Chuva de Verão

Quando as primeiras gotas de água se chocaram na minha cabeça, não havia indício nenhum no céu de que iria chover. O Sol brilhava forte, ainda longe do horizonte, e poucas nuvens flutuavam sobre a cidade. A chuva veio de surpresa, veloz e avassaladora.

Saía do trabalho cabisbaixo, as mãos aconchegadas no bolso e os fones de ouvido fixados na orelha para me isolar do mundo exterior.

Na cabeça, abrigavam-se apenas pensamentos conflitantes. Além do stress carregado do trabalho, pensava em ideias para escrever sobre viver boas doses. Geralmente, assuntos amplamente discutidos e aparentemente simples são os mais difíceis de abordar. E para ajudar, meu tempo já era escasso.

Há dias procurava formas distintas de falar sobre o tema.

Primeiro pensei em sugerir uma reflexão sobre o que seria uma boa dose. Desisti: era uma abordagem por demais aberta. Depois, cogitei montar um escrito com indicações aos textos dos meus companheiros colunistas, mas o desafio se mostrou grande demais para a quantidade de dias que tinha para selecionar as publicações favoritas (só tinha escolhido duas até então).

Estava quase que em um beco sem saída.

Enquanto caminhava e sentia a fraca voltagem da tela do celular dar pequenos choques nas pontas dos dedos por estar molhada, tentei conceituar boas doses. O primeiro conceito foi memórias: quando envolvida por experiências boas, uma lembrança pode ser uma boa dose, certo? Analisei a hipótese por algum tempo.

Suspirei.

Acho que viver boas doses não devem ter condicionais – pensei, riscando “recordações” da minha lista mental.

AMIGOS! – uma longa pausa de análise se fez – Mas… Pessoas podem ser boas doses? Hmm…

Continuei caminhando.

Bom – levantei o dedo imaginariamente – qualquer coisa poderia ser viver uma boa dose, contanto que seja boa. É isso?

O desespero tomou conta de mim.

Familia? Viagens? Tardes em bares? Encontros? Faculdade? Academia? Aprender alemão? – perguntei-me.

Meu deus! O que traduz viver boas doses, afinal?

Pense, Murilo. Pense!

Nada. Parece que quanto mais você quer uma coisa, mais longe ela fica.

Posso colar no dicionário? – indaguei-me.

Claro – eu mesmo me respondi – o dicionário tem várias locuções nominais, mesmo.

Neste momento, já estava prestes a deixar a tarefa para outro dia. Talvez fosse apenas um bloqueio criativo (Ah! Ele existe, sim. Acredite! Já até falamos disso. :P). Ou fosse o trabalho.

Pouco ia ajudar de quem era a culpa.

Para melhorar minha já nobre situação, o celular indicava 8% de bateria. Em outras palavras, deveria parar de escrever e desligar o 3G para poder, ao menos, conseguir ouvir música até chegar em casa.

Coloquei o aparelho no bolso e segui andando. A estação de trem se aproximava lentamente.

Quando me dei por mim, o dia estava sépia. O céu colorido num tom bege amarelado com nuances do cinza chumbo das nuvens ainda carregadas e do rosa dos poluentes suspensos no ar.

Uma forte luz dourada irradiava pelas frestas e buracos que encontrava, tingindo tudo o que tocava em ouro.

Cessei meus passos e olhei ao redor, vislumbrado pelo momento.

Uma lâmpada se acendeu em cima da cabeça e tudo ficou claro. Aquilo ERA viver uma boa dose.

Foi durante aquela chuva de verão que me dei conta do agora óbvio: boas doses são pedacinhos nossos projetados por nós mesmos no mundo. Únicas e pessoais como nossas digitais, apesar de poderem ser compartilhadas. Contagiantes como a gripe. Imunes contra o mal humor.

São aquelas faíscas que saem do peito; aqueles espasmos de luz que só param de brilhar quando o coração decide se aposentar.

Nada são, além do nosso próprio reflexo. Do que enxergamos de melhor no mundo. E, inevitavelmente, do que esperamos dele.

😉

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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