Para entender, olhe as esquinas

Quando desci na rodoviária Tietê, eu não sabia. Não sabia se iria ficar, se iria dar certo, se iria ser difícil pra burro ou se iria tirar a cidade de letra. Passeei os olhos sonolentos pelos corredores lotados e pela fila do metrô que, se ainda não fosse quilométrica, faltava pouco. Era gente de todo canto, de todo credo, de toda raça.

 

Nesse primeiro encontro, descobri, também, meu lugar preferido. O terminal rodoviário, tão longe, tão cinza, tão caótico nas vésperas de feriado, era belo. Não dessas belezas óbvias, escancaradas, mas dessas sutis, escondidas nas frestas e nas histórias anônimas que, ora esperavam demoradamente pela partida do ônibus, ora corriam apressadas para não ficar para trás.

 

“Moço, o senhor me vê por favor um bilhete de metrô sentido Jabaquara?”, pedi, receosa. O moço me devolveu um bilhete e um sorriso. “Não tem sentido, não. É só escolher o lado e ir”, brincou, ainda que estivesse apenas falando a verdade. São Paulo não tem sentido. Agradeci o conselho e, curiosamente, não senti minhas bochechas ardendo de vergonha como de costume. Sabia que logo ele se esqueceria do meu rosto. Talvez não da minha história, mas certamente da fisionomia. É que as pessoas nas filas nunca são as mesmas. Os passageiros que esperam ansiosos no ponto de ônibus também não são. E essa é a primeira grande lição que São Paulo te ensina: ser estranho é normal. Você é um estranho todos os dias para quem cruza ao seu lado na calçada.

 

Arrumei um quarto improvisado para morar. Depois outro. E mais um. Até chegar numa pensão, ainda mais improvisada. Na quinta e última mudança, entendi o recado: demora um tempo para você se sentir em casa.

 

Mais tarde, arrumei um emprego, que é pra isso que a gente vem pra São Paulo, muito embora o ficar derive de motivos outros tantos. Comecei a acordar mais cedo, a voltar mais tarde e a tomar o café da manhã pelo caminho. A vida corre, a cidade anda rápido e a gente também. Aqui, os passos são mais urgentes, os minutos e as horas se apequenam e se amontoam em meio a agendas cheias de compromisso e até o domingo, bocejante e preguiçoso, corre sem saber o por quê.

 

Em São Paulo, a gente também aprende a reclamar. Esse é um hobby comum a todos os habitantes, de todas as classes sociais – e, se você não reclama, espere alguns meses a mais. Mas basta receber uma visita de fora e identificar um orgulho despontando timidamente toda vez que falar dos seus lugares preferidos, como se você tivesse nascido, crescido e morado aqui a vida inteira.

 

Não é que seja bonito. Aqui não tem praia, não tem bossa, não tem brisa. Aqui, nem garoa tem mais. Mas aqui tem gente. Muita gente. São Paulos, Antônios e Irenes, do Sul, do Norte ou de Campinas mesmo, dividindo o mesmo cinza. Todos eles vão concordar que essa não é uma cidade fácil. Não é. É preciso domesticar-se e aprender São Paulo. É preciso domesticar São Paulo e aprender você. Você, na cidade grande. Você, no avesso do avesso do avesso. “São Paulo não tem dono”, é o que me vem à cabeça, vez ou outra. Basta observar as esquinas para comprovar: de dia, a cidade do trabalho. De noite, no mesmo metro quadrado, as crianças querem dançar.

esquina

Foto: Flickr

Faz um ano e nove meses que moro aqui. Mas faz só dois meses que me apaixonei por São Paulo. Antes, precisei cruzar minhocões, me estressar com o transporte público, subir a escada rolante correndo (me recriminando mentalmente por isso) e desejar com todas as minhas forças estar em qualquer outro lugar do mundo. O amor chegou atrasado – deve ser culpa do trânsito –, mas chegou.

 

Chovia. Não tinha dinheiro nem crédito no Bilhete Único para pegar o ônibus para o trabalho. Tentei o caixa 24h perto de casa. Não funcionava. Ao lado, uma loja da Kopenhaguen me encarava, convidativa. Entrei. Pedi um chocolate quente para viagem, mandei a economia às favas e decidi ir para o trabalho de táxi. “Easy”, do Lionel Richel, tocava na rádio ao fundo, enquanto observava o céu cinza com um sorriso no rosto. “I’m easy like a Sunday morning”, embalava o refrão brega, traduzindo o que eu sentia. São Paulo é linda quando está nublada. É como se o céu, autossuficiente e solitário, não precisasse do sol para ser bonito. Como se a nuvem imponente prenunciasse uma chuva obrigatória, ainda por vir. E como se todos abaixo dela aguardassem juntos. “São Paulo ainda quer ser”, pensei.

 

Paguei a corrida, agradeci. E, enquanto descia do táxi, já um pouco entorpecida pelo amor, me lembrei da primeira vez que desci na rodoviária Tietê, ainda sem saber se ia ficar. Besteira. Em São Paulo, o pé gruda e a gente sempre fica.

 

Fiquei.

 

*Trecho do texto escrito para o projeto de TCC da Marianna Schimidt, estudante de Design da UFES.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
Bruna Estevanin

Últimos posts por Bruna Estevanin (exibir todos)

Experimente também

Chegadas e Partidas

Por Bruna Estevanin

“Dá R$104,00, moça”. Foi o que o cobrador disse, quando pedi uma passagem que saísse de Miracema, interior do Rio […]

Pequeno Gigante

Por Humberto Cardoso Filho

(Autor: Humberto Cardoso Filho) Para ler ouvindo: Straight Into The Fire   Em uma madrugada qualquer, insone, você percebe que seus […]

2 comentários

  • Letícia 11/11/2015   Reply →

    gente! Que texto :”)

    quando visitei são paulo no fim de outubro pude perceber quão mágico é esse lugar! Achei incrível e certamente quero voltar :”) a cidade conseguiu me conquistar. Rola muita diversidade, lugares bons e coisas maravilhosas.

    Beijo!

  • Luciana 18/11/2015   Reply →

    Engraçado é que a primeira vez que estive em São Paulo pensei: nossa, cidade de quem está sempre em trânsito. E se você não é apressado, espere, você se tornará. Me lembro que na segunda visita eu já subia as escadas rolantes das estações correndo, andando no mesmo ritmo da maioria das pessoas: um trote quase corrido. Nesta última, quando fui acompanhada, percebi o mesmo que você: que, mesmo que aquela não fosse a minha cidade (ou que sequer morasse lá), havia uma pontinha de vontade de defender São Paulo com unhas e dentes para um carioca. Acaba que SP nos conquista assim, sem perceber.

    ps: essa esquina da Av São João com a Ipiranga foi meu ponto de referência nesta última visita. Já bateu até saudade depois de ver essa foto (e olha que estive aí na quinta!)

Degustando...