Escrever – a ferramenta das mulheres subversivas

Gratidão_Topo-Blog

Costumava usar um caderno quando escrevia meus textos destinados a este espaço; uma moleskine vermelha, charmosa, de textura inigualável. A preguiça e a facilidade há não muito tempo me fizeram trocar a caderneta por um negócio branco, com várias teclas, as quais eu aperto para exprimir o que eu quero – e não, não é uma máquina de escrever; nisso aqui consigo apagar letras, frases, e até parágrafos inteiros. Então eu sento, amarro o cabelo num coque, coloco meus óculos, pego uma xícara de café e começo o deleite. É isso que faço neste momento, esse é o meu protocolo. Porém, nem sempre foi assim. Nem sempre quando uma mulher queria dizer, escrever, desenhar algo, ela poderia fazê-lo.

Houve um momento na minha vida em que me intrigou haver tantos livros nas minhas estantes com um título e, ao lado, o nome de um homem. Foi então que descobri a lástima de que mulheres escrevem menos do que os homens, historicamente — ou tão somente publicam menos seus trabalhos, o que não diminui o problema. O número vem crescendo, com certeza, mas não se iguala em número, e está longe disso. Sabe, nem sempre as mulheres foram protagonistas, nem escreviam histórias – contudo, não deixavam de imaginá-las –, nem sequer tinham muita voz. Virginia Woolf, a magnífica mulher que, de fato, falava, nos anos 20, foi uma exceção. E, ao palestrar em uma universidade destinada a mulheres, explicou o porquê da ausência quase completa das mulheres no mundo da literatura: a falta de um quarto para si. Afinal, qualquer pessoa que se dedica a escrever vai concordar comigo: as ideias fluem melhor na solidão; elas surgem aleatoriamente, claro, mas o desenvolvimento delas está intrinsecamente conectado ao refúgio num lugar seu, à introspecção em si, ao mergulho em ser. Fora as palavras, o silêncio é o pincel do escritor.

Algumas mulheres, todavia, subvertiam a regra social. (Ainda bem!). Porque seja num momento em que se escreve uma carta a alguém querido ou durante uma epifania ou num terremoto de pensamentos, é preciso se expressar. E escrever, a muitos, é a chave para um caminho muito denso de conhecimento próprio, é buscar um entendimento do mundo e retratar uma realidade inteira. Ana Cristina César disse que “do ponto de vista de como nasce um texto, o impulso básico é mobilizar alguém, mas você não sabe direito quem é esse alguém; se você escreve uma carta, sabe; se você escreve um diário, sabe menos”; pois quem tem urgência em escrever, passa a entender aquilo que desconhece por meio das palavras – logo, principalmente a si.

Portanto, gostaria de agradecer às mulheres que me antecederam por terem falado num mundo onde nosso gênero não deveria falar. Gostaria de agradecer por terem erguido a voz e equalizado sua reivindicação em querer, também, edificar sua arte. Gostaria de agradecer pela coragem em serem pioneiras, por terem sido aquilo que tinham vontade de ser, apesar da falta de um refúgio; por terem feito arte, mesmo que não nas condições ideais. Lispector disse que “escrever é uma maldição” e quem – como eu – foi amaldiçoado, compreende que a irreverência delas, que não se curvaram perante a normalidade e nadaram contra a corrente, é inefável a nós. A liberdade não tem preço.

Cecília Meireles, Clarice Lispector – a mulher que escreveu sobre o ofício de ser mulher, mãe e escritora, como ninguém–, Chimamanda Adichie – que brilhantemente fala sobre ser uma mulher negra no século XXI–, Eliane Brum, Ana Cristina César – minha poetisa concretista preferida –, obrigada. Então, também peço que sejamos nada menos daquilo que queremos ser; que nos espelhemos nas incríveis mulheres – nas escritoras, mais especificamente – que vieram antes de nós, que tinham menos recursos e, mesmo assim, têm feitos maravilhosos, tanto literários como humanos. Se eu escrevo hoje, é porque mulheres como Virginia Woolf decidiram fazê-lo antes de mim; e a elas serei eternamente grata.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

Experimente também

O Ciclo. Mudanças. Carretos.

Por Murilo Igarachi

A vida se transforma constantemente. E como! Mutante nata, permuta suas próprias variáveis, reembaralha as cartas do jogo e promulga […]

Recomeçar, over and over again

Por Carla Mereles

Tomar banho de chuva num dia insuportavelmente quente de verão. Ir ao mercado usando pijamas – ou parte dele – […]

2 comentários

Degustando...