Foto: Tumblr.

Nada mais que um “até logo”

Certo dia, uma grande amiga se preparava para falar a um grupo que se despedia da prática de oratória e que logo se destinaria ao último ano escolar, logo, ela queria dissertar sobre a transição desse fim ao novo começo que teriam, sobre mudança, sobre se despedir; foi então que eu disse a ela que despedidas são apenas deixas para reencontros. Apesar de soar poética, repito a frase em voz alta, sílaba por sílaba, para tentar assimilá-la ao que se passa dentro de mim, mas temo dizer que se trata daquela velha história: easier said than done – mais fácil falar, do que fazer.

A verdade é que se despedir de pessoas, do um lar, da cidade natal, de um lugar, de uma vida, de uma paixão, nunca é fácil. Criamos vínculos de amor, cumplicidade e confidência com aquilo e aqueles que estão sempre por perto e são os tijolinhos que edificam a nossa história de uma forma x, em um lugar x, com pessoas x, até o momento em que o caminho terá de se curvar e esses fatores irão mudar para y. Sabe-se que mudanças são extremamente saudáveis e necessárias, mas isso não torna as despedidas mais fáceis de serem feitas.

Há aquelas que existem simplesmente por uma mudança gradual da vida, como sair da pré-escola para o “lugar dos grandes”, que são despedidas consideradas padrão e por isso não são vistas como grande coisa para quem está de fora – mas são, sim, pra quem as está vivendo. Vejo o quão assustador é se mudar para São Paulo partindo de uma cidade que meio milhão de habitantes tem, o medo resultante em abrir mão do conforto da casa dos pais para tentar a vida morando sozinho, ou como é delicado se acostumar a estudar um curso pela manhã e um de noite em faculdades diferentes; são momentos novos de inéditas rotinas de uma vida que, até então, tinha sido uma linha reta. Digo a estes que estão perto de mim, incluindo a mim mesma, e a tantos outros que sei que passam ou passarão pelos entraves de crescer: o importante é pensar que isso virá para o bem, endireitar-se e agarrar a oportunidade de viver uma história oscilantemente fascinante – pois quem esteve por perto até agora, continuará por aí.

large2

Foto: Tumblr.

Vejo muitas pessoas queridas – e, como já disse anteriormente, eu mesma – passando por esses momentos cruciais e únicos, tentando não se perder no meio do caminho, e tenho certeza de que tudo se ajeitará, porque acredito veementemente que são essas oscilações que engrandecem, factualmente, as pessoas, tornando-as hábeis a batalhar sempre por uma melhora em suas realidades. Faz parte de crescer a luta por uma jornada de grandes feitos, méritos e honras, contudo, é imprescindível que se mantenha as companhias inestimáveis de quem sempre esteve lado a lado ou quem se tornou especial recentemente. Há de acabar tudo em felicità e há que se pôr em prática o que ensinou Alexander Supertramp – ou Christopher McCandless: a felicidade só é real quando compartilhada.

Quem sabe os reencontros esporádicos sejam um milhão de vezes mais interessantes do que encontros constantes, porque todas as pessoas terão histórias de todos os cantos do mundo e de toda a natureza para contar; os lugares onde passamos grande parte da vida terão mudado, as ruas estarão diferentes e quiçá a sua própria essência e, assim, haverá novas realidades para conhecer naquele núcleo que antes era a palma da mão. Por fim, metamorfoses à parte, as conexões que nos permitimos durante toda uma vida, continuarão existindo – arrisco dizer que mais fortes do que nunca.

Os novos adultos – nós, esses novos grown-ups – se vêem incubidos de fazer às suas vidas as melhores decisões deste leque infinito de oportunidades espalhadas em um planeta inteiro, e embora soe como solitário e saudoso, será assim por uma migalha de tempo apenas, porque o coração e a cabeça irão se acostumar hora ou outra. A saudade está aí como uma lembrança de que os vínculos formados permanecerão intactos em memória e diz que cabe a nós manter os reencontros, porém sussurram que se deixe de lado a vontade de ficar estagnado em um lugar para evitar a distância, uma vez que o único sentido da vida é para frente – e quem nos quer bem, nos quer melhores, mesmo que longe. Em face de uma despedida, dí-los-ei que deixem o doloroso “adeus” de lado, e àqueles que amam, digam um “até logo” com um sorriso no rosto.

tumblr_n01je0RFsg1skwl0yo1_500

Foto: Tumblr.

“À bientôt!”

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

Experimente também

Humans of New York, Humans of the World

Por Ingrid Tanan

O tema do mês é Vivendo Boas Doses, e, embora já tenha postado anteriormente a minha boa dose, não consegui […]

A Arte de Correr na Chuva

Por Humberto Cardoso Filho

Parece que eles sabem. Eles encontram as pessoas que mais precisam deles, e preenchem nelas um vazio que elas nem […]

Sem comentários

Degustando...