, “noite” + Schade, “desafortuno” em português, literalmente “Desafortuno da noite”) ou “Nachtmahr” (Nacht + Mahr, outra uma criatura mitológica/folclórica com as mesmas intenções de Alb [e, aliás, mesmo com uma vasta pesquisa, também não consegui concluir se Mahr é um pseudonimo dele ou se é, de fato, outro personagem]).

Em nosso idioma, a palavra “pesadelo” é oriundo da junção de “pesado” e o sufixo “elo”, do latim ellu, que tem função diminutiva.

Comparando as culturas em questão, podemos supor que nosso entendimento é mais “dramático”, apesar de menos vitimizado. Enquanto temos, no alemão, um agente externo sabotando nosso sono, não fazemos menção a nenhum personagem mitológico ou folclórico na nossa versão da palavra. A responsabilidade toda recai sobre nossos próprios ombros (ou talvez este seja mais um efeito da síndrome brasileira do vira-lata, apesar de “pesadelo” fazer parte do nosso Português desde o século XVI 😉 ).

Isto poderia nos levar ao entendimento que, para nós, pesadelos, assim como sonhos, são frutos de material interno nosso (O Unbewusste se manifesta novamente): medos, angústias, frustrações, etc. e não de uma peça sem graça pregada por um elfo(!!!).

Se você cria seus próprios objetivos (sonhos?) e, ao mesmo tempo, obstáculos (pesadelos?) no meio do caminho, o “segredo do sucesso” passa a ser saber lidar com nossas próprias armadilhas, identificá-las e desarmá-las quando possível.

Uma grande polarização generalizada.

Sonho e Pesadelo: um não anula ou enfraquece o outro. Eles andam tão juntos que quase dão as mãos. E veja, isto não ocorre pelo fato de o mundo ser polarizado, mas porque podem coexistir. Devem fazê-lo. Não existe equilíbrio se não existe um contrabalanço. Nós sabemos disso, nem que apenas no inconsciente. Faz sentido?

Sonhar, e sonhar e sonhar. A beleza de ser um eterno aprendiz… (Espera aí… O verbo não era “cantar”?)

A vida é como um grande caça-sonhos. Eles nascem e morrem o tempo todo. Nunca param.

Capturemos os que pudermos. Façamo-los acontecer. E, acima de tudo, nunca deixemos de perseguí-los e agarrá-los com toda nossa força.

Eles são nós.

Somos a soma de todos eles.

Portanto, sonhe com os anjos!

Até a próxima 😉

* tentei achar uma imagem com a Fome do comercial antigo do cup noodles, mas não encontrei 🙁 Deixo-os, portanto, na mão. Que esta personificação fique viva na imaginação de vocês, assim como está na minha. Haha

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
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