Ser ou não ser? (E suas cicatrizes)

Em Hamlet, Shakespeare, dotado de sua espetacular consciência da vida, apresenta-nos uma questão filosófica muitíssimo interessante de ser debatida na era moderna: ser ou não ser?

Meu conhecimento Shakespeariano é leigo, mas ainda assim, depois de assistir a um dos filmes produzidos sobre a peça, cheguei à conclusão de que o príncipe da Dinamarca com suas ideias volúveis, mas marcantes, desde o início escolheu “ser”. O centro da questão não é nos aprofundarmos sobre a peça, mas debater essa questão na realidade atual.

A gente vive querendo ser e acaba não sendo. Nossa sociedade que é baseada no medo: de sair na rua; de confiar no governo, no vizinho, na família; de amar e ser correspondido; entre tantos outros, profundos ou superficiais.

A história do mundo se arrastou cheia de “certezas” que guiaram a humanidade durante séculos. Até a segunda metade do século XX quanto se resolveu disparar em evolução e revoluções, e os povos que sempre caminharam cercados de certezas se viram tropeçando no incerto. As mulheres, por exemplo, assumiram o controle de suas vidas e ninguém soube direito (ou ainda sabe) como lidar com isso e com todas as consequências das mudanças de papéis. A questão é que tudo que está sendo vivenciado hoje – por melhor ou pior que seja – nunca foi vivido sob essa perspectiva antes.

Cada pessoa está consumida pelos próprios problemas e dúvidas de um mundo que tem câmbio flutuante, valores flutuantes, relacionamentos flutuantes. Que flutuam até se liquefazer novamente em um mar de inseguranças.

Nessa falta de terra firme, tentamos ser tudo e acabamos não sendo nada. Vamos coletando cicatrizes, que se conectam umas às outras e se abrem com mais frequência que gostaríamos, trazendo dor a cada trauma relembrado, a cada impaciência, a cada pisada na bola e em todos os momentos que nos sentimos “falhos”.

No entanto, a escolha entre “ser” ou “não ser” traz consequências inevitáveis. Para “ser” é necessário um fortalecimento de valores, enfrentar o que se considera errado, abrir mão dos atos e das ‘coisas’ que não estão de acordo com aquilo que acreditamos e trabalhar incansavelmente na autoconstrução e autoafirmação. Entretanto, quando se escolhe “não ser” é necessário abrir mão de si mesmo, se misturando ao mar de (in)certezas e opiniões que não nos pertencem.

No fim, as cicatrizes fazem parte da vida. Viver, tentar, acertar e errar. A construção da ideia de “ser ou não ser” passa por uma infinidade de escolhas que nos moldam e devem ser acolhidas e celebradas, por termos a oportunidade de vivenciarmos elas.

Para “ser” é preciso audácia e criatividade, é um trabalho eterno de movimento e construção que só nós podemos fazer por nós mesmos. Bem, na parte de cá eu estou buscando ser, e você?

Gabe Hansel

Gabe Hansel

Uma criança curiosa, uma adulta filosofa, uma adolescente rebelde e uma senhorinha alegre e contadora de piadas. Poderia ser a sinopse de um filme brega, mas é só um resumo das múltiplas personalidade dessa publicitária e atual estudante de administração pública. Gabe tem vícios em Youtube, Netflix, coisas belas, conhecimento, pessoas e mudanças. Aqui no Uma Boa Dose encontra espaço para refletir sobre a vida, amores, histórias e experiências, e ama compartilhar tudo isso com vocês.
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