Saudades, sempre no Plural

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Óculos de lentes fundas e grossa armação preta. Barba por fazer, cabelo desgrenhado, celular ao ouvido e, para minha surpresa, o português.

“Saudades suas, bonita”, dizia ele afoito.

Depois de vagar tanto por essas ruas estrangeiras, a gente acaba se desacostumando ao português. É uma sensação engraçada. No meio do exílio, persiste uma sensação inconfundível de que a gente se reafirma brasileiro ao estar longe do Brasil. Surge uma saudade incomparável de pisar nesse chão e respirar esse ar. Ouvir alguém pronunciando o idioma, então, é uma receita para causar lamentos e a falta de casa.

“Sim, eu sei”, ele concordava, quase como se me ouvisse pensar.

Parado em frente à porta de entrada de onde a gente mora, bem ao lado dele, eu recolhia atrapalhado as chaves em algum bolso de minha mochila surrada. Nesse breve intervalo, meu passatempo era adivinhar quem falava com ele, ou o que perguntava essa pessoa.

“Não, não sei quando volto.” Pausa.

“Não, pois é–“. Hesitação. Ele conclui: “Mas vai dar tudo certo. Sério. Confia em mim. A gente está longe, mas não tem o que temer.”

Viro-me rápida e discretamente para ele. O óculos é mais grosso do que tinha conseguido observar.

“Enfim, a gente se fala então… Saudades suas–“, e ele é interrompido, mas insiste. “Não, saudades com ‘s’ mesmo. No plural. Uma saudade só é pouco.”

Acho a chave, e abro finalmente a porta de entrada de casa.

“Tá bem, você também. Amo você. Saudades. Beijo”, ele diz e pontua seus sentimentos, desligando o telefone com um suspiro.

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Foto: Pinterest

Ele passa por mim, me cumprimenta em inglês e segue para seu quarto, absorto em pensamento. E eu ali, sem saber a diferença entre saudade no singular e no plural.

***

As paredes do dormitório Victor-Jara — casa ‘B’, número 111 —, erguidas na década seguinte à 2ª Guerra Mundial, estendem-se longamente pela rua Oberfeldstraße e opõem-se às numerosas casinhas de família em Biesdorf. Esse pequeno vilarejo e subúrbio alemão é um enclave em Berlin, cujos monumentos gigantescos não são maiores que a ponta do meu dedo indicador quando os tento alcançar no horizonte visto do alto da estação de trem provinciana.

Aqui estamos agora.

Durante o dia, todas as ruas estão imersas num eterno sábado de manhã. Há principalmente velhinhos e mães de família — bem munidas de carrinhos de bebês e sacolas de tecido cheias de grandes garrafas de água com gás —, mas olhos atentos avistarão também estrangeiros aos montes. Expostos pelas feições obviamente asiáticas, sotaques latinos, ruidosas conversas ou tropeços alheios às maneiras teutônicas, meus colegas gringos entocam-se igualmente nesta construção em tom cor-de-rosa clara, o Victor-Jara.

Foto: João Vítor Krieger

Acumulávamos saudades de casa já na centésima geração e em incontáveis dialetos, idiomas e pronúncias distantes. Quando a noite cai, não há mais ninguém nas calçadas e nem nos quintais com rastros de crianças e homens de neve meio derretidos (ocupação do entediado e gélido sol dessa falsa primavera). Dividindo a madrugada com a Ursa Maior, a lua parece evitar içar voos mais ousados, de modo que sua órbita tem se limitado a tangenciar o horizonte.

Um de meus colegas, aliás, é um português. Na falta do que fazer, volta e meia sentamos diante da janela pra contemplar a lua e falar sobre saudades de casa.

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Fonte: Tumblr

“Disso entendemos”, diz ele. Não saberia reproduzir suas palavras, mas ele era sempre convicto: “os estrangeiros não percebem nada sobre saudade. Não existe nem a palavra nos seus idiomas”.

Cirilo é seu nome. Ele tem sempre muito que dizer sobre esse assunto nesses nossos rendez-vous.

De acordo com um livro português de 1914, por exemplo, o sentimento de saudade estaria gravado no cerne da alma portuguesa, continuando hereditário por seus descendentes espalhados pelo mundo.

Em seu imaginário, habitados pelo mar e as cidades portuárias ibéricas de séculos atrás, ele explica que essa sensação de vazio — que hoje talvez chamaríamos de saudade — começou ali,quando os marinheiros partiam para o além-mar na época dos descobrimentos.

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Fonte: wikiart.org (Lisboa. Nascer do Sol, 1860, por Ivan Aivazovski)

De um lado, aqueles que ficavam em Portugal amargavam uma melancolia distante, gastando seus dias a fitar o horizonte do litoral, sonhando em tornar-se mar para poder seguir de perto seus navegadores em correntezas remotas.

Mas consigo imaginar também o olhar partido de quem se debruçava sobre o convés do navio, flagrados pelo luar e marejando. Ouço até os suspiros de quinze gerações atrás, soltos por tripulantes pouco convencidos de que as terras do outro lado do oceano ofereceriam a paz de espírito que seus amados e amadas lhes dariam depois com certeza.
Falta-lhes certeza do que efetivamente pode acontecer, mas o sentimento é certeiro: a promessa de retorno ao colo que chamavam de casa é inerente às saudades.

Nem que para isso tenham que se tornar somente um com o mar.

***

“E Cirilo”, lhe digo, “e saudades?”

“Como?”, pergunta ele.

“Aliás, saudade ou saudades? No plural ou no singular?”, insisto.

“Pá, não sei”, me diz.

Cirilo vira-se para o nada e pensa.

“Saudade. Sem ‘s’. É um substantivo abstrato, não? Não podes contar quantas saudades tens de qualquer pessoa ou qualquer lugar.”

“Pode ser. No Brasil a gente às vezes diz ‘saudades’, no plural mesmo. Mas não sei por quê”, digo.

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Foto: Tumblr

O Cirilo sorri um pouco, como quem desfaz em galhofa qualquer coisa sobre o que a gente faz ou deixa de fazer no Brasil. Deixa quase implícito que a gente talvez não entenda disso lá na terrinha. O sentimento é, sobretudo, português.
E nisso ele passa a me contar qualquer coisa sobre seu dia com aquele inconfundível sotaque. Cirilo poderia entreter-se sozinho, se assim quisesse.

Não abandonei o assunto ainda.

Na parede do dormitório onde estamos há uma série de fotos que colei de casa. Litoral catarinense, família sorridente, estampas coloridas em camisetas que vestimos em feriados de outrora. Há mais um punhado, e me chama a atenção uma foto de um grupo de amigos que tenho pelo país inteiro.

A bem da verdade, alguns não são tão próximos. A gente trabalha junto em rede, mas o que mais gosto é que volta e meia estamos em conferências em São Paulo, e nossas discussões são um duelo de sotaques e visões que eles trazem de seus estados em regiões.

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Foto: Tumblr

Sinto saudades, por exemplo, do calor das pessoas do Norte. Me faz falta como são incondicionalmente amistosas, queridas e geniais as pessoas do Nordeste. Penso ainda na leveza e espontaneidade de quem vem do Centro-Oeste; no mundo vasto que trazem consigo aqueles do Sudeste; e na proximidade que me trazem os sulistas, de quem o frio já me é conhecido de longa data.

Cirilo ainda fala longamente sobre uma de suas aulas. Diz que tem um trabalho a entregar, e está ansiosíssimo.
Escuto um pouco distraído, dividindo minha atenção com a foto. Estamos todos bem-vestidos nela, e somos um grupo bastante coeso. Sorridentes e cheios de responsabilidade, cada um tão único. E nós, somados na nossa diversidade, tão brasileiros.

Sabe que, pensando bem, talvez eu entenda muito mais do que o Cirilo sobre saudades, no plural mesmo. A gente costuma se provocar e comparar o Brasil com Portugal, e sinto até vontade de dizê-lo que, de onde eu venho, ao menos é muito maior a amostragem de gente para destilar um significado desse sentimento tão nosso.

“João”, ele me diz afoito, “preciso dar uma arejada ali fora.”

Ironicamente eu sei que não é de ar puro que ele precisa. Seu bolso da calça é quadrado como sua carteira de cigarros.

“Vens comigo?”, ele pergunta.

“Vou num instante”, digo. Não fumo, mas as paredes do Victor-Jara costumam ficar ainda mais interessantes com essa tela de fumaça pra enquadrar os devaneios.

“Não demora”, ele diz. Assinto sem dizer nada.

Talvez precise dar uma arejada também. Essa melancolia que a falta do Brasil me faz se recai intensa sobre mim num instante. Aliás, a falta que as pessoas dali me fazem. O Brasil talvez só seja assim tão sensacional por causa das pessoas que deixam nosso país tão colorido e sorridente, apesar dos pesares. Mas não importa, porque não há ninguém no mundo como os brasileiros. Disso estou certo.

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Foto: Tumblr

Antes de levantar-me e ir, porém, um último pensamento: saudade, pra mim, tem que ser com ‘s’ no final e entonação convicta, pra deixar claro que são muitas. Porque a gente, vindo desse lugar tão múltiplo que é o Brasil, só poderia sentir no plural, mesmo sendo o sentimento tão singular.

Brasil. Ordem e progresso, suspiros e saudades — de quem a gente é, de quem a gente já foi, e de quem a gente ainda há de ser.

E a conclusão não pode ser outra. O Cirilo não tem a menor ideia do que está falando.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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