Casa Pré-Fabricada

{Trilha sonora inicial.}

Certos dias têm mágica. Não precisam de planejamento prévio, preparação ou qualquer coisa a mais. Parece que eles já amanhecem com o intuito de ser extraordinários, sabe?! Não sei bem como explicar, mas tenho certeza de que todos já tiveram alguns durante a vida.

O meu último sábado foi assim: esplêndido. Como — quase — todo bom dia, abri a venesiâna da minha varanda e o céu estava de um azul celeste incrível. Resultou em um sorriso. Logo depois, preparei o meu café, troquei de roupa e saí de casa, com aquele sentimento pulsante de alegria. Outro sorriso.

Chegando em casa novamente, agora em companhia, essa também bem sorridente, o relógio batia meio-dia. Começamos nosso almoço a 4 mãos e, apesar de já termos preparado várias refeições juntos, eu e ele estávamos especialmente felizes a respeito dessa. Posso jurar que a alegria estava no ar. Hora de arregaçar as mangas: ele foi buscar o alecrim na horta, eu fui preparando os temperos. Ele cortou as batatas em fininhas rodelas, eu temperei o peixe. Ele colocou as rodelinhas com alecrim no forno e eu o peixe, também com alecrim, azeite e muito carinho.

Contudo, não me sentia satisfeita assim. “Vamos comer lá fora?”. Outro sorriso seguido de um: “Vamos!”. Lá fomos nós, carregando mesa e cadeiras casa a fora. Entre olhares sorridentes e checadas no forno, arrumamos a mesa do nosso jeitinho para uma celebração. Prato, garfo, faca e vaso — tá, na verdade uma xícara — com flores colhidas no quintal. Tudo em seu lugar certo — perdoe-me a etiqueta, porque segundo ela havia bastantes coisas erradas até, mas—, estava tudo onde deveria estar. Celebrávamos muito além do tempo juntos: celebrávamos o viver. 

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Foto da autora.

Com um cheirinho maravilhoso de alecrim perfumando os nossos pratos e o nosso dia, com um céu celeste e limpo de nuvens, sentamos frente um do outro. Sorrimos. Porque era isso o que nos restava fazer: sorrir. Aproveitar esse momento com o sol deitado sobre nós no encanto do outono. Como não se encantar por dias assim? Que nos fazem esquecer de todas as coisas erradas, todos os problemas, todos os entraves, impasses e tropeços cotidianos; basta-nos somente imergir no momento e nos deixar levar. Afinal, todo o resto estará aí na segunda-feira que segue, né?

“Deixa o verão pra mais tarde”, pendura tudo num cabide e esquece dentro do armário, veste só depois, só quando convier. Abra-se à vida, aos momentos que ela proporciona e aos dias lindos com que ela nos presenteia. Sei bem que existem semanas daquelas, inclusive estou vivendo uma, bem turbulenta e chuvosa, mas procuro lembrar que o melhor está ali, esperando para me dar a mão. Além da boa companhia, claro, “que me acalma e me traz força pra encarar tudo”. Por fim, ninguém é feliz o tempo todo e pergunto-lhes: de que são feitos os dias especiais se não de momentos esparsos e raros em sentimento?

{Trilha sonora final.}

Seize all days, folks, mondays included!

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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