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Momentos Diários

– por Celso Alves

O cobrador da estação perto de casa é um tiozinho bonachão, gente boa e de riso fácil. Conta piadas pra si mesmo e, se alguém mais rir, tá valendo. Quase sempre está comendo um sanduíche ou tomando café, presente dos moradores e comerciantes que passam por perto. Ora tem o cabelo branco, ora castanho escuro, conforme a vaidade cobra a pintura dos fios. O vejo todas as manhãs, quando vou ao trabalho. Quando me vê, entra em sintonia com minha energia matinal e desata a conversar. Para mim, combinam muito, ele e a manhã.

 

O cobrador da estação perto do trabalho, por outro lado, é um senhor emburrado e soturno. Não responde ao boa noite e conta o troco sem me olhar, cabeça baixa e bigode escondendo o que imagino ser uma carranca. O vejo logo depois do anoitecer, ao entregar o dinheiro para pegar o ônibus. Se tenho uma nota muito alta, resmunga que não tem troco, mesmo que o tenha. Não me importo muito, já é noite e estou cansado, só quero passar pela roleta e encerrar o dia. Para mim, não destoam tanto, ele e a noite.

 

Cada um deles tem a sua hora e seu momento na minha rotina. Se minha manhã fosse azeda e a noite tão doce talvez me incomodassem. Mas assim, divididos em opostos que fazem sentido, convivo bem com um e com outro, seja falando à exaustão ou calado e embarcando o mais rápido que posso. O segredo é curtir as diferenças. Afinal, até o clique de cada catraca possui sua própria poesia.

 

Além do Uma Boa Dose, Celso Alves também escreve para o crônico.

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