Filipe Burgonovo: música, gratidão e um rápido guia para viver boas doses

A gente não aprende a viver sozinho, eu suponho.

Às vezes, pra que se consiga viver boas doses, é necessário que alguém nos dê o exemplo. E o último exemplo que tenho aqui é possivelmente um dos melhores exemplos da personificação do conceito de uma boa dose que conheço.

Deixa eu contar um pouco mais.

Voltemos a uma quarta-feira de setembro, às 13h mais ou menos. Filipe e eu estamos na saída de um restaurante que serve, como ele talvez dissesse, ‘um rango vegetariano’. Fomos lá a trabalho, na verdade, e ao fim de mais uma reunião, e ele está sorrindo daquele jeito que só ele sabe. Com seus dreadlocks loiros e as claves musicais tatuadas nos antebraços. E o sorrisão, junto das mãos esticadas, com as palmas encostadas e os dedos apontando para cima, como as de quem faz alguma oração.

Gratidão, João. Gratidão!”, ouço-o dizer com aquela alegria inconfundível.

O Filipe, nesse caso, é o Filipe Burgonovo, músico extraordinário que estará em alguns dias no TEDxBlumenau. E eu, pros efeitos dessa boa dose, sou quem teve a sorte de ser responsável pela participação dele como talker do evento. Nossa reunião era para antecipar seu primeiro ensaio oficial com a gente, e lembro-me de sentir que estávamos indo muito bem.

Dessa vez, inclusive, a conversa no almoço de quarta-feira levou a alguma conclusão brilhante. O Filipe tinha em mãos o que me parecia ser sua versão escrita pronta. Não sei se vale adiantar alguma coisa do que ele tem pra dizer, mas alguém poderia encontrar no seu talk um belo guia de como ir atrás dos seus sonhos e de suas crenças. De como usar a música (ou a arte, me arrisco a dizer) como caminho para se conectar com a sua própria essência. E tudo isso passa por sua música — impensavelmente boa — tirada sem pretensão de seu violão.

‘Gratidão’, diz ele.

Imagino que me agradeça por ter ajudado ele de alguma forma a construir, no seu talk do TEDx, uma reflexão bem inédita de sua própria vida. Digo, o mérito é praticamente todo dele. E o que me diverte mesmo é que essa gratidão me ocorre de modo quase irônico.

Explico: em seu primeiro show autoral na Fundação Cultural daqui, eu estava lá.  Quando o Filipe, tomado pela emoção, agradeceu ao público que o viera prestigiar e instantaneamente nos estendeu aquela sua expressão de absoluta felicidade, com a mesma facilidade que tira harmônicas do seu violão — eu também estava lá.

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Foto: Filipe Burgonovo

A plateia vibrava na mesma frequência do artista e celebrava cada nota acertada. Só fui saber disso muito depois, mas a beleza da sua história e do momento meio indescritível de elã nesse show é o contexto do próprio Filipe.

Explicar aqui estragaria um pouco do seu talk, talvez. Não quero entregar mais do que eu entreguei.

Mas talvez eu me permita só um spoiler. O Filipe é o tipo de pessoa que poderia sentar aqui com a gente pra trocar uma ideia e acabar explicando que, não, ele nem sempre foi daquele jeito; e que, a bem da verdade, durante algum tempo sua rotina tinha pouquíssimo violão, sorrisos, dreadlocks, idiossincrasias e vísceras; e bem mais de rotina de empresa e trabalho como tantas outras pessoas.

 

Pensando bem, talvez não houvesse nenhuma correção a ser feita no seu estilo de vida. A pior definição que alguém poderia atribuir a sua rotina de escritório e aos sonhos menos audaciosos seria a de “comum”. A falta de um propósito mais elaborado seria, na pior das hipóteses, tediosa. (Se não pensarmos nisso muito a fundo, é claro.)

E o Filipe, nessa epifania aparente que foi descobrir na música sua essência e voz, deixou tudo isso de lado. O trabalho e o vácuo dos sonhos. Foi ser músico de fato e viver uma vida que fizesse sentido, ou que valesse a pena.

Foi viver boas doses, como a gente diria aqui. Nota por nota, compasso por compasso.

Evidentemente eu não sabia de nada disso à época. Mas vê-lo na Fundação Cultural foi mesmo assim intenso. E mesmo na saída do show, ele levou consigo aquela alegria para fora do palco, e foi agradecer as pessoas por terem vindo.

Levei um tempo pra chegar lá até ele. Alguns amigos e outras fãs se demoravam em longos abraços, sem dizer nada. Alguns se emocionavam, e eu tentava digerir e absorver tudo o que acontecia. Em tempo suficiente, porém, ele parou um instante sem ninguém ao redor.

Senti o impulso de dizer alguma coisa. Fui até ele.

“Cara” — disse e fiquei procurando por algo inteligente pra dizer — “incrível a sua apresentação. De verdade.”

Não saiu tão brilhante como eu gostaria, mas a gente não consegue soar elaborado o tempo todo. Queria comparar ele a algum músico extraordinário que eu conhecesse, talvez algum John Butler, mas não me ocorreu nenhum nome na hora. Não importava; talvez fosse o suficiente ali naquele momento.

E aí ele me agradeceu com um ‘muito obrigado’, e mais alguma coisa que já não lembro. Uma conversa bem rápida somente. E aí talvez ele tenha me dito um ‘gratidão’ despretensiosamente.

‘Gratidão’, fiquei dizendo pra mim mesmo.

Depois que descobri esse contexto todo, com o TEDx de pretexto, fiquei pensando na importância de se abandonar um pretexto de vida e ir buscar nossa essência. Por essas e outras que suas histórias ecoam de vez em quando na minha cabeça como os loops de violão em suas canções. E não achei o que é meu violão ainda, mas tenho que agradecer ao Filipe por mostrar o caminho e me dar essa dica de ir realmente viver boas doses.

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Foto: Tumblr

E quando eu tiver a oportunidade certa, vou fazer bem isso.

“Felipe”, vou dizer com sorrisão, e as palmas encostadas e os dedos apontando para cima: “gratidão.”

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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5 comentários

  • SÉRGIO BURGONOVO 26/01/2015   Reply →

    Obrigado pelas palavras carinhosas a respeito do Filipe. Sempre digo a ele que ele tem uma missão nesta terra. Alegrar as pessoas com simplicidade e pureza.
    Sérgio

  • João! Que coisa linda esse lugar! Vim por causa do Filipe e to vendo que vou ficar!! Vida longa a todos que degustam de uma boa dose! Como diz meu amigo Filipe: gratidão! _/_

  • Pedro 26/01/2015   Reply →

    O estilo de som e as músicas que ouvi dele é muito significante pra mim ! Parabéns !!

  • sandra maria alves Scottini 28/01/2015   Reply →

    Sou suspeita em falar,mas Filipe é inigualável. Amo sua música. Aqui em casa todos adoram ele. Sua música é a cura para a alma. Além de ser talentoso,tem um carisma incrível. É gentil,educado,e o principal, tem humildade. Ele parece um príncipe. Parece um Romeu dos dias atuais. Cheio de encanto, de magia. É mágico!!

Degustando...