Lua Nova

Apesar da ausência da lua, a noite estava muito agradável. A temperatura, totalmente atípica até mesmo para nosso inverno tropical, beirava os vinte e poucos graus. Não havia uma nuvem sequer no céu.

Eu caminhava relativamente lento em direção a minha casa – uma mochila cheia de comida pendurada nas costas e duas mãos ocupadas com as compras da recém visita ao supermercado. O pensamento voava longe, transitando entre como minha semana tinha sido tensa e confusa, como minhas férias estavam a ponto de acabar e como eu não tinha ideia de como abordar otimismo, apesar de eu me considerar uma pessoa muito otimista.

Mal sabia eu que estava prestes a passar por uma situação que me renderia uma bíblia de ideias para falar do tema.

Ele veio silencioso, ou talvez foram meus fones de ouvido que o silenciaram, tocou meu antebraço com certa cautela e, quando cruzamos o olhar, percebi que estava em apuros – antes mesmo de pensar em perguntar quem ele era, sua arma apontada para a minha barriga me contou tudo o que eu preciso saber sobre ele.

Fica tranquilo – fala sereno – só quero o celular.

O português foi bem claro, mas tomei alguns segundos adicionais para captar toda a mensagem – entre o momento de eu notar a arma dele apontada para mim e ele falar para eu ficar tranquilo, várias coisas se passaram na minha cabeça:

i – Entrego o celular e sou baleado sem motivo. Lembro-me de todas as notícias de latrocínio que eu já li até hoje. Vejo-me no chão e reclamo de ter partido tão jovem;
ii – Empurro-o para a avenida e corro. Sou baleado e caio no chão com o rosto virado para ele. Acho que não escapo dessa;
iii – Será que ele só quer mesmo o celular? Estou com oitenta reais em compras. Por favor, só leve o celular…
iv – Poderia ter o poder de voltar ao tempo e pegar aquele bendito ônibus. Por que fui inventar de passar por esse viaduto a esta hora?!
v – Entregue o celular AGORA!

Ele não chegou a ouvir minha voz. Nunca lhe respondi. Entreguei-lhe o celular como se nem
fosse meu e segui meu caminho sem olhar para trás e rezando para que ele não mudasse de ideia e me roubasse o resto.

Busquei um rápido consolo no céu quando passei pelo portão do condomínio, mas a lua não estava lá. Conforme os minutos se estenderam, me vi cada vez mais calmo. Logo aquela sensação ruim passou, junto com a tremedeira nas pernas.

Por um momento, sentei no sofá e parei para analisar o que tinha acontecido. O que mais senti, por incrível que pareça, foi gratidão: agradecido por não ter sido machucado (ou pior), por não ter perdido as esperanças em São Paulo (eu nem sequer cogitei a ideia de sair daqui agora), tampouco pelo meu atual bairro. Não perdi aquela energia gostosa de “Yay, já sou mais independente! Vamos viver essa experiência!”. Claro que agora, mais do que nunca, estou mais assustado de sair à noite. Não vou ficar mais andando a pé por ai como estava fazendo antes. Porém nada disso me tirou a vontade de seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

Foi quando eu parei para pensar: otimismo é um estado de espírito ou um estilo de vida?

O Michaelis (Aurélio quem? :P) deu três opções. Escolhi a primeira: Disposição, natural ou adquirida, para ver as coisas pelo bom lado e esperar sempre uma solução favorável das situações, ainda as mais difíceis.

Talvez eu não concorde muito com o “esperar sempre uma solução favorável”. Acho que, quando tomados pelo otimismo, nós certamente deixamos de “esperar” e passamos a “agir”. Otimismo clama por movimento, não só por esperança.

Ser otimista não está só em ver o mundo mais colorido, tampouco em só esperar o melhor dele. Trata-se, também, de adaptabilidade e motivação. Gerar, em qualquer acontecimento, aquela força motriz que te empurra para frente. Ou pelo menos buscá-la em si.

Naquela noite não tinha lua. Mas ela estava ali, em algum lugar. Só não dava para ver. Acho que o otimismo é mais ou menos assim. A gente só tem que aprender a achá-lo.

😉

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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4 comentários

    • Murilo Igarachi 16/08/2015   Reply →
      Murilo Igarachi

      Fico muito agradecido e honrado de ter sido referenciado nos links da semana! 🙂
      É muito gratificante saber que o escrito foi apreciado.

  • Letícia 13/08/2015   Reply →

    primeiramente, olá 🙂
    adorei seu texto. Já passei por situações como essa – mais do que gostaria de lembrar – mas infelizmente, no meu caso, eu ainda sinto um extremo medo de sair de casa heheheh
    Mas o otimismo é bom, me ajuda a encarar cada dia como se nada de ruim fosse acontecer e, quando ele ousa falhar, logo tento recordar de como eu me sinto segura quando penso que tudo vai ficar bem.. é mais ou menos isso 😉 haha
    beijo, Lê!

    • Murilo Igarachi 16/08/2015   Reply →
      Murilo Igarachi

      Oi Lê! Muito obrigado pelo comentário. Sempre busco qualquer feedback de quem lê meus escritos e é bem legal quando alguém compartilha algo comigo, assim como você fez. Viver traumas não é nada gostoso, mas cada tombo é sempre um novo começo, né? Espero que logo você se sinta segura (ou ao menos mais confortável… rs) Beijão!

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