Joaninha

Amor_Topo-Blog

Quem me conhece de perto sabe que falar de amor atualmente não é uma das coisas mais fáceis para mim. Ver-me sem planos após quase três anos ao lado de alguém não foi tão descomplicado como parecia ser.

A experiência (o pré, o durante e principalmente o pós), porém, trouxe inúmeros e inegáveis benefícios. Dividir sua rotina com alguém é uma troca constante: o tempo todo você expõe a si e ao seu parceiro. E, quando você está, de fato, em um relacionamento, você se vê em um grande processo de auto-conhecimento: relacionar-se com alguém é, também, relacionar-se consigo mesmo. Você se observa mais, se vê mais observado. Dá e recebe o tempo todo.

Dentre as mais diversas formas de amor – e de amar –  esta é, em específico, a mais fatal de todas. Ele se aproxima na surdina e espera o momento certo para nos fisgar. Quando nos damos conta, já é tarde demais. Uma vez capturados, não há mais retorno. Por isso, essa é a minha primeira teoria: o amor não acaba, se transforma.

Amor é como uma montanha-russa: uma estrutura complexa e de aparência perigosa, mas que não é tão assustadora quanto parece ser quando vivemos a experiência. No começo, até temos certo receio de entrar na brincadeira. Contudo, depois que estamos envolvidos, não queremos mais que acabe.

Quando sentimos que estamos prontos para encará-la, acomodamo-nos em algum de seus carrinhos com muita ansiedade e insegurança: por mais que queiramos viver aquela adrenalina toda que ela nos promete, não queremos, ao mesmo tempo, passar tamanho risco por essa vontade.

Quando a trava de segurança nos prende e sabemos que não temos mais como fugir, o coração se descontrola. Agora não tem como desistir. Em poucos instantes, nos vemos subindo. Cada segundo que passa representa um aumento considerável da distância entre nós e o chão, o aumento da nossa ansiedade seguindo a mesma proporção. O topo se aproxima e percebemos que, muito em breve, estaremos caindo para valer.

E então, é isso. Sem nem conseguirmos piscar ou nos segurar na trava, vemo-nos em queda livre. A velocidade ultrapassa os 180km/h e não pensamos mais em nada. A adrenalina toma conta da nossa consciência e a única coisa que queremos é que essa sensação não acabe nunca mais. O trajeto tem outros tantos altos e baixos, loopings e revira-voltas. Nada é constante, afinal, uma montanha-russa nada mais é que uma constante inconstância.

Quando acaba, se acaba, nos deixa a dúvida se vamos querer brincar mais tarde. Mas ela passa logo: claro que hora ou outra iremos nos arriscar novamente.

Amor é uma grande aposta. Primeiro pois estamos lidando com muitas váriaveis, dentre as quais X (você) e Y (o outro) permutam opiniões, anseios, desejos e objetivos constantemente. Sempre há o risco de um futuro desencontro; esse, que será o bater da asa da borboleta que a teoria do caos prega. A dúvida, portanto, é quão dispostos estaremos para apostar nossas fichas e, sobretudo, quão preparados estaremos para perdermos* tudo em um único e singelo piscar de olhos. *No amor, perder significa transformar, nunca subtrair.

Amor não é projeção: não devemos cobrir o outro com expectativas e anseios nossos, uma vez que não cabe a ele cumprí-las. Amar é uma soma, mas não é qualquer uma. No amor, a conta é sempre 1 + 1 = 2, nunca 1/2 + 1/2 = 1. Justifico: não somos um ser só e nunca seremos; estar com alguém é compartilhar sua história, não fundí-la com a do outro.

Amor é abrir seu coração e deixar que ele seja visitado todos os dias. É respirar fundo, girar a maçaneta, abrir a porta lentamente e convidar o outro: “Entra?”. É tomar o Elixir do acaso e esperar que ele sempre faça efeito.

Amor é viajar. É como estar em um trem cujo destino é desconhecido e a única certeza que temos é a direção: algum ponto do horizonte, onde o céu parece tocar a terra. É, portanto, movimento. Porque, querendo ou não, sempre estamos em ação, seja nas camadas mais profundas ou na superfície mais rasa do nosso Eu.

Amor é partir. É saber quando dizer adeus. É saber quando abrir mão do mais precioso que tem pelo e/ou para outro. É aquela tarde de Sol poente que anuncia a escuridão da noite e, ao mesmo tempo, o brilho contínuo e cintilante das estrelas e da Lua. É aquela promessa de que logo o Sol volta e nos aquece mais uma vez.

Amor é uma joaninha da sorte. Aparece de surpresa, benze-nos por tempo indeterminado e voa livre. Seu rastro não fica no ar, mas a marca em nós fica para sempre. É longo. É rápido. Mas nunca é efêmero o bastante para não deixar pegadas.

É como uma memória: é meio turvo, desfocado. Mesmo assim, traz o que há de melhor em nós. Porque ele é único, pessoal e intransferível.

Mas talvez eu não esteja 100% certo. Talvez eu esteja completamente equivocado. Talvez o amor não seja nada disso. Talvez, até, isso tudo que falei seja mais paixão do que amor. E, talvez, essas sejam apenas palavras de um coração resfriado que espera voltar ao normal. Mas, cara… Amor é exatamente isso. É ter esperança. Por isso, e só por isso, amor é tudo.

Ou nada.

Mas é.

***

Ao som de um blues, pegue em minha mão e me chame para dançar.

Não se incomode se eu encostar minha cabeça em seu ombro, ou se sorrir bobo por qualquer besteira que você me disser.

Seguindo a batida lenta, deixemos que nossos passos se sincronizem.

Fechemos os olhos e sintamos o coração um do outro. Segure minha mão com mais força neste momento, se quiser.

Se nossa música acabar, prometa-me não deixar de dançar. E se partir, seja lá por qual motivo, prometa-me que não vai olhar para trás.

Prometa-me o mundo que puder me dar. E não se acanhe se ele for menor do que acha que devamos ter. Ele será suficiente enquanto for verdadeiro.

Prometa-me não deixar de cantar junto à melodia do seu coração e nunca desacreditar nas notas que lhe canta.

Acima de tudo, por favor, só me abra a porta se quiser me deixar entrar

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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Sem comentários

  • Don 11/06/2015   Reply →

    Lindo texto. De tudo o que voce disse, o que pra mim é a prova que voce realmente entendeu o que é o amor, é a frase “O amor não acaba, se transforma”.
    As pessoas que não entendem acabam transformando o lindo e iluminado tempo que passou ao lado de alguêm, em dolorosas e escuras memórias do passado.
    Que bom que isso não aconteceu com voce. Parabéns.
    Continue amando. Hoje e sempre. Voce merece. O mundo merece. E a vida faz muito mais sentido quando agimos assim.

Degustando...