For you, a thousand times over

Não é a primeira vez que um livro se abre e me suga para dentro da história. Não é a primeira vez que um livro me prende por barras formadas por palavras e me faz ver o sol quadrado, ou, como muitas das vezes, nem ver o sol, de fato.

O que me surpreende em livros como esse – O Caçador de Pipas – é a habilidade que o autor tem de fazer com seus personagens tornem-se reais ao ponto que eu pense: “seja mais como Hassan,” ou, talvez, pela simples vontade de reler a mesma frase mil vezes.

Sou uma pessoa que deixa livros atingirem profundamente o ser enquanto os olhos se pregam nas páginas. Sou do tipo que acredita que nenhum livro é ruim, e que, é claro, todos têm algo bom para oferecer. Sendo assim, todo livro tem um gosto especial, único.

Estou simplesmente fascinada pela história de Khaled. Fascinada por como ela mexeu comigo e me virou do avesso. Penso na facilidade dele para formar frases, na sua delicadeza para expor os fatos, na sua indiscutível franqueza. Khaled é o rei dos escritores. Sinto-me lisonjeada por lê-lo.

John Green uma vez disse “books belong to their readers” (livros pertencem aos seus leitores, numa tradução livre), e eu acredito plenamente nisso, tanto que quando digo que li o livro de Khaled, digo-o toda orgulhosa, como se eu o tivesse feito eu mesma. Mas, ainda assim, acredito que o que John Green quis dizer, principalmente, é o fato de como você interpreta o livro que tem em mãos. Como você se sente ao terminar de ler, e até mesmo as lágrimas que derramam por saber que a história que você está testemunhando não cabe mais em si.

No fim das contas, o que mais penso na história que Khaled me ofertou (e que bom que o fez!), é: tudo é frágil. Mas não é porque é frágil que irá quebrar fácil. O mundo gira, a vida segue, mas tudo se encaixa, porque é assim que tem que ser.

Penso e repenso nas vidas que se cruzam, nos momentos que se passam, alegrias, dores, sorrisos, fantasmas. Penso nas pessoas que estão na minha vida, nas que estiveram e nas que, logo, entrarão. Penso no ontem e no hoje, penso no amanhã. Penso em tudo que já fiz, nos sorrisos que plantei.

Penso em Hassan, o rapaz da história em O Caçador de Pipas, como ele se tornou real pra mim. É como se nós dois, juntos, partilhássemos do mesmo mundo de bondade e generosidade. Algo puro, que somente nós dois podemos ver. Gosto quando livros fazem isso, digo, me dão essa sensação de que foram escritos para mim.

E, então, penso – e até me vejo dizendo isso: for you, a thousand times over.

Ingrid Tanan

Ingrid Tanan

A Ingrid é a moça dos sorrisos com covinhas e das bochechas rosadas. Ela aprecia um bom livro e, mais ainda, uma longa conversa sobre ele. Apaixonada por design, música, Friends, marshmallow, Tim Burton, cadernetas, postais e post-its. Acredita que escrever é seu momento – é poder estar consigo e refletir sobre o finito e infinito. Você pode encontrá-la em qualquer livraria de São Paulo ou às sextas aqui no Uma Boa Dose.
Ingrid Tanan

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