Foto: Tumblr.

Peixe grande

Coragem_Topo-Blog

Na vida, a gente pode escolher se quer ser um peixe grande em um lago pequeno ou ser um peixe pequeno em um lago grande.

Quando era menorzinha, sempre dizia que queria ser um peixe grande, mas num lago grande, afinal, “por que vou querer ser grande e viver num lago que é pequeno?”. Não ia caber. Todos os adultos diziam que eu iria crescer ainda mais… Essa ideia me era bastante desconfortável, já que não haveria espaço suficiente para mim. Pensar num lago grande era mais legal – espaço mais amplo, maiores chances de esbarrar em outros peixes, mais cantinhos para conhecer e desbravar.

As outras opções não eram tão atrativas. Sendo um pequeno em lago grande, por exemplo, era arriscado. Haveria grandes chances de me perder. Facilmente. Com os peixes grandes passando sob e sobre mim, criando intersecções e cruzamentos submersos, tudo ficaria confuso. Seria difícil me orientar por ali, com tanto tumulto, com tanto movimento. Seria complicado de encontrar o meu lugar e, quem sabe até, a mim mesma.

Mas, se eu estivesse num lago grande e, nesse processo que os adultos chamam de crescer – que é aparentemente o porquê de eu precisar comer brócolis, cenoura e beterraba ­–, me tornasse um peixe grande, talvez não ficasse mais tão perdida. Teria crescido ali, me tornado maior ali, mais forte, mais sábia. Saberia como me virar pelos caminhos do lago e conheceria muito peixes com quem conversar. O tumulto talvez fosse igual, mas seria uma marola em vez de uma grande onda. Eu me encontraria mais facilmente e, com sorte, já teria encontrado o meu lugar.

Mas, para ser grande, é preciso ter coragem. Coragem para crescer num ambiente inóspito a seres em crescimento. Coragem para ser pequeno num lugar grande demais.

Quem sabe ser um peixe pequeno num lago grande não mais seja tão assustador assim ao pensar em constantemente buscar evoluir e ser mais do que se é. Melhor e, consequentemente, maior. Quem sabe, um dia, tornar-me um peixe grande num lago grande, também.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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