A vastidão de um mundo conectado

O apego é uma coisa engraçada. Vem de mansinho, não avisa quando chega. Quando a gente menos espera,  já se vê atrelado às “necessidades” do século XXI.

Durante esse verão, observei o apego a inúmeros itens. Sejam eles abstratos, como a conectividade online, ou concretos como a bendita máquina que esfria o ar deste verão brasileiro de torrar as cabeças. Nossa convivência em grupo mudou: estamos sempre em muitos lugares, não só mais em um. Estamos numa notícia de massacre por arma de fogo (de novo) nos Estados Unidos, noutra manchete sobre como está acontecendo a convivência de refugiados com naturais alemães, ou na lista de nomeados ao Golden Globe (torci muito por Narcos e pelo brilhante Wagner Moura, inclusive). E, ao mesmo tempo, nesses pseudo-lugares não estamos, embora lá presentes, e estamos, sim, em volta de uma mesa, bebendo cerveja e conversando sobre as vidas nas cidades brasileiras, como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba.

Estamos sentados na praia, a falar sobre a vida durante guerras européias do século passado e sobre as incessantes guerras ao redor do mundo; estamos parados no trânsito a ouvir uma playlist nova do Spotify e conversando sobre a nova leva de artistas hollywoodianos, cada vez mais politizados e irreverentes.

Mas onde estamos, de verdade?! Estariam nossos corpos fisicamente aqui, mas nossas mentes em outro lugar completamente distante?

Acho que não.

Acho que a vida é perfeitamente divisível e que a gente — essa geração com as mãos grudadas nos smartphones e com uma necessidade gritante em ser feliz — aprendeu a ser por partes. A gente aprendeu a estar aqui, a falar sobre a inflação, a alta do dólar, as ocupações nas escolas estaduais em São Paulo, o desastre ambiental de Mariana, assim como a gente aprendeu a estar no resto do mundo por meio de um instrumento em nossas mãos. A gente não abre mais mão de ser global. E, apesar de serem exceções, tem muita gente que mesmo ao se universalizar, não esquece de olhar pra perto de si — e é aí que mora a magia de toda essa nossa atmosfera de conexões.

O mais legal do apego é essa familiaridade com o que nos é antigo, como se fosse uma memória a nos habitar. A nossa cidade, as pessoas nas nossas vidas, a praça ao lado de casa, o asfalto esburacado no caminho do trabalho ou o preço da gasolina: a tudo isso eu, assim como muitas pessoas, sou apegada e tudo isso merece um olhar mais do que atento. Acho que foi John Lennon que disse que para nos tornarmos universais, devemos agir localmente. E a nossa hiperconectividade nos ajuda a ter soluções eficazes pros problemas que podemos resolver em nossas cidades, assim como provê perspectivas de novas conversas que se deve ter em torno de N assuntos — aqui no Brasil, em 2015 a mesa se abriu pra começar conversar sobre reajuste fiscal, reforma política, condenações na justiça de milionários e políticos —, e também, não menos importante, nos abre um vasto caminho para o resto do mundo. A gente entende que o mundo nos pode contribuir em muito. E, além disso, a gente passa a finalmente compreender que pode contribuir muito para o mundo, e aprendemos a ser relevantes no lugar onde estamos. Não mais é necessário ser artista, cientista ou alguém de destaque na mídia, a relevância de um feito importante reverbera com abrangência internacional somente com um vídeo, um tweet, um post, uma fotografia. Entender-se parte desse mundo faz com que entendamos melhor o nosso papel na vida, da forma mais concreta ou abstrata possível.

Uma cerveja gringa que se adoraria provar ou artista novo incrível para compartilhar com os amigos ou uma receita deliciosa para um almoço de domingo ou uma curiosidade qualquer. O apego está aí pra isso: pra gente buscar sempre o novo. Hoje, as coisas não são mais distantes, mesmo que a milhares de km de nós ou a oceanos de distância. De outros trópicos e hemisférios podemos alimentar nossas curiosidades e nossa sede por novidade. Nossa proximidade com o resto do mundo aumentou (obrigada, Internet!), mas a gente não deve nunca se esquecer de onde está e de onde veio. Universalizar-se é uma tendência muito legal, em que a gente se conecta ao resto do mundo visando a, sempre, andar alguns passos para frente, e podendo melhorar nosso círculo no mundo.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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