Que coisa linda/que as mães são!

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Quando eu era criança, lembro de minha mãe dizendo:

Filhos, filhos?
melhor não tê-los!
mas se não os temos,
como sabê-los?

Eu ria pela forma como ela fazia soar, da velocidade cuidadosamente medida. Lembro-me de minha mãe recitando esta parte do poema milhares de vezes (que só depois de grande descobri, em um livro de poesias, que era Poema Enjoadinho de Vinicius de Moraes).

Eu, na minha inocência, pensava que era injusto, pois se minha mãe podia falar aquilo (digo falar, porque acreditava que ela tinha criado o poema), eu também podia falar algo do gênero. Então, na minha mente, eu murmurava:

Mães, mães?
melhor não tê-las!
mas se não as temos,
como sabê-las?

Contudo, eu refletia: se eu não tivesse a minha mãe, eu não estaria aqui.

Eu não existiria. Eu jamais deixaria de ser um projetinho guardado nas gavetas do universo.

Aí eu percebia o quão falha minha versão era. Porque minha mãe tinha o direito de escolher ter filhos, e ela teve, não só um, mas dois (embora eu escute relatos de que eu fui um acidente, né, mãe?!), mas eu não tinha o poder de estar aqui. Não sem ela.

A questão é: todo o princípio da vida parte da decisão de ser mãe. Do desejo de carregar, por uma vida inteira, o bebê no colo – mesmo quando ele já tem barba e ela a vontade de ser mãe também.

Então, quando minha mãe me apresentou o próprio poema de Vinicius de Moras, dizendo que nós (eu e meu irmão) éramos a razão pela qual a vida dela era mais linda, eu simplesmente esqueci toda minha intriga e questionamento para aceitar o fato que, independentemente de como todo o processo acontece, somos pedaços de um algo maior, inconcebível em palavras, mas traduzidos em um sentimento: amor.

Sendo assim, a todas as mães, em especial a minha, deixa o meu muito obrigada pelos seus “sim”, pelos “não”, e pelos “talvez, se você se comportar”. Obrigada por fazer de seus sonhos, a nossa realidade. E por fazerem de si mesmas, a nossa parte mais preciosa.

Ingrid Tanan

Ingrid Tanan

A Ingrid é a moça dos sorrisos com covinhas e das bochechas rosadas. Ela aprecia um bom livro e, mais ainda, uma longa conversa sobre ele. Apaixonada por design, música, Friends, marshmallow, Tim Burton, cadernetas, postais e post-its. Acredita que escrever é seu momento – é poder estar consigo e refletir sobre o finito e infinito. Você pode encontrá-la em qualquer livraria de São Paulo ou às sextas aqui no Uma Boa Dose.
Ingrid Tanan

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