Sobre segundos e eternidade

Sou uma observadora. Sou uma observadora e eu vejo.

Há dois meses tive a oportunidade de ir à França. Inicialmente, estava com certo receio pela barreira da língua e pelo “famoso” tratamento pouco amigável dos parisienses. Pensando nisso, subir naquele avião para encarar horas nas alturas que tanto me afligem foi um tanto quanto aterrorizante. Eu tinha um amigo comigo, e ele, por misericórdia divina, arranhava tão bem no francês quanto eu no espanhol (devo admitir que fomos salvos várias vezes por seus arranhões).

Se as pessoas que encontrei nas ruas e estações de trem de Paris eram ou não parisienses de fato, eu não sei, mas nunca fiz tantas pequenas conexões como fiz naqueles 22 dias.

A vida vai tomando certas proporções a partir do momento que assumimos responsabilidades, e na correria do dia-a-dia o ato de “ver” se perde entre os milhares de afazeres que a vida nos impõe. Pois bem, a vida é assim mesmo, mas quando se está atento com as coisas ao redor, a vida vê você. Como? Ela te proporciona as melhores imagens e as reações mais espontâneas e alegres que você pode ter.

Quero falar das pequenas conexões, daquelas que não duram mais que um segundo, mas que se perpetuam em nossas mentes. Mesmo quando desbotada pelos anos que castigam nossas memórias. Quero falar, principalmente, das conexões que fazemos com os olhos.

Na França eu vi tudo isso, todas essas pequenas coisas. Eu estava lá, só observando. Houve ali cenas marcantes, cenas que vão ficar para sempre em minha memória porque a conexão com o momento e com os acontecimentos em torno de mim eram tão grandes que eu podia jurar que o mundo sorria para mim, e pedia que eu sorrisse de volta.

Pode ter sido quando, por duas vezes, duas senhoras que não falavam inglês, mas que apontavam, instruíam, indicavam, tentavam compreender, nos auxiliaram, ou pode até mesmo estar em seus modos desajeitados pela comunicação afetada pela língua, mas grandiosa com os olhos. Não sei dizer em que momento aquilo me afetou, contudo posso dizer com certeza que me tocou de forma fervorosa. Aquece-me por dentro tamanha peculiaridade, mais ainda, transforma meu mundo.

Talvez eu possa falar das crianças nos vagões cheios dos trens, olhando dois estranhos falando em um idioma que não fazia sentido algum, mas que lhes interessava muito. Era incrível a vontade de participar. Poderia falar também dos momentos de desconforto que geraram outras tantas histórias sobre pequenas conexões mal feitas, talvez pela falta de interesse ou do contato visual da vendedora, ou talvez simplesmente porque é assim que ela deve ser recordada por mim.

Penso nessas pessoas agora. O que estão fazendo? O que estão pensando? Será que por algum instante elas também pensam em mim? Elas se lembram de mim?

A questão é que a vida proporciona incontáveis segundos que se eternizam através de nossas lentes coloridas, independentemente de elas serem azuis, verdes, castanhas… A vida nos proporciona conexões que vão além das palavras. São aqueles momentos singulares que vão estar sempre lá, num cantinho, num espaço, muito bem guardado dentro de você. Lugar esse que, quando você decide visitar, sabe que colecionou os melhores.

Ingrid Tanan

Ingrid Tanan

A Ingrid é a moça dos sorrisos com covinhas e das bochechas rosadas. Ela aprecia um bom livro e, mais ainda, uma longa conversa sobre ele. Apaixonada por design, música, Friends, marshmallow, Tim Burton, cadernetas, postais e post-its. Acredita que escrever é seu momento – é poder estar consigo e refletir sobre o finito e infinito. Você pode encontrá-la em qualquer livraria de São Paulo ou às sextas aqui no Uma Boa Dose.
Ingrid Tanan

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