Quando vamos nos encontrar de novo?

Aproximadamente às oito da noite, observava ansioso o teto do quarto. O tempo parecia estático, como se o mundo todo tivesse parado de girar. Minha mente navegava anos-luz dali, vagando em algum lugar no espaço.

O celular cochilava em meu peito coberto firmemente por uma de minhas mãos. Ele não sabia, mas estava ali à toa: a mensagem que esperava receber nunca iria chegar.

Aquele encontro, cuja confirmação dependia de tal mensagem, já marcado e remarcado zilhões de vezes, parecia que não iria acontecer tão cedo. Fechei os olhos, cansado, e adormeci. Acordei assustado, horas depois. Espiei o celular: nenhuma mensagem. O visor indicava 2:30AM. Respirei fundo. Um calor se propagou pelo corpo, partindo do coração, chegando até as pontas dos dedos dos pés, mãos e fios de cabelo. Era uma mistura de decepção, raiva e anticonformismo. Levantei-me da cama, tempestuoso e descontente.

Estava decidido a acabar com toda aquela situação de uma vez por todas. Aquele encontro iria acontecer e seria naquele dia. Fui ao banheiro e parei diante do espelho da pia. Os olhos faiscavam vigorosos.

– Escuta – comecei – Precisamos falar. Temos muitas coisas para discutir e não dá mais para postergar.

Irritadiço, ri de mim mesmo ao subir duas oitavas sem querer no decorrer da fala anterior.

Enchi os pulmões de ar sentindo cada célula se oxigenar. Depois, exalei todo ar lentamente.

Meu primeiro tópico comigo foi o final de ano. Com o sorriso de 2016 já me cegando as vistas, queria muito discutir meus planos passados, quão próximo havia chegado de meus maiores desejos e ambições mirados ainda no 14.

Depois, revivemos juntos todos os momentos chave desse ano. Senti o peito travar: como um liquidificador, parecia mesclar muitas sensações e emoções numa mesma substância pastosa e bem consistente.

Chegamos ao presente com certa tontura. 2015 tem sido uma maratona – e eu não estava tão preparado para correr quanto parecia.

Observei-me, já com o fôlego recuperado, aquela imagem através do espelho. Aquele reflexo se fazia miúdo, apático, sem energia. Espantei-me.

Num tom desesperado, desabafei:

– Eu não tenho cuidado bem de você, não é? Eu sinto muito.

E a verdade é que eu sentia, de fato, muito. Ao reviver 2015 ali, percebi o quão negligente fui em muitos aspectos. Estava claro que uma das maiores falhas minhas havia sido perder o foco em mim para trabalhar outros tantos pontos da vida. Isso é muito curioso e esquisito: se pensarmos que somos o mais importante de nossas vidas, afinal, ela só existe porque existimos, é muito louco canalizar nossa energia em outras coisas que não nós mesmos. Veja, porém, que não estamos falando de egocentrismo aqui, mas de nos mantermos em nosso radar. Afinal, não podemos ajudar em algo ou fazer alguma coisa que agregue valor às vidas de outras pessoas se não estamos fortes e bem conosco. Faz sentido?

Respirei fundo outra vez, agora com um sorriso amarelo no rosto.

Encontrar consigo e a si (são coisas tão diferentes…) deve ser nossa prioridade. São acompanhamentos/checkpoints que nos guiam e nos mostram o que precisamos, o que queremos e quais são nossos desejos atuais.

Dizem que mudamos como as estações do ano. Constantemente adicionando coisas às nossas vidas, deixando coisas para trás. É, portanto, essencial que sempre se esteja olhando para si. O que é novo? O que ainda está aqui comigo? O que partiu?

Com o tempo, vai ficando cada vez mais claro que a chave de todas as portas que aparecem em nossas vidas está em nossas mãos. Só basta um clic.

Clic.

😉

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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Um comentário

  • Site 17/06/2016   Reply →

    Que texto maravilhoso Marcio, deu ate aquela dorzinha no peito lendo! Ainda bem que o mundo da voltas, e um dia poderemos nos encontrar de novo ?

Degustando...