Quando a Coragem encontra a Liberdade

Nossas vidas podem tomar cursos diferentes a partir de pequenos atos e escolhas – um evento qualquer pode chacoalhar sua vida de forma que as coisas nunca mais voltem ao seu lugar original.

Portanto, teme-se muito a mudança. É difícil propor-se sair da zona de conforto sem saber como voltar à estabilidade. Pensa-se muito nas escolhas. Inevitavelmente, perde-se muito com o medo do risco de perder, de não poder mensurar se o ganho existe, se é pouco, proporcional ou maior do que o investido. A gente só acaba descobrindo mesmo qual resultado nossas escolhas vão dar quando a gente se mexe.

Eu estava com tudo isso na cabeça naquela noite glacial de julho – não é exagero! Era uma das noites mais frias do ano. Era uma segunda, ou quarta, eu não me lembro muito bem. Sei, ao menos, que voltava do curso de inglês e que passava das nove da noite.

Durante o trajeto todo para casa, analisava o meu momento de vida daquela época. Desde adolescente tenho essa mania de introspecção. Muita coisa tinha mudado em um ano: nova escola, novos amigos, desafios diferentes… E um novo Murilo que se apresentava tímido e ao mesmo tempo inquieto, batendo nas paredes das minhas entranhas para se fazer notado. Ele me acenava toda vez que pensava nele, como se dissesse para mim “Eu estou aqui, portanto, não se esqueça de mim. Lide comigo”. Eu, em resposta, lhe sorria dourado (amarelo é tão anos 90), e lhe prometia cuidar dele assim que estivesse preparado.

Quando me dei por mim, Já estava chegando no ponto de casa. Levantei-me do assento e, na frente da porta, sinalizei ao motorista:

– Na gráfica desce – em 2006, eles ainda paravam fora dos pontos de ônibus da prefeitura.

Pouco antes de sair, espiei rapidamente a rua através da janela – estava deserta, como sempre naquele horário.

Ao descer da lotação, vi minha mãe do outro lado da avenida. Ela estava lá, parada na esquina, sozinha. A luz amarela do poste cobria o topo de sua cabeça e os ombros, formando um fino manto dourado que a fazia parecer um anjo.

Com os ombros encolhidos e pés juntos, tentava manter o calor das mãos raspando uma na outra rapidamente. Sua respiração condensava assim que deixava seus lábios e pairava pesada naquele ar gelado.

Naquele momento, meu peito borbulhou e eu entendi: ela era a pessoa mais importante da minha vida… Mas isso foi só parte do que aconteceu naquela noite – junto a esta tardia percepção tomei uma daquelas decisões que vibram todos os alicérces da nossa vida. Decidi lidar com aquele novo Murilo. Foi mais ou menos assim:

Atravessei a avenida e sorri para ela, que me retribuiu instantaneamente, beijando-me a bochecha depois. Minhas pernas começaram a enfraquecer e senti meu peito afogar-se em ansiedade.

Respirei fundo e repassei mentalmente o plano que acabara de desenhar. Teria de ser algo rápido, direto e indolor. Tremia sem saber se era o frio, a ansiedade, o medo ou tudo junto.

– Mãe…

– Fala, filho.

– Eu sou um cara diferente…

– Todos somos, filho. Como assim, diferente?

– Hmmm – balbuciei – não sou igual todo mundo, mãe.

Não haviamos andado sequer um quarteirão inteiro e ainda nos faltava mais três e meio. Poderia deixar para outro dia, mas já estava no meio do assunto… Não dava para voltar atrás.

– O que você quer dizer com isso? – ela me perguntou confusa, apesar de eu ter certeza de que ela já tinha uma ideia, assim como você agora.

A partir daqui, a memória se confunde e eu não sei ao certo quem cantou a bola. Talvez tenha sido ela mesma, eu não sei. Mas lembro de ter falado:

– Mãe, eu curto caras…

Ela me olhou por um segundo, e logo depois fez uma careta até que engraçada.

– Credo, Murilo – exclamou ela – você beija homens?

– Hmmm, sim, mãe.

– Você é homossexual?

Senti minha cabeça girar e um leve baque se instalar no estômago.

– Hmmm, sim, mãe, sou gay…

Naquele momento, meu coração explodiu junto a uma tonelada de pensamentos conflitantes que se chocavam uns contra os outros.

– Você vai fazer desessete, ainda. Tem certeza?

– Hmmm, tenho, sim, mãe.

– Você sabe que não é o que eu imaginava para você, mas que vou te apoiar, né?

– Sei, sim, mãe.

Minhas respostas eram robóticas e pré-fabricadas. Era, contudo, o melhor que eu podia fazer naquela situação. Eu só queria chegar em casa e me afogar nas cobertas para acabar logo com aquela conversa.

– Só não conte para o seu pai agora. Não sabemos como ele vai reagir.

– Hmmm – meu estômago se contorceu de novo seguido de um estalo que percorreu toda a espinha – tudo bem. Não vou falar nada… Ainda.

Então estávamos em frente a nossa casa. Passei pela porta da sala e fui direto ao meu mais novo quarto – minha irmã saíra de casa recentemente para se casar – e dormi pensativo.

Na mesma semana, minha mãe me deixou um pequeno bilhete na mesa dizendo que havia feito o possível para não chorar na minha frente naquela noite para não me deixar triste e que iria sempre estar ao meu lado. Sempre fui grato por esse cuidado que ela teve – se ela tivesse chorado quando lhe abri meu coração eu teria sentido culpa de ser o que sou. Isso teria sido um problema.

Sair do armário em geral, ao menos para mim, nunca foi uma coisa muito simples: eu sempre fico ansioso e receoso, por mais seguro de mim que eu esteja.

Assumir uma orientação sexual diferente da heterossexualidade requer muita coragem: não só pelo medo de ser julgado, ser deixado de lado, vulgarizado, etc – não preciso dizer que, apesar de estarmos no século XXI, ser homossexual ainda é um tabu da sociedade moderna brasileira – mas também pelo simples ato de conseguir entender que você é diferente, sim, mas que isso não muda quem você é. Que um detalhe como este, inofensivo à vida alheia, não deveria fazer qualquer diferença na visão que as pessoas têm de você. Infelizmente, muitas vezes faz.

Esse terreno arenoso e minado da incerteza faz com que eu esteja sempre alerta. Estou o tempo todo observando os outros, tentando enxergar se posso ser sincero, se posso abrir esta porta da minha vida para eles… Se vale a pena deixar claro ou se tanto faz. “Saber de mim” acaba se tornando um indicador de intimidade, apesar de eu não esconder isso na maioria dos casos. É mole?

Quando abro o jogo, sempre me acompanha o medo de que as pessoas saiam da minha vida por isso. Às vezes, acontece. Às vezes, magoa, às vezes, não. Faz parte.

É impagável, porém, a sensação de liberdade quando saímos do armário. Sentimos, fisicamente mesmo, toneladas de peso sobre os ombros evaporarem. Nem sempre estamos intactos – há, sim, o risco de sairmos com cicatrizes – mas uma coisa é inegável: sentir-se livre. Bater as asas como um pássaro e ir longe, sentindo que pode ser você mesmo sem receios.

Tem gente que, ao escolher se desenjaular, acaba pagando isso com a vida. E tem gente que decide nunca voar por medo do que pode vir pela frente. Em ambos os casos, a morte vence. Sonho com o dia em que o desamor vai deixar de existir. Provavelmente não estarei mais vivo para ver isso, mas vibrarei, de onde quer eu que esteja.

Eu decidi voar, por minha felicidade em primeiríssimo lugar, tomando todos os riscos implicados nessa decisão. E que assim seja.

Ei, você. Quer voar comigo?

 

***

 

Hoje, em especial, sair do armário não foi tenso. Claro que quando eu postar isso na minha timeline pessoal talvez o sentimento mude. Mas… A cada novo dia, há a confirmação de que o tempo não para. A vida se esvai um tiquinho a cada segundo que passa.

 

É que… Veja… Repito: o carpe diem nunca me fez tanto sentido…

 

Até a próxima!

 

😉

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
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Um comentário

  • Don 18/07/2015   Reply →

    Lindo. Tudo que vem sincero do coração é lindo.
    Parabéns por sua coragem de ser voce.
    Essa liberdade não tem preço.

Degustando...