O Lugar Mais Feliz do Mundo: Mangas e Carambolas Podres

O lugar mais feliz do mundo’ é um título bastante significativo.

Façamos uma aposta. Qual é, afinal, o lugar mais feliz do mundo?

Suponho que se palpite por lugares espetaculares em sua organização e beleza. Uma metrópole nórdica, talvez. Um vilarejo europeu. Praias idílicas. Ou mesmo algum reduto extraordinariamente civilizado na América do Norte, por exemplo.

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Foto: Pinterest

Teria sentido, com certeza.

Mas meu palpite é que o lugar mais feliz do mundo está igualmente longe de qualquer dessas opções. Aliás, sejamos mais diretos: meu palpite é que talvez esse lugar seja o Paraguai.

E você tem razão, antes mesmo de me contestar: meus (ou seus) ideais de vida provavelmente estão bem longe das ruas assuncenas.

“Paraguai”, você lê, cético e de cenho franzido.

A imagem mental que vem do país, afinal, costuma ser mais ou menos esta: uma bagunça, e o comércio caótico, um pouco sujo e bastante feio, como na entrada de Ciudad del Este. Uma cornucópia de coisas desinteressantes, kitsch e talvez mesmo de imitações. Trata-se de algum lugar que nem nosso livrinho de viagens — feito por e para brasileiros — nos recomendaria visitar. E o estereótipo vale para o todo o país, do Chaco até Encarnación.

Não importa. Estamos falando de felicidade. E gosto da felicidade porque me parece ser um sentimento despretensioso,  que seguramente combina tão bem com o Tererê, as expressões em Guarani e ônibus coloridos, caóticos e furiosos dessa rotina apressada e relaxada que só os paraguaios sabem ter.

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Foto: Tumblr

E mesmo com tantas possibilidades mundo afora, com as metrópoles incríveis e os cenários que caberiam em cartão-postal, é por isso que eu teria meu palpite diferente.

As bandeirinhas que eu hastearia na minha felicidade poderiam muito bem ser maltrapilhas de listras azuis, brancas e vermelhas, exatamente como as que tremulam por toda parte em Assunção.

Rumemos para lá por um instante.

***

“Eu morei em Assunção minha vida inteira…” – explica Gabriela, sem terminar a frase.

Ela busca atrás de mim algum garçom que não aparece. Num pub desses aqui da capital, estamos na nossa mesinha à céu aberto esperando um fim de tarde e alguém que nos sirva a cerveja. Ela se volta pra mim, mexe no cabelo preto, e toma todo um segundo pra lembrar onde estava.

“Você morava em Assunção…?”, pergunto.

“Isso! Sempre vivi aqui. Mas sempre me perdi também”, me diz. “E nunca fui muito boa com os ônibus. Sempre errava o caminho”.

Poucas horas atrás, nossa ida ao parque Ñu Guazu quase virara um desvio para muito longe dali e de qualquer destino que nos fosse conveniente. Perder-nos pela cidade ao menos era uma das partes que nos entretinha. Na verdade, era exatamente esse o nosso objetivo.

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Foto: Tumblr

Que assuncena!”, digo.

E ela ri e desfaz. Como se precisasse saber todas as ruas da cidade de cabeça. Que absurdo. Ajeita de novo o cabelo e sorri despreocupada.

“Mas isso não é nada”, ela prossegue. “Um pouco antes de entrar na faculdade, eu consegui um estágio numa construtora aqui, e uma das piores vezes em que isso aconteceu foi no caminho para o trabalho. Isso no meu primeiro dia!”

O garçom enfim traz a cerveja e a comida. Pergunta se queremos mais algo, e ela nega. ‘Eso nomás’, lhe diz. Me lembro do quanto gosto do seu espanhol. Paraguaios tem papas na boca e na língua, e me encanta a música do sotaque.

“Então”, Gabriela retoma depois do brinde.

“Eu tinha que chegar perto de um daqueles viadutos mais pro norte, sabe?”, me explica.Ela desenha um mapa no ar com o dedo e aponta seu destino: “Imagina que isso é Assunção. Mais ou menos. Então, eu deveria bajar nessa parte… mas fiquei no ônibus até o final. E aí fui parar na Argentina.”

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Foto: Tumblr

‘Que demais seria errar o caminho e ir parar na Argentina’, penso. A verdade é que ela precisaria realmente se perder muito para conseguir essa proeza.

“Como assim?”

“Clorinda. É uma cidade aqui do lado, aonde se vai quando a gente quer visitar ou comprar alguma coisa na Argentina sem viajar muito”, responde.

“E então? Como você fez?”, questiono.

“Ah, não sei. Eventualmente o ônibus parou para trocar na fronteira, e só aí que me dei conta de onde estava e que precisava voltar. Fiz o caminho inverso, e acabei chegando lá perto do meio dia. Mas expliquei para eles o que aconteceu e deu tudo certo. Entenderam de boa.”

“Mas que horas você tinha que estar lá?”

“Às 7h”, me diz Gabi, e se diverte horrores com a própria resposta.

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Foto: João Vítor Krieger

Agora, vale dizer ao incauto visitante ao Paraguai que, apesar do seu charme, há aqui idiossincrasias bastante simpáticas. Quando chove, por exemplo, as coisas não funcionam muito bem.

Como que para ilustrar isso, começa a chover.

Gabi me olha apreensiva. “Mudamos de mesa?”, pergunta.

Eventualmente nos abrigamos sob um guarda-sol, mas pouco importa. O calor que vinha nos castigando até então se converte em uma chuva torrencial. Todos, do garçom apressado aos alemães queimados do sol na mesa ao lado, se veem obrigados a escolher entre encontrar um teto qualquer ou ficar ensopado.

Sucede que, como em qualquer bar a céu aberto, há pouco abrigo por lá, e acabamos numa concentração extraordinária de pessoas num metro quadrado em frente ao banheiro feminino

“E agora?”, pergunto meio tenso.

A verdade é que acho tudo muito engraçado, mas em função da chuva, nunca tivemos a oportunidade de aproveitar a comida e as cervejas, que agora estavam encharcadas. Com isso, o mínimo que eu esperaria talvez fosse uma reação frustrada.

“Espera aí”, me diz Gabi, e grita para o sujeito na nossa frente: “Señor! Señor!”

Ele para de tomar fotos e selfies de si e de seus amigos por um instante para atendê-la.

“Você nos alcança aquela pizza?”, lhe pergunta. Num instante a pizza está em nossas mãos, não molhada o suficiente para nos impedir a refeição.

Gabi está verdadeiramente entretida. “Que tal o bar?”, me pergunta, rindo.

Pouco tenho a devolver como resposta. Um sorriso meio incrédulo, talvez.

“Ao menos você vai ter uma boa história”, me diz.

Ao nosso redor, os paraguaios se deixam molhar e divertem-se com a chuva. Boludo pra cá, Pelotudo pra lá, e me dou conta que intercalavam suas groserias com altas risadas e bromas. De uma forma muito sua, me diziam de alguma forma que a chuva vinha a calhar.

Na verdade, qualquer circunstância sempre é oportuna. Se você souber se manejar, até mesmo ficar na chuva ou se perder podem ser os melhores momentos do dia.

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Foto: João Vítor Krieger

***

Na saída do pub, preciso de um tempo até chegar no ônibus entre despedir-me de Gabi e achar a rua certa.

Aliás, uma coisa que precisa ser dita é que as ruas por aqui também têm seu próprio cheiro e aparência. Não sei explicar, tampouco dizer se é um cheiro necessariamente bom ou ruim.

Coloquemos isso desta forma: mangas e carambolas em decomposição são ornamentos comuns dos passeios e veredas das ruas de Assunção. Entre as rachaduras da calçada, brotam flores e se decompõem os frutos das tantas árvores que se espalham por qualquer lado da capital paraguaia.

Señor, una consulta!”, exclamo para alguém parado no ponto. “Você sabe qual ônibus me leva até a Eusebio Ayala?”

Ele me aponta para um ônibus colorido que vem inexplicavelmente rápido pela avenida. Embarco e me sento. Ele toca a mesma cumbia que está em toda parte e que faz desse país algo tão pulsante sempre.

Rasgando as calles todas no caminho pra casa, suspiro satisfeito. Estou vivendo dentro do cartão de visitas que o Paraguai oferece — sempre essa visão divertida e tão sua —, apeasar da fama injusta.

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Foto: Tumblr

O aspecto cansado das pessoas ao meu redor e mesmo dos transeuntes, com suas improváveis térmicas e sacolas de supermercado, denuncia também que o país lida também com todo o tipo de mazela que desafiam esse jeito de viver despreocupado. A cumbia é só um som de fundo quando a gente passa pelas cicatrizes e feridas atuais, como os asentamientos e as propagandas de políticos, tão frequentemente temas de conversas desacreditadosà noite, entre uma pilsen’i e outra.

A gente poderia ir mais longe. Pergunte-os, por exemplo, sobre a ditadura. Ou a guerra. Política. Sua infraestrutura e afins. Por certo que os relatos serão vivos e intensos, tão bem pontuados pelo sotaque deles.

Há de se levantar uma dúvida legítima quanto às entrelinhas dessa felicidade, afinal. Suspeito que alguém até questione a existência de um certo conformismo, ou mesmo um desconhecimento do problema.

Esse, porém, é outro debate.

Pensando no sorriso de Gabi e de tantas risadas sob a chuva, de noites de sol e nessa arte de ser paraguaio que eles cultivam, talvez a lição seja outra. Que haja tantas coisas urgentes para resolver por aqui, não tenho dúvida. O país, afinal, é um mendigo sentado em um trono de ouro, segundo escutei.

Mas o paraguaio, arrisco dizer, é esperançoso. Eles de alguma forma sabem que isso há de resolver em algum momento. Fica para amanhã, ou depois. Na hora certa (e na hora paraguaia), eles vão se acertar. Eles estão trabalhando nisso.

Enquanto isso, o importante mesmo é saber ser feliz. E disso os tricampeões mundiais nesse critério, que habitam estas calles e avenidas tão paraguaias e caóticas, entendem muito bem — com mapa e guarda-chuva, ou sem.

Sejamos paraguaios, por um mundo com mais mangas e carambolas no pé, ainda que a calçada esteja rachada.

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Foto: Tumblr

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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