Foto da autora.

O dia em que o jornalismo me escolheu

Não estava levando muito a sério. Assim, era só mais um trabalho de faculdade, sabe? Não era algo tão importante. Comecei a pensar em perguntas e… Tá bem, vou explicar do começo tudo o que aconteceu.

O professor da disciplina de “Rádio e TV” designou que minha turma fizesse entrevistas, de dez minutos cada, que seriam gravadas em horário de aula. A minha estava marcada às 21h e o entrevistado seria o pai de uma amiga. Já estávamos dentro da sala há um tempo aguardando o início da gravação. Todos conversando, descontraídos, sobre todo e nenhum assunto ao mesmo tempo, até que o professor pediu se poderia adiantar minha entrevista, já que haviam acontecido problemas com os horários.

Subi correndo para imprimir a minha pauta – afinal, estava pronta para fazer tudo isso com calma, uma hora antes do que estava planejado. Primeira sala de informática: em aula. Segunda: em aula. Terceira: lotada. Agora só me restou o laboratório de fotografia… Ufa! Tem computadores disponíveis! Sentei frente ao primeiro que vi, coloquei meu login e senha. Não foi. Tentei o segundo. Não foi. No terceiro, foi. Com o coração na boca, ajustei as perguntas nas páginas para que pudesse cortar as A4 ao meio. Desci os três lances de escada correndo, tomando cuidado pra não tropeçar e apresentar um programa de TV com o olho roxo ou sem um dente.

Chegando ao Estúdio A, estava o restante do meu grupo a postos, o professor, o pai da minha amiga, as câmeras enquadrando as poltronas do cenário de ângulos diferentes. “Podemos começar?”, perguntou o professor, e tudo o que respondi foi um aceno positivo com a cabeça. Sentei à poltrona, coloquei o microfone na aba do meu blazer, ajustei-o um pouquinho.

“Tá pronta?”, perguntou o operador da câmera principal. “Tô”, falei, ainda anestesiada pela correria. “3, 2, 1…” e dei início ao programa de entrevistas, apresentei o convidado, iniciei as perguntas. Havia preparado vinte delas, porque dez minutos na televisão é muita coisa, então era melhor estar preparada caso o convidado não falasse muito. Não foi o que aconteceu. O tema do qual falávamos era “a paixão em viajar” e o convidado, como o próprio assunto já faz deduzir, era um verdadeiro apaixonado.

Eu mergulhei. Caí de cabeça na atmosfera do momento, me prendi no relato lindo de um espírito livre dedicado ao hábito de viajar, de explorar e desbravar o mundo. Foi então, em um piscar de olhos, que um membro do meu grupo levantou uma placa em que se lia “encerramento”, que me fez voltar pro mundo real. Fiz uma última pergunta ao entrevistado, questionando qual era seu próximo sonho de destino e qual sonho ele já realizara. Improvisei o encerramento – eu não havia lembrado de pensar nele – e as câmeras pararam.

Foto da autora.

Senti-me vazia. De um momento em que me sentia absolutamente alheia a tudo o resto do mundo, com meus pensamentos voltados somente àquele lugarzinho, com seis ou sete pessoas, duas poltronas e algumas câmeras, e um sentimento inabalável de completude. Tamanha era a plenitude que sentia… Só depois fui entender: afinal, eu estava falando sobre um assunto do qual gosto, que considero relevante, com alguém que também era apaixonado. Como não amar? Além disso, todo o conversado, o entendido, a experiência não ficaria armazenada numa conversa normal a dois. Qualquer um que tiver interesse nela, poderá assisti-la, poderá aprender, entreter-se, ouvir sobre um assunto que lhes brilhe os olhos – como brilhavam os do entrevistado e os meus durante todo o tempo.

Clóvis de Barros Filho diz em uma palestra que o seu primeiro momento de eudaimonia — um estado de plenitude do ser, bem-estar, felicidade inabaláveis — foi quando se colocou frente à sua sala de aula, ainda bem jovem, para apresentar um seminário sobre petróleo. Ali, se sentiu completo — e completamente pleno. Nesse lugar, sua felicidade era infindável.
Há anos, meus momentos eudaimônicos se resumem em quando as palavras se juntam para fazer algo bonito. Seja quando termino um longo trabalho escrito, seja quando penso num assunto e tenho a urgência em escrever sobre, seja quando aprecio aquilo que construí. Até então, minha eudaimonia não tinha lugar nem hora marcada pra acontecer, era um momento em que importava o que ou por que eu escrevia. Logo, eu sabia que o porquê da minha eudaimonia era o ato de escrever. Tanto que alguns dos motivos pelos quais escolhi por cursar jornalismo — agora penso que o jornalismo me escolheu, tipo as varinhas com os bruxos nos filmes do Harry Potter — foram a paixão em escrever, a devoção ao jornalismo impresso, o sonho em fazer disso um trabalho, algo de todos os dias. (Portanto, atesto meu medo em gostar de realizar uma entrevista na tv).

Agora, parece que encontrei meu lugar de eudaimonia. Ele pode não ser exatamente um palco, um palanque, ou algo do tipo, mas cumpriu seu papel em conceder felicità.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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