Foto: Tumblr.

Diz quem é maior que o amor

Frio na barriga. Nervosismo. Inquietação. As vozes que conversavam no táxi que se dirigia à Pedreira Leminski pareciam estar a quilômetros de distância. Finalmente, depois de mais de dez anos esperando, eu estava a caminho de ver minha banda preferida ao vivo pela primeira vez. “Olha, tem bastante trânsito pra lá… Eu sei uns 150 caminhos para chegar, qual vocês preferem?”, disse o taxista. “O mais rápido e com menos trânsito, por favor, quanto menos engarrafamento, melhor”, dissemos quase em coro, concordando que não precisávamos de trânsito intenso numa hora dessas.

Assim fomos, por ladeiras e curvas, passando por cantos de uma Curitiba que eu desconhecia, mesmo em anos de convivência. Chegamos à ladeira próxima à Pedreira Paulo Leminski – que, aliás, leva nome do meu poeta preferido, motivo dobrado pelo qual me emocionaria muito. Encontrei meu ingresso na bolsa e entreguei à moça para entrar no portão, que estava sem fila alguma.

Foto da autora.

Poderia explodir de tanta felicidade no momento em que botei os pés pra dentro dos portões. Adiante, andamos até o mais próximo do palco que poderíamos ficar e dali não arredaríamos pé – como nenhuma das pessoas ao nosso lado. Fã tem dessas coisas, né, essa necessidade em curtir o show a seu modo. O meu, no caso, é sempre o mais próximo do palco possível; gosto de poder gritar as músicas, sentir a vibração do som ao meu redor, o calor das luzes no rosto.

Depois de algumas horas de espera, eles entraram no palco. Os barbudos que escreveram e musicaram a trilha sonora da minha vida. Os quatro – isso é um eufemismo, porque, na verdade, são muitos mais – caras que expressaram meus sentimentos, explicaram-nos peripécias do viver e cantaram sobre liberdade, amor, angústia, medo, felicidade. E agora, oito anos depois de anunciarem um hiato na história da banda, eles estavam ali, na minha frente.

Só estava esperando os acordes na guitarra começar: tradição é começar com “O Vencedor” cantado somente pelo público. Fechei os olhos para sentir aquela música que, por tantas vezes, me arrepiava os braços quando assistia a vídeos dela. Senti, então, as lágrimas correndo pelas maçãs do meu rosto e cantei, muito, junto a milhares de pessoas: “olha lá, quem vem do lado oposto e vem sem gosto de viver! Olha lá, que os bravos são escravos sãos e salvos de sofrer”. Camelo assumiu os vocais e a mágica tomou rumo.

Iaiá, além do que se vê, o vento, suín, do sétimo andar, condicional… Não foi apenas um show. Foi um momento de sinergia completa. Não precisava de mais nada além daquele lugar em que estava, daqueles caras cantando verdadeiros hinos e eu acompanhando, hora cantando suavemente, hora berrando, cada letra, cada nota, cada riff dos sopros. Emoção à flor da pele e uma eudaimonia incompreensível.

Aí eles tocaram Azedume. “Meu pai deve estar pirando lá atrás”, pensei alto. E cantei, pulei, até que acabasse a música, em seu breve um minuto e vinte e dois de duração. Morena, um par, o velho e o moço, a outra, sentimental, primeiro andar, tenha dó, descoberta… As pessoas, até arrisco dizer que eram todas, estavam cantando – seja em voz alta ou somente acompanhando em pensamento – com todas as suas forças. Um uníssono alegre e apaixonado, de quem esperou muito tempo, tempo de mais, para testemunhar essa mágica. Porque esse show foi isso: mágica. Um ato de devoção àquelas letras majestosas e às suas melodias incríveis; veneração a quem deu voz à complexa arte da música e aos sentimentos de muitos que viveram na essência de cada verso dessas músicas que agora presenciávamos à nossa volta.

Deixa o verão (uma surpresa na setlist), de onde vem a calma, conversa de botas batidas. “Essa é só o começo do fim da nossa vida”; essa música, inspirada numa história verdadeiramente fantasiosa, – “prepara uma avenida que a gente vai passar” – é esperança. “Diz quem é maior que o amor…” – e as lágrimas correndo.

Até que, enfim, minha música preferida no mundo inteiro. Sobre a desesperança num possível encontro do amor e a felicidade em estar equivocado sobre isso. “E até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei”. Num último romance em que nada é tarde demais, é só diferente; dum amor que só eles sabem. Num sufoco ou num sossego, encontram-se dois, acompanhados; a fé e a coragem de um amor improvável. Essa é a canção que mais me cativou em toda a minha existência. Não foi só felicidade, foi uma completa certeza do meu lugar no mundo ouvi-la, tão concreta, rondando-me.

Amarante subiu ao palco com o celular na mão para fazer uma homenagem ao Leminski. Colocou um vídeo em que o poeta falava: “Eu acho que a poesia é o inutensílio; a única razão de ser da poesia é que ela faz parte daquelas coisas inúteis da vida que não precisam de justificativa porque elas são a própria razão de ser da vida”. Brilhante, não é? A poesia faz parte daquelas coisas que não precisam ter um porquê – esse show era a personificação desse fenômeno. Como qualquer momento, esse não precisava de um porquê.

A Flor, Adeus Você, Anna Júlia (sim!), Quem Sabe… E Pierrot. Aí todo mundo perdeu as estribeiras e os limites, cantou com e somente com o coração, fazendo com que milhares de vozes se tornassem uma só. O sentimento, no soar da última nota, foi de gratidão. Uma plateia com sorrisos de orelha a orelha a aplaudir um esplendor musical. Os caras ali em cima do palco agradeciam e nos aplaudiam também. Como cúmplices, numa fidelidade velada, os aplausos se mantiveram. Quando cessaram, plenitude. Completude. Não foi mais e não foi menos, porque isso não existe nesses momentos. Foi absolutamente perfeito porque momentos mágicos não precisam de porquê – e já tenho saudade.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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