Um Quarto

Os vinte e cinco vieram velozes. Exatos um quarto de século que se foram tão logo quanto chegaram.

Provavelmente será quase um terço da minha vida ou um pouquinho mais que isso. Dá a impressão que é uma eternidade, mas é tão efêmero quanto o tempo que você leva ao fazer café. A gente pisca e, voilá, o primeiro esboço de pé de galinha se aloca no canto do olho sem que possamos nem estalar a boca em desaprovação.

Não tem problema – penso -, o tempo nunca é problema para quem não conta com ele, certo?

Observo a mim mesmo, sozinho e quieto, sentado na ponta da cama, balançando os pés alegremente como uma criança. Uma energia diferente se espalha pelo corpo, preenchendo cada lacuna do peito com uma sensação inédita. No colo, um álbum imaginário com fotos e vídeos de momentos randômicos, memórias construídas nesse punhado de anos vividos.

Entre sorrisos e lábios pressionados, oscilo por emoções enquanto revisito memórias. Impressionamos-nos quando paramos para analisar quanta coisa podemos viver num espaço tão curto de tempo. Como pode o coração suportar tanto? Tiro, assim, uma conclusão que é óbvia: o coração é, de fato, o órgão mais forte do corpo. Não há dúvidas. Não só por bombear litros e litros de sangue o tempo todo e fazer a coisa toda fluir pelo corpo; além disso, ele aguenta toneladas de sentimentos, memórias, experiências, alegrias e tristezas. Faz-nos ir à loucura e achar que não vamos suportar certos momentos; e, duas semanas depois, ele nos induz a rir de tudo aquilo como se essas dificuldades passadas fossem piadas mal-contadas. Daquelas que só conseguimos entender momentos depois de todo mundo ter se acabado de gargalhar. Pouco importa, no final das contas, se perdemos o timing. O que vale é rir.

Fecho o álbum quando alcanço a memória mais recente. Tiro sarro do meu cabelo na foto do canto desta última página e aproveito para fazer uma anotação mental: marcar de visitar o cabeleireiro ainda nesta semana.

Então, volto a me deitar na cama e agora observo o teto branco do cômodo. Sinto um pouco de receio se instalando no peito: meu segundo quarto de século acaba de começar e muitas promessas precisam ser cumpridas. É nessa metade da vida em que chegamos aos anos dourados – a fase da prometida estabilidade dos 30 –, em que passamos pelas crises existenciais dos 40 e chegamos ao meio século com muito suor e energia – ou talvez não tanta assim. É então que passamos da meia vida. Ainda aqui, as páginas preenchidas e em branco da nossa história estão balanceadas. Quase a mesma quantidade dos dois lados. Não somos mais jovens adultos, mas também não somos novos idosos. Falta pouco e ao mesmo tempo, muito.

Fecho os olhos. O único que vejo é uma estrada longínqua. Seu fim é invisível aos meus olhos. Dou o primeiro passo, o segundo, terceiro. O pó de terra se levanta e assenta gradativamente enquanto caminho. Dou uma última espiada por cima dos ombros, respiro fundo e me viro.

E então essa nova jornada começa.

🙂

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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