Sem Trégua

O primeiro trovão da noite iluminou o céu por um curto segundo. A claridade invadiu meu quarto rude e cruelmente, seguida de um sonoro estrondo.

O roxo escuro se transformou em rosa fúcsia, e logo escureceu-se de novo.

Abri os olhos lentamente, pouco antes do segundo clarão.

Ainda confuso, estendi o braço para puxar a coberta e me cobrir: um vento frio adentrava pela janela em rajadas árticas sincronizadas. Desisti antes que meus dedos a alcançassem: a sensação de frio era tão estranhamente aconchegante e nostálgica que achei justo permitir-me senti-la, mesmo que só um pouquinho.

A primeira coisa que ocupou minha mente depois desta decisão foi o tempo que demoraria para que caísse no sono de novo, principalmente pelo frio.

Pouco depois, sem que nem percebesse, já analisava criticamente minha vida até aquele momento. Um gosto amargo de bile e decepção subiu até a faringe e instalou-se por ali. Não bastou um segundo para que uma lista extensa de coisas que devia rever em mim se formasse em minha cabeça.

Senti-me tonto e nauseado, o corpo perdendo a força lentamente.

Fui afundando para dentro do colchão enquanto o chiado da chuva se fazia cada vez mais distante.

Eis que me vejo encarando três grandes pilares alguns metros a frente. O ambiente é incomum, cinza e vazio. Não há nada além dos pilares e eu.

– Minhas principais estruturas – penso.

Uma marreta gasta com cabo longo e surrado repousava nas mãos.

Comecei a correr de repente. Uma urgência fervia no peito e ia borbulhando pelo esôfago e depois faringe, conduzindo-me para adiante.

Um grande apagão. Minha visão escureceu e senti-me inerte em algum líquido denso. O corpo movimentava-se lento e orbitava livremente pelo vazio.

Pisquei.

A consciência voltou e percebi que estava em movimento. Os braços subiam e desciam sem parar, chocando-se no concreto de um dos pilares criando fendas e rachaduras por toda sua extensão.

Quando me dei por mim, já havia destruído um dos três que avistara momentos antes e estava prestes a destruir o segundo. Cada nova marretada era uma pontada aguda no peito. Uma, e outra e outra e outra. Eu não parava, nem por um segundo.

Soltei a marreta quando não pude mais respirar. Apoiei-me nos joelhos.

Tudo ficou escuro mais uma vez.

A vida eh cheia de mudanças. Toda hora tem alguma coisa transformando-se. Contudo, às vezes a gente se cansa de mudar toda hora. Há momentos que queremos inércia. Um tempo. Um “deixe-me construir minha zona de conforto, por favor”.

Só por hoje não queria participar do sistema. Só por hoje.

Mas a verdade, mesmo, é que dá para contar nos dedos as vivências as quais este pedido é atendido.

Dizem que a agonia é um dos maiores transformadores da vida.

Deve ser, mesmo, afinal, quando estamos nela não temos outra escolha se não enfrentá-la, né?

E então abro os olhos repentinamente. O Sol se espreguiçava no horizonte.

Seus raios de luz queimavam minha retina através da janela. O céu estava anil. Meu clima predileto.

Era um novo e lindo dia começando.

– Vida, sua cretina…- sussurei pouco antes de um largo sorriso se formar no rosto – Obrigado…

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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