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Manifesto contra as pessoas chatas

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Não sei falar sobre otimismo. Nem sobre Papai Noel ou qualquer outro assunto do qual não tenho conhecimento de causa. Sério, eu nem sei o que é otimismo. Sempre o achei meio fantasioso, coisa de quem nunca teve um pedaço sequer do calcanhar grudado ao chão. Nada contra sonhos, até porque otimismo não tem nada a ver com sonhos, pela minha perspectiva, e sim com uma categoria mental de coisas não-tangíveis, ilusórias e utópicas.

Não consigo ser otimista porque a realidade me é muito crua, muito intensa, muito pulsante. Ou porque quando acordo, às 6h da manhã, já vejo gente saindo de pasta e cuia pelo condomínio, indo trabalhar, para ganhar o pão do dia, em trabalho que muito provavelmente não gosta, visto a sua feição; ou porque quando abro o jornal pela manhã as primeiras notícias são sobre economia, e não sobre exposições culturais no CCBB; ou porque tá todo mundo tão politicamente chato correto que eu não consigo mais engatar horas de conversa.

Acho que o mundo ficou careta; e as pessoas, chatas. Ninguém mais brinca, faz piada ou solta uma boa gargalhada. Ninguém conversa sobre os livros que lê, as músicas que ouve, as bandas que descobre ou filmes incríveis que lançaram “naquele festival gringo”. Ninguém mais fala nada agradável, sobre como o trabalho está legal, sobre como se está empreendendo ou sobre aquele passatempo que antes se tinha – aí quem aprendeu a falar francês ou a tocar gaita já logo desiste de compartilhar suas coisas boas, porque são pensamentos bons demais para combinar com o tédio dominante.

Sobre o lado do bom da vida, ninguém fala mais. Tenho medo de conversar com as pessoas, porque grande parte das que conheço, só sabe reclamar. Enquanto espero meu ônibus chegar, fico acuada, com medo de puxarem papo comigo – as últimas vezes em que isso aconteceu foram minutos perdidos em uma prosa ruim e dispensável. Isso não é pessimismo, nem realismo: é chatismo.

Acho que a realidade me é tão própria, que eu não consigo me desvencilhar do que leio – quiçá bom ou ruim –, sei o quanto me afetam os fatos. Talvez com quem reclame muito também seja assim. A diferença é que estou ciente de que disseminar quaisquer opiniões sobre a vida de nada adianta se nada for feito a fim de transformá-la. Então, criticar e reclamar, mas ser completamente inerte, talvez seja exatamente o maior mal da nossa geração.

Será que todo mundo entristeceu? Ninguém se mexe pra ir ter um bom dia na praia, pra sair à feira no domingo de manhã comer um pastel, pra ler um livro na pracinha. Na verdade, ninguém se mexe para ter um bom dia. Ninguém é tangente – sequer há toque em só ponto. Pelo contrário: todo mundo vive em mundos paralelos, equidistantes, vazios. Ninguém muda a sua própria realidade.

Não faço manifesto pelo otimismo. Não é nele em quem acredito e não acho que ele trará mudança. Eu acredito nas pessoas; acredito que do bom é preciso falar, pensar, compartilhar; e que devemos espalhar as prospecções positivas – com os pés no chão. Dizer ao mundo o que virá de bom. O futuro só está condenado a ser ruim se a gente o tornar assim. Não nos alienemos jamais. Falemos do que é ruim, desagradável e real, mas não esqueçamos que a realidade é infinitamente mais do que só isso. Falemos sobre economia, a alta do dólar, a inflação, a recessão, o aumento do desemprego – esses são problemas reais e factíveis; mas falemos também dos projetos de comunicação nas favelas, das peças de teatro que serão lançadas, das bandas brasileiras incríveis que surgem diariamente, da busca por trabalhar com o que te move. Mais importante ainda: façamos algo para mudar a nossa própria realidade ou aquela que está perto de nós.

Acreditem, tá chata essa negatividade – e isso não vem de uma pessoa otimista.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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4 comentários

  • Letícia 25/08/2015   Reply →

    Adorei o texto!!!
    Sobre o fato de todos estarem politicamente correto: concordo! Nao dá mais pra ter um papo descontraido com ninguem! Uma pena :/

    • Carla Mereles 26/11/2015   Reply →

      Não é legal não conseguir nem falar com os próprios amigos ou com a família na hora do almoço. Acho que existe limite, também! Obrigada por ler e contribuir 🙂

  • Daniela 08/10/2015   Reply →

    Parece que só o que interessa é a miséria alheia. Muita inveja!!! É tão bom e fácil ser feliz e menos chato!!! Bjs

    • Carla Mereles 26/11/2015   Reply →

      Exatamente, Dani! Tão desagradável isso, né? Falar sobre coisas boas fortalece!

      Beijo grande

Degustando...