A Soma de Todos Nós: Por Onde Começar

“Em 25 de setembro de 2015, 193 líderes mundiais vão se comprometer com 17 Metas Globais para alcançar 3 objetivos extraordinários nos próximos 15 anos. Erradicar a pobreza extrema. Combater a desigualdade e a injustiça. Conter as mudanças climáticas. As Metas Globais podem fazer isto. Em todos os países. Para todas as pessoas.”

Absolutamente extraordinário. Eis um conjunto de propósitos a se seguir. Não tem como não se empolgar.

E aí, está comigo? Consegue sentir seu coração batendo forte com ímpeto de sair às ruas e fazer algo?

Imagino que sim. Difícil é saber por onde começar.

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Foto: www.helvetas.ch

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Julho de 2015. Nazaré Paulista, finzinho de tarde. Lugar aleatório, gente incrível e inquieta, e feeling de mudar o mundo. “Todas as peças juntas por um movimento”, diz a frase na parede.

Imagine a cena: um jovem universitário está de pé, prestes a falar com inquietude a mais algumas centenas como ele.

“Então, diz pra gente o que te incomodou”, pergunta alguém que lhe estende um microfone.

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Foto: Tumblr

Estamos em uma conferência no interior de São Paulo com gente do Brasil inteiro. Passamos a última hora sendo expostos a uma espécie de museu sobre o Brasil. Aliás, aquele Brasil que dá pouco orgulho.

Nas paredes, por exemplo, se via dados e estatísticas sobre vulnerabilidade social no país. O espectro de violência também se destrinchava em um horrível rol de atrocidades que iam do estupro à violência contra idosos, passando por roubos, linchamentos, e violência contra a mulher. Isso pra não mencionar os tantos depoimentos sobre racismo, homofobia, trabalho escravo, profunda desigualdade e mais toda uma infestação de problemas pelo país. A lista ia longe.

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Foto: Wikipedia

Alguém se lembrava de que tudo isso acontecia? Logo no nosso Brasil?

“Eu… Eu não sei o que fazer”, ele começa. Há um tom de desespero no ar.

“Está tudo errado! A gente precisa resolver tanta coisa! Por onde a gente começa!?”, pergunta.

Ele balbucia um pouco, e hesita na fala. Seu crachá está do avesso, acompanhando o fluxo de ideias de sua cabeça.

A cena nos comove como audiência e seus pares. Sentimos todos profunda empatia, e suspiramos apreensivos em conjunto.

O sentimento é coletivo e nosso conhecido. O nome disso em alemão é “Weltschmerz”, ou “dor de mundo” — aquilo que você sente comparando o mundo como é, e como ele deveria ser.

O objetivo do museu e de toda aquela dinâmica havia se cumprido. Estávamos tão incomodados e com uma inquietude existencial tão intensa que o chamado para ação se instalava em nossas mentes e espíritos.

A solução? “Liderança”, nos explicam, tomando de volta o microfone dele.

Eis uma resposta ideal. Em qualquer ambiente, afinal, a gente precisa de alguém que tome a frente com as competências certas para causar alguma mudança relevante e positiva nesse mundão de meu deus. Todo o resto é uma consequência disso.

Olho para o jovem do crachá invertido.

Ele fita o microfone ainda perplexo, tentando entender liderança diante da miríade de problemas que vira momentos antes. A ambição de resolvê-los é quixotesca.

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Foto: Tumblr

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A muitos quilômetros dali fica a minha cidade. Mais precisamente, o auditório ao lado do Gabinete do Prefeito aqui de Blumenau.

Gosto desse lugar. O ambiente é distinto: carpete marrom, mesas de madeira em semicírculo diante das cadeiras da plateia e ar solene. Cheiro de lustra-móveis e café de repartição pública. A primeira impressão da sala faz uma boa combinação com a larga galeria de ex-prefeitos na parede, tão sisudos com seus largos bigodes e expressões incisivas.

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Foto: http://blogdobioamaral.blogspot.com.br/

Numa tarde de julho dessas, elegeram os conselheiros municipais da juventude aqui na cidade. Eu estava lá, com meu paletó um pouquinho desalinhado, adiantado no horário e contemplando que tudo aquilo significava.

‘O que se passa na cabeça desses caras?’, penso, fitando os retratos antigos dos prefeitos de outrora. Óculos marcados pelo tempo, rugas e sobrenomes estrangeiros. Pergunto-me o que teriam contemplado perplexos sobre o mundo, como fez meu colega de voz trêmula e microfone em punhos.

Afinal, o que achavam eles do Brasil? Do mundo? De serem líderes de alguma coisa? E se estivessem lá com a gente em Nazaré Paulista, saberiam por onde começar?

“Opa, João!”, diz alguém.

Meu devaneio é interrompido; a audiência deve começar em instantes, e as pessoas vão chegando. Sinto vontade de perguntar o que todo mundo ali acha dos bigodes e da liderança dessa galera nas fotografias em tom sépia, mas resisto. É importante se ambientar sem parecer alguém anormal, afinal.

“Tudo certo?”, perguntam.

A gente conta o tempo e a vida, pontuando as frases com apertos de mão. A audiência está quase começando.

Olhe ao redor. Aqui há pessoas importantes e discursos, e acontecerá a eleição dos conselheiros. Não são universitários agora, é verdade, mas mesmo com o coração e os hormônios mais calmos, ainda há uma inquietude e uma empolgação no ar que fazem com que essa seja uma ocasião especial.

Logo tomamos nossos assentos. A solenidade enfim começa, e logo depois estou assinando uma ata, e o prefeito me cumprimenta. Ele me parabeniza, e ouço aplausos. Assim se sucede com mais algumas pessoas.

A mestre de cerimônias nos parabeniza. “Conselheiros Municipais da Juventude em Blumenau-SC”, pronuncia ela de forma articulada. Nós trocamos olhares com bastante felicidade. É bom saber que a gente está envolvido em algo que pode ser útil e fazer a diferença. E quando a gente começa? Ou por onde?

Por uma foto, talvez. Ok, e depois?

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Foto: Prefeitura de Blumenau

“E já pedimos para que os conselheiros fiquem no salão”, continua a mestre de cerimônias. “Sua primeira reunião ordinária acontece logo após a solenidade”.

A gente também ri. Difícil é querer ter algum nome e não fazer nada.

***

Bom, mas e aí? Por onde começar, afinal?

Tem uma parte dessa história que aborreceria um eventual leitor. Explicar que o conselho é consultivo, por exemplo. Ou que temos um papel ligado às políticas públicas municipais da juventude, e que isso decorre do Estatuto da Juventude. Digo, são pontos importantes e verdadeiros, mas quero chegar em outro lugar.

Sabe aquelas metas globais?

Então. Olhando ao redor, não vejo mais (somente) universitários ou pessoas importantes. Há jovens ao meu redor, e de todo o tipo. De um movimento religioso, escoteiros, do terceiro setor, representantes do governo e mais alguns de outros lugares, só pra mencionar alguns.

Em princípio, pode até parecer que a gente se reúne pra discutir o próprio regimento interno ou pra deliberar sobre o nada. Mas a coisa vai muito além disso. Se estivéssemos em Nazaré Paulista, a gente teria algumas respostas.

Aqui somos observados com atenção pela galera de retratos de prefeitos de outrora, e esses olhares sisudos nos dão segurança — mas não dependemos deles ou de seus bigodes. Começamos por um conselho da juventude, e representamos de forma ativa nossos setores e nossos pares. Temos nossos objetivos, muito o que fazer e um papel digno de voz da juventude.

Mas que isso seja inspiração pra que as pessoas se organizem, mesmo sem edital ou sem eleição.  É daí que vem mudança. Porque, pensando bem, se a gente quer desenvolvimento sustentável, sistêmico e coerente, não dá para fazer diferente. Precisamos de parcerias. Aliás, precisamos ser parceiros entre nós.

Minha conclusão não pode ser outra. É a soma de nós todos, em nossa diversidade, que responde a essas contas que não fecham quando a gente fala do Brasil e do mundo.

E por aí a gente começa, independentemente do quão gigante seja nosso objetivo. Vem com a gente?

Meta Global #17 – Parcerias Pelas Metas: eu apoio.

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Foto: www.pnud.org.br/ods.aspx

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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