Sobre ser jovem o suficiente

Quando tinha 16 anos, li um livro que me marcou muito (literalmente). Ganhei “O Dia do Curinga” de presente e, naquela mistura de ficção infanto-juvenil com filosofia, refleti durante as tardes de Ensino Médio sobre o propósito da vida. O livro contava a história de uma ilha mágica formada por cartas de baralho. Na ilha, cada naipe tinha uma função específica dentro da sociedade. As cartas de copas, por exemplo, eram vidraceiras. As de paus, marceneiras. E todas cumpriam religiosamente sua função, sem nunca questionar o que faziam, por que o faziam ou onde gostaria de chegar. Aos meus olhos, aquela era uma crítica à vida adulta que via à minha volta: estavam todos tão preocupados com problemas pequenos e cotidianos – com contas, com salários, com empregos, com pequenas brigas de casa – que viviam dias mecanicamente. A primeira coisa que me veio à cabeça era que não queria ser assim quando crescesse. Não queria passar a vida sem me perguntar o porquê de cada escolha que tomava e sem ver sentido no que fazia. Aos 19, resolvi fazer uma tatuagem para sempre me lembrar disso, mesmo quando a vida adulta insistisse em me fazer tomar o caminho contrário – sem ainda saber que ela insistiria nisso muito mais vezes do que imaginava.

 

Acho que foi um pensamento muito parecido que passou pela cabeça do Felipe quando, também aos 19, ele resolveu dar a volta ao mundo. Depois de ver muitos amigos, inclusive o mais próximo deles, sucumbirem a uma vida programada, ele juntou o dinheiro que ganhou em concursos culturais, a grana que poupou com a bolsa integral que tinha na faculdade e partiu. Não foi um livro de filosofia que inspirou o Felipe, isso ele deixou claro. Mas suspeito que foi um medo de, assim como seus amigos, deixar a juventude cedo demais. Assim, ele passou um ano viajando – e procurando por ela. Não me lembro agora ao certo quantos países ele visitou, mas foram muitos. E, em cada um deles, Felipe perguntava às crianças que encontrava pelo caminho sobre a vida, sobre o mundo, sobre sonhos e, muito provavelmente, sobre coisas que elas ainda nem entendiam direito.

 

Quando o Felipe voltou, ele já não era mais o mesmo. Descobriu que ficar sozinho é bom, mas nem sempre. Que relacionamentos te enraízam e que, às vezes, é bom permitir-se criar um pouco de raiz. Que a juventude é irmã gêmea da fé. E que fé não significa necessariamente acreditar em Deus ou em uma entidade, mas acreditar em alguma coisa, nem que seja em você mesmo.

 

Sei disso tudo porque li o relato (e vi os retratos) dessa jornada. Quando voltou, Felipe não queria contar o que descobriu só para os amigos. Ele queria contar para o mundo. Transformou, durante três meses, todas as cartas e anotações que escreveu durante a viagem em livro e, depois, criou a maior campanha online de arrecadação de dinheiro que o Catarse, a maior plataforma de crowdfunding do Brasil, já hospedou. E então ele mudou. De novo. Mas dessa vez sem nem deixar o Brasil: deixou de ser um guri do sul de 19 anos com uma  história para contar e virou um cara de 22 com um livro publicado.

 

Crianças de origem cigana no interior da Romênia

Crianças de origem cigana no interior da Romênia (Foto: Felipe Gaúcho)

 

Barqueiro em de Pokhara, aos pés da cordilheira do Himalaia

Barqueiro em de Pokhara, aos pés da cordilheira do Himalaia (Foto: Felipe Gaúcho)

 

Felipe em Honduras

Felipe em Honduras (Foto: Felipe Gaúcho)

Devorei a história dele em dois dias antes de encontrá-lo num café na Vila Mariana e, diferente de outras entrevistas que já fiz, essa foi mais difícil que de costume. Talvez o excesso de sono numa manhã de segunda-feira tenha contribuído, mas foi estranho conversar com uma pessoa sobre a qual sabia tanto. Já tinha lido sua história. Já sabia dos seus medos, suas angústias, seus desejos. Sabia do seu encontro com a solidão e de quando se despediu dela. Sabia até mesmo sobre a sua rotina intestinal e, devo dizer, não foi confortável conversar com alguém pela primeira vez já sabendo detalhes sobre a maior diarreia da sua vida. Por isso, quando o Felipe apareceu, foi uma mistura de estranheza e proximidade que não soube definir. Era tanta coisa pra falar, pra perguntar, que faltou um tanto pelo tempo corrido. Mas eu precisava ver de perto se aquele menino era de verdade, se não era uma história clichê, inventada, se não era jogada de marketing. E não era.

O Felipe que encontrei era tão real quanto a camisa azul que vestia e o cappuccino que tomava. Tão real quando o cara que, por conta própria, viajou sozinho pelo mundo aos 19 anos tentando encontrar a juventude. Tão real quanto o cara que não encontrou ela. Durante a conversa, percebi que ele, não por mal, ele já tinha um punhado de respostas prontas depois de ter dado uma série de entrevistas para canais de TV e revistas sobre a sua história. Mas algumas das minhas perguntas pegaram ele de surpresa. E foram as respostas que mais me inspiraram. A melhor parte foi quando perguntei para ele as mesmas perguntas que ele fazia para as crianças durante a viagem:

 

Bruna: O que você gosta de fazer?

Felipe: Viajar, escrever e fotografar

 

Bruna: E por que gosta tanto disso?

Felipe: Tu já ouviu falar da virtuosidade de Aristóteles? Ele diz que você tem que ficar se perguntando o porquê de tudo. Quando você chegar no “porque sim” é porque você chegou na  sua virtude, no seu propósito. E acho que é isso. Gosto disso tudo porque sim.

 

Bruna: O que você quer ser quando crescer?

Felipe: Quero ganhar a vida escrevendo, contando histórias. Livros, séries…

 

Bruna: E o que é ser jovem?

Felipe: É continuar realizando sonhos. Quantos mais sonhos você realiza, você rejuvenesce um pouquinho.

 

A conversa foi em junho e ficou guardada até hoje esperando o tempo certo de ser publicada. Apesar das anotações, a memória já me falha e a única coisa que me lembro com precisão de que aprendemos, os dois, ao final da conversa, que ainda somos jovens o suficiente para seguir nossos sonhos, sejam eles quais forem. Jovens, aos 17, para se encantar com um livro de filosofia e fazer uma tatuagem dois anos depois. Jovens, aos 19, para dar a volta ao mundo. Jovens, aos 22, para escrever um livro sobre isso, mesmo sem dinheiro para financiar a produção. Jovens para, aos 24, se mudarem para o Rio de Janeiro, para Angola ou para Nova York. Ou para mudar de ideia no meio do caminho, se casar, ter filhos e um emprego modesto em uma cidade pequena de interior. Somos todos jovens o suficiente para escolher, desescolher e ser o que quisermos. Honestamente, tenho minhas dúvidas se o livro do Felipe me ensinou muita coisa sobre a juventude. Mas, definitivamente, me ensinou sobre coragem e sobre ter força de vontade para não deixar as sonhos morrerem no travesseiro – ou dentro de um avião de volta para casa.

 

Felipe é gaúcho, mas mora em Campinas desde quando ainda era menino. Aos 19, viu um grande amigo perder a juventude e resolveu viajar o mundo à procura dela. Aos 22, transformou a sua história no livro que me inspirou a entrevistá-lo – e que me relembrou quem eu era. Se você se interessou pelo que esse #BrasileiroInspirador tem a dizer, você pode comprar aqui 🙂

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
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