Onde está a “Waltidão”?

gratidao

O título do nosso bate-papo pode até ser uma brincadeira, mas a real mensagem dele, não. Gratidão não é uma coisa fácil de se encontrar. Isso não porque seja difícil ser grata(o), longe disso. Mas porque muitas vezes nos perdemos no conceito da coisa. Do que ela significa e expressa no nosso mundo.

Começo nossa conversa com uma grande confissão: quando fecho meus olhos, já pronto para dormir, eu dificilmente agradeço pelo dia que tive, as experiências que vivenciei, o que aprendi nas tantas horas vividas. Por algum tempo, até cheguei a pensar que era uma pessoa non grata – ora, como posso não agradecer o que a vida me provê diariamente? Mas percebi que o meu processo de gratidão partia da ausência de algo: só me sentia grato por viver um dia ensolarado, por exemplo, depois de ter vivido algum dia monocromático, chato e sem quê nenhum de nada.

Numa conversa, fui calculadamente questionado:

“OK, então me diga o que é gratidão”.

Confesso que pensei muito. O conceito parecia estar na ponta da língua, mas não conseguia dar forma a ele com palavras. As perguntas aparentemente mais óbvias são as mais difíceis de se responder.

“Ah… Gratidão é ser grato por algo. Agradecer, sei lá”.

“Agradável. Essa é a origem de gratidão”.

Depois do tilt no cérebro, uma rápida busca na internet agregou à raiz “agradável” uma base indo-europeia “GWER-“ que significa “elogiar, dar as boas-vindas”. Isso muda completamente o conceito de gratidão, bem como a forma que enxergamos este processo de ser grato por algo ou alguém.

Voltando ao meu cenário inicial, agora embasado com esse novo significado, dar as boas-vindas a algo que partiu porém voltou chega a ser poético, mas não muito efetivo. Se levarmos em conta a origem de “Gratidão”, ser grato é muito mais amplo que apenas agradecer viver ou ter vivido algo. Vai muito, muito além disso. Ser grato passa a ter um quê ainda mais importante que antes: abraçar com vivacidade e simpatia o que a vida nos apresenta.

Ainda na conversa anterior, entramos nessa linha:

“Pensando nessa origem, Murilo, eu vejo gratidão como uma agradável surpresa. Veja, a vida é um mar de opções, certo?”.

“Certo”.

“Você consegue escolher tudo?”.

“Não, não dá para escolher tudo”.

“E o que você escolhe, você tem que fazer dar certo. De alguma forma, de algum jeito”.

A gente tem que dar sentido às coisas. Afinal, a vida tem o significado que damos a ela. Portanto, dar as devidas boas-vindas ao que ela nos oferece é essencial para desfrutarmos o que nos está sendo oferecido.

Desde que comecei a enxergar a gratidão com outros olhos, posso afirmar que viver ficou mais divertido. Apreciar um dia ensolarado depois de tantos dias anteriores cinza se tornou muito mais intenso depois que eu passei a abrir o coração e a convidar as experiências a entrarem nele em vez de apenas agradecer poder viver aquele momento.

Difícil foi, porém, ver o quão atrasado eu estava neste âmbito da vida: tem muita gente anos luz a frente, espalhando a gratidão delas pelos quatro cantos do mundo com muita simplicidade, simpatia e beleza, através de fotos, mensagens e qualquer outra mídia possível, numa infinitude muito íntima.

Podemos ser gratas(os) de diversas formas, desde que abramos o coração em todas elas. No começo, é um exercício. Com o tempo, passa a se tornar um hábito e faz, sem sombra de dúvidas, da vida uma experiência muito mais vívida e feliz.

Diz-me… Qual foi a última coisa que você foi grata(o) por?

Até a próxima 😉

***

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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