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Samba a dois

“Uma conversa”, por Carla Mereles e Paulo Queiroz

Estar — não permanecer — só é uma forma de claridade. Os momentos de ficar comigo mesma e me entender melhor são como botar óculos após certo tempo sem ou olhar para os pés sob a água transparente. Tenho-me comigo mesma por esparsos pedaços de tempo e isso me basta; a ideia de melancolia se esvai. A beleza em me compreender, eu conviver bem comigo permite uma sincronia mais harmoniosa de pensamento, alma e coração. Em espaços reservados à minha companhia, a que tantos chamam de doce solitude, prefiro nomear de reuniões, quiçá meras conversas — assim, confesso: as conversas que tenho na minha cabeça renderiam boas crônicas.

Estar só é se dar a oportunidade de ouvir ao próprio silêncio eloquente. As vozes que brotam todas de nós, falam múltiplas conosco. Se há alguém que as pode ouvir, em silêncio e meditação, somos sós nestas tarefas. Ouvir a vida conversando conosco é muitas vezes calmante. Faz-nos descobrir quem somos, ou pelo menos questionar o que buscamos. Às vezes, entretanto, de forma dissimulada, numa histeria confusa as vozes da solidão falam todas juntas. Sentimos o desejo e a necessidade de um ouvido que pudesse conosco entendê-las.

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Ao caminhar pela vida, deixa-se pedaços seus pelas estradas, ruas, vielas em que se passa e, de alguma forma, a vida parece consistir em ter esses pedacinhos seus absorvidos por quem passa por eles, à medida que se passa a levar alguns consigo, igualmente. Só isso explica existir gente tão como a gente, alguém que se assemelhe tanto a mim ou por quem a simpatia seja tão excepcional. Algumas pessoas se conhece, outras se encontra— e essas, ao encontrá-las “as estrelas parecem descer do céu”, como vi num filme esses dias. Quando essas pessoas tão singulares adentram minha vida tudo faz mais sentido, porém um questionamento é constante: “como eu não te conheci antes?”. Não há somente um alinhamento de ideias, jeito ou forma de encarar a vida, esse encontro seu e de mais uma alma nesse universo gigantesco é único pois até nos momentos mais vazios existe significado. Há ainda, acima de tudo, uma identificação ímpar com a outra parte, uma afinidade e harmonia inigualáveis e, a partir disso, duas pessoas acabam por construir uma relação que será das mais belas criadas por si. São essas as pessoas que deixam marcas indeléveis em nós e, no fim do dia, tudo o que se pode fazer é agradecer e pensar “fico feliz em ter te conhecido”.

Alguns acreditam em destino, outros não. Eu mesmo não acreditava, e até certo ponto não acredito. Só não consigo deixar de entender como irônico e curioso quando um encontro tão peculiar acontece. É o clichê do “na hora certa e no lugar certo”. O que certamente faz a coisa tão mágica é o sentimento de ter batido de frente com um espelho. Ok, não é dos mais lúcidos e dos mais verossímeis, mas o espelho por natureza já forma uma imagem virtual, portanto, a virtualidade de enxergar noutra pessoa tanto assim e ainda sendo complementado por características tão distintas e tão boas, não há alguém que não queira isso. Pode-se praticamente naturalizar o nascimento de uma paixão assim, porque é assim que é. A cada coisa nova que se adquire de tão bom do outro, também se doa. Uma troca construtiva de qualidades que nos torna enormes. Ao mesmo tempo, uma desconstrução daquilo que até então pensávamos ser. 

“I’m glad I didn’t die before I met you”, ou fico feliz que não morri antes de te conhecer. Tenho certo ciúme de músicas ou bandas queridas a mim, algumas delas prefiro manter só comigo. Dito isso, aquele trecho é de uma das músicas mais queridas do Bright Eyes, uma banda quase secreta — ou que assim era — e esse verso dela eu compartilhei com pouquíssimas pessoas durante a vida. Aí está a moral dessa — minha — história: existem aquelas pessoas que permanecem conosco e de com cujo encontro existe essa felicidade indescritível em conhecer. Sou comigo como com as músicas especiais, divido-me com quem sei que está por aqui sempre, com quem permanece, com os poucos e bons.

O preliminar encontro não para por aí, um mirar. O tempo passa, e quanto mais se mira, mais próximo se chega. Aproxima-se na forma de fusão. Um ajuntamento tão caloroso, tão sorridente, impossível de ser medido. Um sentimento imediato. Parecem não haver fronteiras, a confiança é natural, nela nem mais se pensa. É um canal tão forte de energias, emoções, prazeres, que até mesmo a solidão se transforma em companhia. Uma companhia telepática intensíssima, sinto tua presença. Dá-me a mão, faz-me feliz com teu olhar, isto basta. 

Andar de bicicleta sem um destino final ou relógio a me controlar, deitar na rede que fica pendurada na varanda e apreciar o encantador pôr do sol de outono, ler um livro de crônicas ou poemas, sentar num café para ler – é desse jeito que converso comigo. Aprecio muito ficar comigo mesma, porém adoro a companhia de alguns, que a mim são inestimáveis. Pois, sinceramente, não há nada melhor que sentar num café e ficar por horas conversando sobre tudo e qualquer coisa, convidar quem queira sentar em algum lugar para assistir o sol se pôr ou sair para andar de bicicleta e depois dividir uma água de coco — ou melhor, encontrar um alguém. Não há nada nessa vida que se equipare à companhia dessas pessoas singulares, que permanecem, juntinhas conosco em coração. O tempo jamais fará justiça à companhia delas, será ele sempre pouco, escasso, de menos; contudo, de nada ele tem culpa, todo o tempo do mundo não seria suficiente para descobrir tudo o que se pode aproveitar com essas pessoas e ao seu lado viver. Em especial, tenho uma em mente neste momento — com quem divido os melhores cafés, conversas e sorrisos.

 

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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