Bicicleta amarela

Não é a primeira vez que acordo com essa sensação. Já faz muito tempo, na verdade, que não sei o que é viver sem ela. Eu abro os olhos para essa realidade e a aflição logo toma conta de meu ser.

O medo prende-se a mim como uma criança que se agarra no pescoço da mãe quando está machucada. Mas, diferentemente da criança, o sentimento não me deixa depois de alguns minutos de choro.

Não me recordo quando tudo isso começou, só sei que meu estômago se revira e reclama dos meus atos. E me pergunto como é que ele sabe, e por que se recusa a aceitar meus mimos quando decido me alimentar de meus pratos favoritos.

Lá fora, o dia está lindo. Olho pela janela e vejo o brilho do sol tocar tudo que pode, deixando o mundo mais claro, mais vibrante. Vejo pessoas andando apressadamente. No final da rua, crianças jogam bola, outras soltam pipa. Neste momento, percebo como as pessoas seguem com suas vidas, independente de perdas, ganhos, sofrimentos, alegrias, dúvidas. Lá estão elas, caminhando para o trabalho ou para a escola.

O farol abre, carros vêm e vão enquanto as pessoas esperam.

Fico na janela, somente olhando. Não sei a razão, mas sinto-me aguardando por algo. Quase como se eu soubesse que ali havia uma mensagem para mim.

Uma bicicleta amarela surge no meio daquele mar de gente. Uma moça a conduz tranquilamente, como se não houvesse ninguém na calçada. Há uma cesta presa à bicicleta, com flores dentro.

De repente, eu não sou mais a pessoa olhando pela janela. Eu sou uma criança de 9 anos. De muito tempo atrás. Eu sou aquela pequena figura na garupa da bicicleta da minha mãe. Seguro firme em sua cintura porque ela me dizia que deveria ser assim. Ela está numa velocidade considerável, mas eu gosto. Adoro a sensação do vento em meu rosto. Minha mãe freia, pára, olha pra mim, sorri.

“Você não vai acreditar!”, ela abre um sorriso ainda mais largo, e eu me pergunto se ali não cabe toda a felicidade do mundo.

“O que foi, mãe?”, indago.

Ela desce da bicicleta e pede para que eu a segure. Assim o faço.

Nunca entendi porque minha mãe fez isso. Era um dia como qualquer outro. Por que?

Ela dá meia volta e corre pela estrada até chegar num canto onde bastante mato crescia devido ao descaso com aquela região da cidade. Então, minha mãe se agaixa e agarra algo que ainda não consigo ver.

Ao cruzar a estrada e caminhar em minha direção, ela abre outro sorriso. Eu me derreto por dentro, mas é segredo.

“Você é a pessoa mais sortuda do mundo.”

“Por quê?”. Não entendo o que ela quer dizer.

“Olha o que encontrei!”, ela diz, mostrando-me um dente de leão tão branco quanto neve. “É impossível achar um dente de leão por aqui. Por isso você é pessoa mais sortuda do mundo. Anda, faz um pedido.”

“Um pedido?”

“Sim, um pedido. Você pode. E daí assopra bem forte pra eles voarem”. Ela se mostra ansiosa, eu me entrego ao incerto.

Fecho os olhos.

Faço um pedido.

Assopro.

“Ha, viu? Foi fácil. Agora, hora de estudar. Pronto?”

“Sim, mãe”, respondo

Subimos na bicicleta e completamos a viagem. Quando chegamos à escola, desço e caminho para o portão. Mas uma sensação me faz parar no meio do percurso. Existe essa atração que me puxa e me faz correr em direção à minha mãe e envolvo-a em um abraço apertado, o mais forte que posso. Ela me abraça de volta. Ficamos assim por um bom tempo. Essa é minha forma de agradecer ao universo por ser a pessoa mais sortuda do mundo.

Ficamos em silêncio, pois ele fala mais que qualquer outra coisa. Então, olho-a nos olhos. Dessa vez quem sorri sou eu.

A lembrança me deixa leve, quase como se pudesse voar.

A moça na bicicleta agora está sumindo no final da rua e mal posso vê-la. Para ela, só tenho uma coisa: gratidão.

Ainda com o sabor da lembrança, rapidamente fecho meus olhos. Penso em minha mãe, na bicicleta, na estrada, no matagal, no dente de leão, no sorriso, na pessoa mais sortuda.

E faço meu pedido.

Coragem, querido coração.

Ingrid Tanan

Ingrid Tanan

A Ingrid é a moça dos sorrisos com covinhas e das bochechas rosadas. Ela aprecia um bom livro e, mais ainda, uma longa conversa sobre ele. Apaixonada por design, música, Friends, marshmallow, Tim Burton, cadernetas, postais e post-its. Acredita que escrever é seu momento – é poder estar consigo e refletir sobre o finito e infinito. Você pode encontrá-la em qualquer livraria de São Paulo ou às sextas aqui no Uma Boa Dose.
Ingrid Tanan

Últimos posts por Ingrid Tanan (exibir todos)

Experimente também

A força do silêncio

Por Gabe Hansel

Nesse momento em que o mundo todo faz barulho, busco resgatar o silêncio. Os sons da massa em busca de razão e […]

Maço ou carteira

Por João Vítor Krieger

“Maço ou carteira?”, me pergunta o caixa do posto de gasolina. Eu nunca sei a resposta dessa pergunta, ainda que […]

Sem comentários

Degustando...