Fonte: tumblr

A estrada da vida

Sempre que dirigia sozinha por uma estrada escura e deserta, Roberta afundava o pé no acelerador e aumentava o som do rádio, afim de distrair-se e sair logo dali.

Naquele sábado de madrugada, porém, pisar fundo e correr pela estrada não funcionou.

Depois de uma curva, seu Volkswagen prata, tão rodado e experiente, lhe surpreendeu. O motor fez um alto barulho, acompanhado de um solavanco.

Ao olhar para o painel, o indicador de gasolina tangenciava o nível mais baixo. Roberta esmurrou o volante. Ofegante e com o coração palpitando, praguejou em vão, numa tentativa de afastar o medo que o vazio daquela estrada no interior de Santa Catarina lhe causava às duas horas da manhã.

Pelo retrovisor, não se via nenhum carro. Aliás, não se via quase nada, mas ao menos foi possível encostar o carro na beira da estrada sem preocupação.

A primeira reação, evidentemente, foi revirar a bolsa atrás da capinha cor-de-rosa do seu celular para fazer uma chamada qualquer e conseguir ajuda, mas o telefone combinava demasiado com o cenário: tela negra como a noite, e tanta energia ou carga quanto o tanque do carro.

“Se ao menos a festa tivesse valido à pena”, disse para ninguém, repassando mentalmente as tantas mensagens enviadas e as horas que o Whatsapp lhe tomara.

Longos segundos sentada em frente ao volante, olhando incrédula para o horizonte visível da estrada. Nenhum posto. Nenhum telefone. Nem mesmo uma casinha pitoresca para bater na porta e fazer um telefonema.

A bateria do carro ainda funcionava. “3:00” já dizia o relógio no painel, e Roberta já tateava o banco do carro, antecipando que talvez dormisse ali tão logo se acalmasse. A luz de um carro que vinha, no entanto, lhe trouxe de volta para a situação.

O que fazer? Sair e abanar? Buzinar? Gritar?

Aquelas histórias de mulheres estupradas e assassinadas inevitavelmente voltavam vivas na sua mente. O sujeito do retrato falado podia estar atrás do volante. Podia ser o protagonista de um filme de terror, de máscara e um macacão com manchas vermelhas, esperando sua próxima vítima incauta. Que cena terrível seria.

“Calma, Roberta”, repetia como um mantra. “Você precisa se acalmar”.

Já estava quase amanhecendo, quando ela teve coragem de fazer sinal de luz para um dos carros que passavam. A Pick-up vermelha parou e um homem de meia idade, usando uma roupa surrada e a barba por fazer veio calmamente em sua direção. As mãos de Roberta suavam, suas pernas tremiam e seu coração batia acelerado, dificultando sua comunicação. O homem bateu no vidro e ela o abriu até a metade.

– Tá precisando de ajuda, moça? – Disse ele, com sotaque típico do interior.

– Oi… Acho que sim. Estou sem gasolina.

– Posso dar uma olhada?

Desconfiada e sem muita alternativa, Roberta abriu a porta do carro e saltou, dando espaço para o homem. Este, sem cerimônia, virou a ignição do carro e o ligou de imediato, olhando para ela com ar de deboche.

– Tá na reserva, moça, mas dá tranquilo pra senhora chegar num posto de combustível que tem logo aqui na frente.

Pasmem, ela não acreditava no que tinha acabado de ver. Um misto de vergonha e raiva de si mesma fizeram enrubescer sua face. Engoliu em seco e, recuperando-se, deu um grato abraço no homem. Surpreso com a reação da moça, ele voltou para seu carro e, abanando, se foi.

Roberta entrou no carro, mas não conseguiu partir de imediato. Uma voz muito clara ecoava em sua cabeça, como um alerta para uma situação que se repetia em sua vida.

Quantas vezes, diante uma situação difícil, ela acelerava e aumentava o ritmo de trabalho, esperando que tudo passasse, como num passe de mágica?

Quantas vezes ela deixou que o medo invadisse seu corpo e sua mente, impedindo-a de raciocinar?

E por que ela tinha tanto medo de pedir ajuda?

Roberta percebeu então que ela precisava confiar mais em si mesma. Nem sempre a vida seguia conforme o planejado e superar frustrações demandava muita energia. Ela entendeu que quando seu corpo ou sua mente indicassem sinais de cansaço, ela não poderia simplesmente pisar no acelerador, tampouco frear por completo.

Era preciso buscar o equilíbrio e tentar acertar. Percorrer a estrada da vida é a melhor oportunidade que temos de vencer a nós mesmos.

Ana Kienen

O sorriso é sua marca registrada. Vive com a cabeça borbulhando ideias e novos projetos, lamentando o dia ter apenas 24 horas. Sensível, chora mais de alegria do que de tristeza. Sua capacidade em lembrar memórias de infância é invejável, não deixando escapar aromas e sensações. Professora, gosta de escrever, cantar, dançar e atuar – nada profissionalmente – seu palco é mesmo a sala de aula.

Experimente também

uma boa dose de humor clima-tempo

Por Bruna Estevanin

  – por Bruna Estevanin quando chove, eu chovo, faz sol, eu faço, de noite, anoiteço, tem deus, eu rezo, […]

METAS GLOBAIS: A soma do individual e do coletivo.

Por Gabe Hansel

Mesmo que eu quisesse, jamais conseguiria falar de apenas UMA das Global Goals, então resolvi falar de todas que eu […]

2 comentários

  • Você tem um vocabulário maravilhoso e escreve prendendo o leitor. Amei a história!
    <3

  • Lari Reis 22/02/2016   Reply →

    Adorei a reflexão que o texto propõe. Ou as reflexões.
    Buscar o equilíbrio é meu mantra da vida e acho muito que estamos aqui para evoluir. Então, nada mais certo do que percorrer essa estrada 🙂

Degustando...