Os Brigadeiros do Gui

Um áudio pelo celular. Minha irmã nunca me manda esse tipo de coisa.

No meio de uma reunião, está lá a notificação na minha tela inicial. Ícone verde do aplicativo, indicação de mensagem de voz e ela como remetente. ‘Estranho’, eu penso, ‘minha irmã nunca me manda áudios pelo whatsapp’.

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Foto: www.optimaitalia.com

Por um lado, não sou exatamente ágil com as informações trocadas ali. O histórico das mensagens não respondidas não me deixa mentir. Talvez a gente trocasse mais mensagens se eu usasse melhor o aplicativo.

Mas pensando bem, mesmo compartilhando com ela do mesmo sangue e daquela conexão que só irmãos têm, o teor das mensagens que a gente troca entre si transita comicamente pelo trivial. “Compra pão”, “Não esquece de dar comida aos dogs”, “Já olhou o presente da mãe?” são exemplos comuns.

Mas e o áudio?

Pois é. Também me pergunto do que se trata.

Esses dias alguém ligou lá pra casa e passou aquele golpe do sequestro; quiçá estão tentando essa história de novo. Ou pode ser que alguém da família tenha ficado muito doente. Ou se acidentado. Alguma colisão de carro. Algum infortúnio com os cachorros, não sei. Sou normalmente o último a saber das coisas, então é difícil de conter o pessimismo.

Não ouço o áudio de pronto. Fico com o cerne tenso, mas a reunião primeiro precisa acabar. Estou em uma conferência local da AIESEC, organização pela qual tenho uma paixão absurda e agora também um quinhão grandíssimo e deslumbrante de responsabilidade, e converso com o chair (que conduz o evento conosco). Isso merece minha prioridade, me parece.

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Foto: Gunjan Marwah

Eventualmente tenho minha deixa. O ambiente do hotel no litoral catarinense em que estamos me dá uma brecha, mesmo pulsando com delegados incansáveis nessa conferência de fim de março.

***

Aperto o play:

“Dindo, estou na sua casa”, diz uma voz risonha de criança.

É meu afilhado e primo de quatro anos de idade.

“Dindo, a gente tá fazendo brigadeiro…” — ele continua ao som de alguém rindo e sussurrando ao fundo, que definitivamente é minha irmã — “a gente tá fazendo brigadeiro e você nem sabe.”

‘Você nem sabe’, repito mentalmente pra entender direito de onde veio essa.

“Você nem sabe e…”, ele hesita, “onde você está, Dindo?

Fim do áudio.

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Foto: Pinterest

Minha irmã é uma grande team player, a bem da verdade. Enquanto estou por aí a trabalhar e fazer conferências locais com a AIESEC, essa minha amada organização do terceiro setor — num grande empenho de desenvolver pessoas, com saudável pretensão de mudar o mundo, e efetiva catálise de ações positivas e efetivas  — é ela que está lá com nosso afilhado, fazendo brigadeiro e representando a gente pra família como eu talvez não saberia fazer tão bem.

‘Onde você está, Dindo?’, me pergunto.

Às vezes parece difícil ponderar o que pesa mais na balança.

***

Quando eu tinha a idade dele, lembro-me de também gravitar em torno de meus primos mais velhos, mesmo quando estavam ausentes nas visitas que fazíamos aos meus tios, e de me perguntar onde estavam. Eu contemplava longamente o porquê de eles não estarem lá para brincar comigo no carpete marrom e levemente empoeirado de suas casas, para uma partida de Mario Kart ou mesmo para um brigadeiro.

À época, lembro até que esses primos (em idade universitária, inclusive) passavam por coisas que me pareciam pertencer a outras realidades. A gente sentia neles claramente esse tom de mudança de quem ocupa o limiar da vida efetivamente adulta, mas essa barreira me era intransponível de qualquer forma.

Por certo, crianças mudam o tempo inteiro. Diria até que estão se reinventando tão constantemente que elas não saberiam me dizer o que é mudança, assim como um peixe não saberia dizer o que é água.

E aí eu não compreendia o que poderia ser mais importante para eles que estar lá para um brigadeiro.

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Foto: Tumblr

Não compreendia, por exemplo, o que talvez significasse essa carga de responsabilidade que as pessoas ganham depois de certa idade. Também não sabia dizer porque deles era exigida tanta dedicação para que passassem por essa fase de intensa mudança.

Se fosse listar, hoje talvez soubesse por onde começar. Seria um priminho mais compreensivo, pensando, por exemplo, no prazer (ainda que às vezes cansativo) de passar horas fora trabalhando, especialmente num trabalho que faz sentido pra gente;

Pensaria nas dores do mundo, e no encargo compartilhado com o resto das pessoas de remediá-las;

Nas pessoas próximas que deixam de sê-lo (e às vezes de súbito), e na dedicação de nos mantermos fiéis às amizades;

No tanto de estrada e pedras no meio do caminho que a gente tem que pegar pra convencer nossas retinas pouco cansadas de que a gente sabe de alguma coisa;

Na passagem do tempo, tão efêmera e volátil;

Que as coisas são, sobretudo, muito transitórias e nada realmente se destrói ou acaba, mas que tudo muda e se torna alguma outra coisa;

E pensaria finalmente nas paixões, amores e desamores inevitáveis de uma vida – especialmente porque, apesar da volatilidade de todo o resto, talvez seja o amor a única coisa que nos dê uma sensação de permanência real, e por isso merece tanto do nosso esmero e zelo.

 ***

Aperto o play novamente.

“…Dindo, onde está você?”

‘O Dindo está longe, mas volta também’, penso.

Ensaio uma resposta que talvez venha em anos ou só dita mesmo nas entrelinhas.

‘O Dindo precisa passar por mudanças de corpo e alma pra te servir de exemplo pra alguma coisa.’ E antes de continuar, vejo passar por minha cabeça uma coleção de memórias aleatórias que guardo para tentar ter um resumo da minha breve vida:

As ruas do centro de Blumenau; trilhos de trem vazios; nascer do sol laranja no morro do careca; igrejas de séculos atrás e um domo de ouro de alguma catedral estrangeira; a China, o Leste Europeu e Berlin; músicos e maltrapilhos de rua; incontáveis horas de escritório e milhares de e-mails; largos rios sob pontes de ferro, algumas com cadeados coloridos e outras incendiadas; pianos na rodoviária, partituras de valsas e suítes; multidões de conhecidos, amigos queridos e detentores de segredos indizíveis; pequenas e grandes verdades; fachadas com grafite e frases de efeito; máquinas de escreverlivros, cadernos e tomos de conhecimento, acadêmico e empírico, nem sempre tão úteis; souvenires e cartões postais; super-heróis e destinos cruzados; as primeiras tardes de sol de verões, opostas às primeiras brisas geladas dos invernos de outrora; estrelas e astronautas; olhos verdes, azuis, castanhos e manchados; ressacas de todo o tipo e redenção do dia e do ano seguinte; cafés amargos e histórias mais ou menos inventadas

—e nisso, tudo o que me ocorreu para dizer-lhe foi, enfim, que ‘você também ainda vai mudar bastante.’

Sem conseguir compartilhar dessas visões, ele vai me olhar sem saber o que dizer, talvez só querendo saber que horas vamos sentar para jogar video-games ou sair para brincar de ladrão e bandido na rua.

‘Já estou terminando. E carinha, quero só dizer que, entre nós dois, talvez seja você quem mais mude agora.’

Olho rapidamente para a foto dele de dois anos atrás, vestido de Batman, que parece ser quase outra criança tamanha a diferença:

‘Mas mesmo assim, você vai entender tudo isso um pouco melhor daqui a algum tempo. E que a gente sente para trocar uma ideia a respeito, porque o Dindo morre de curiosidade para ver até onde esse sorrisão vai te levar.’

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Foto: Tumblr

Ele ri e faz uma careta.

‘Entendeu?’, falarei também rindo para ele. ‘Os ganhos se notam no rosto, então a gente tem que esperar para ver quais frutos tudo isso nos trará’.

Impaciente, diante da conclusão sentimental e incompreensível, o pequeno vai enfim me fitar e perguntar se já acabei.

‘A gente pode ir comer brigadeiro agora?’

Pode, claro. E suspiro sabendo da alegria e do dissabor que há diante dessas mudanças inevitáveis. O brigadeiro com o Dindo, do jeito que é agora, é algo que já não existirá depois de um tempo.

Mas que a gente continue mudando, custe o que custar. Os frutos serão nossa redenção.

E que nossa ausência seja mais bem medida.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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2 comentários

  • Vera 31/03/2015   Reply →

    Achei o texto incrível. Lindo e real.
    beijos

  • Dinda 02/04/2015   Reply →

    Amei… Lembrando de quando era você com essa idade, pedindo brigadeiro pra dinda, e como o tempo corre, mudando tudo e todos e, ainda sim, continuamos os mesmo!!

Degustando...