Exílio

Confesso que aquela foi uma das tardes mais felizes da minha vida até então.

Explico: uma promessa de longa data, recém posta em terceiro plano, reerguia-se astuta, quase que de surpresa, fazendo-se robusta e presente. Eu iria finalmente sair de casa. E foi naquela tarde que tive a confirmação.

Com as chaves na mão, entreguei o contrato de inquilinato e sai da imobiliária com um novo lar. A ansiedade não cabia em mim.

Não que morar com meus pais fosse algo ruim – muito pelo contrário – mas a experiência de morar sozinho (e, no meu caso, com uma amiga) é só o primeiro passo do que chamamos de vida adulta. Um mundo de novos caminhos se formava diante do meu nariz, permitindo-me já imaginar as ramificações representadas por inúmeras bifurcações naquela longa estrada à minha frente. Isso é o máximo que eu consigo expor em palavras.

O primeiro domingo do mês de Julho foi meu primeiro dia aqui. O apartamento não tinha nada além de mim, um rack, uma tv, dois videogames, um tapete e três malas de viagem com minhas roupas. (Ah, claro! E algumas sacolas com itens de higiene pessoal que havia comprado na noite anterior e alguns produtos e apetrechos de limpeza que comprei com a ajuda da minha mãe).

Minha primeira tarefa de casa nova foi comprar um colchão inflável. Concluí-la sem grandes empecilhos e logo me vi no meio da sala de estar, com o peito inflado de orgulho, preenchendo minha mais nova cama com ar. Depois, quando cheia, arrastei-a para debaixo da janela – dá para olhar as estrelas através dela, além do ar fresquinho que uma janela provê. Todo mundo deveria dormir debaixo da janela pelo menos uma vez na vida.

A semana que se iniciou prometia novidades: com os móveis já comprados, tudo era questão de tempo para que aquele espaço começasse a ter cara de lar. Neste momento, o tempo ainda comportava-se como um elástico – esticando em certos dias e retraíndo-se em outros.

Sem internet (ela só veio a ser instalada ontem, dia 29) e sem ninguém por perto, passei o que seria uma das semanas mais solitárias, com um ápice do “choque de realidade” na Quinta-feira – um feriado no qual nem a porta destranquei.

Acho que aquela quinta foi um dos dias que menos tive contato humano na minha existência. Foi, também, o dia que vivi minha primeira grande lição da vida adulta: minha entendida “autossuficiência” tinha um limite. E mais: ser adulto significava, além de todas as rssponsabilidades embutidas na experiência, saber lidar com si próprio: Estar cara-a-cara com você mesmo e não calar aquela vozinha que às vezes incomoda a gente, sabe? Enfrentar todas as arestas da sua personalidade, das mais pontiagudas às menos afiadas, tornando-se mais íntimo de si e descobrindo que há coisas que você tanto critica nos outros estampadas em si de forma tão clara que te surpreende não ter notado que você também possui tais características antes.

Pois é. Não foi tão fácil quanto achei que seria. Mas valeu (e ainda vale) muito a pena.

Ser gente grande não é só pagar conta. Nem sair da casa dos pais, ser independente, cuidar da casa, lavar a própria roupa, etc… Mais que isso, é conhecer cada parte sua. Observar conscientemente lados antes tão ocultos que nem fazia ideia que existiam (e que não se enquadram, necessariamente, no que chamamos de “bom” ou “ruim”) hoje emergindo na superfície e dando-lhe um olá.

Vivi um exílio pessoal. Escolha própria, claro – poderia não ter vivido três semanas dormidas num colchão inflável, sem geladeira, fogão, micro-ondas e internet, racionando água potável e comida – podia ter vindo quando tivesse o “básico” para viver. Entretanto, escolhi encarar o “desafio” e, hoje, quase um mês depois de ter iniciado, de fato, a vida adulta, me vejo fortalecido.

Experiências como: usar um multímetro (para mim sempre foi e será “testador de voltagem”) para testar as tomadas da cozinha para não queimar a geladeira 110v (e rir de si mesmo ao ler o manual de instruções três vezes e ainda estar inseguro se entendeu direito ou não, ignorando, de cara, a primeira informação em negrito do mesmo “para uso estritamente profissional“); trocar um plug de tomada sozinho e se orgulhar disso; montar a própria escrivaninha (OK, 80% dela, pois as gavetas e a porta contei com a “ajudinha” do meu pai); ajudar seu pai a montar seu guarda-roupa e notar, após horas de trabalho, que muitos parafusos sobraram e tirar sarro disso com ele) são exemplos de vivências que eu teria simplesmente ignorado se tivesse me mudado mais tarde, com o apartamento menos “cru”. Memórias que hoje fazem todo o sentido e que me completam por serem tão especiais apesar de “pequenas” e “efêmeras”.

E sabe qual é o melhor de tudo? É que isso é só o começo.

😉

***

No meio do olho do furação, isto é, minha mudança de lar, tenho vivido outras tantas experiências. Vindo ao trabalho, com um guarda-chuva na mão, tive um insight, fruto do pequeno escrito abaixo. Mesmo sem uma previsão de chuva, e tendo em vista que a neblina que cobre São Paulo hoje pela manhã nada mais é do que um presságio de um dia bastante ensolarado, trouxe meu guarda-chuva… Ao comparar este ato de trazer o guarda-chuva sem uma aparente necessidade com o meu atual momento de vida, uma metáfora pessoal bem divertida suplica por atenção. Portanto, é com ela que eu fecho essa participação do mês.

Até a próxima!

Eu sempre carrego um guarda-chuva comigo.
Onde quer que eu vá, para fazer o que for, sempre me acompanha o guarda-chuva.
Nos dias quentes e nos frios.
Nos dias mais felizes e nos mais tristes.
Comigo, o guarda-chuva sempre anda.

Às vezes, num calor de 35 graus, debaixo do céu mais anil do mundo, indagam-me:
– Por que raios você está com esse guarda-chuva?
Eu nunca sei responder. Mas ele me acompanha aonde eu for.
Onde estou, ele também está.

Ando com ele há tanto tempo, tanto tempo, que nem sei se ele vai abrir quando eu precisar.
É que não chove faz tempo. E quando deu de chover, eu sempre estava disposto a me molhar, sabe?
Era uma garoazinha fraca, ou aquela chuva de verão começa 100m de você chegar no seu destino.
Situações que davam para encarar sem meu parceiro e grande amigo guarda-chuva.

Um dia, talvez, eu precise dele de verdade.
Quem sabe amanhã?
Quem sabe semana que vem?
Não sei.

Tudo fica bem simples:
Se chover, eu o abro.
Mas só o abro se chover.
De verdade.

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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