O último Chefão

O vento sussurrava lá fora. O céu, cinza chumbo, anunciava que uma forte chuva começaria a qualquer momento.

Enquanto olhava aflito através da janela, sentia meus pensamentos flutuarem e se materializarem ao redor da cabeça. Uma névoa se formava, pesada. Com as mãos, tentava dispersá-la freneticamente. Sem sucesso, claro.

Com mais atenção, notei que tal névoa refletia páginas da minha vida. Histórias vividas e revividas muitas vezes.

Expirando o ar, comecei a pegar memória a memória com o indicador e o polegar e assoprás-la ao vento.

Na terceira página, espantado, notei que elas tinham muitos padrões em comum: tinham o mesmo enredo, apesar de situações diferentes. Os olhos brilharam e ouvi as engrenagens da mente acelerar seus movimentos. Se fosse um trem, agora seria a hora em que o apito soa e ecoa pelos ares.

Tinha tido um insight: quando ideias malucas e desconexas se ligam formando uma linha de raciocínio brilhante.

Podemos comparar nossas vidas a um jogo, pensei.

Quando não passamos uma fase, por exemplo, entramos em um ciclo repetitivo até que concluamos todos os objetivos dela a fim de avançarmos na história. Na vida, isso não é muito diferente. Astuta que só, na vida a diferença é que temos um mesmo desafio enfrentado em situações e personagens diferentes.

Se você percebe que está vivendo uma mesma história, isto é, as coisas se desenvolvem como já aconteceu no passado, você tem a oportunidade de avançar o nível. Notar um padrão nos dá a chance de fazer diferente dessa vez. Evitar repetições. Quando estamos nessa situação, a vida nos dá espaço para quebrar um ciclo, fazer a coisa se desenvolver de outra forma.

Como na tela de continue, você escolhe entre avançar ou deixar para lá, ou seja, continuar naquele estágio.

As dúvidas são inúmeras: ah, mas dessa vez pode dar certo. Ah, agora estou mais maduro. Ah, é parecido, mas é diferente.

Criamos, assim, uma lista de motivos para não passar daquele nível. Medo, insegurança, incerteza… Todos os empecilhos que aparecem com o objetivo de que evoluamos, aparecem para nos manter estático.

Nesse momento, durante o clímax do jogo, a hora de lutar com o chefão, você descobre algo espantador.

É quando você entende que… No jogo da vida, o último chefão é você mesmo. Você é seu maior desafio, o mais difícil de entender e decifrar. E aí, na luta contra o espelho, é dado o momento de você abrir o coração e dizer que vai ficar tudo bem. Que não tem problema avançar. Que uma nova jornada não traz mal algum.

Nesse momento, um clarão invade a tela por alguns segundos sucedida de um inquietante silêncio e de uma tela preta. Tudo parece finalmente resolvido. Uma felicidade imensa inunda o peito. Quando a gente resolve o enigma final, a gente resolve a si mesmo. Os olhos ardem de alegria e o coração bate forte. Um fade-in se inicia e um novo horizonte se forma. Uma luz oriunda dessa linha tão longe enxarca nossa visão de calor, aquecendo cada célula do nosso corpo. Um sorriso se forma e uma calmaria reforça o que nos motivou a seguir adiante.

E por fim…

Bem…

Começamos tudo outra vez.

:’)

 

***

Quando é hora de enfrentar suas próprias dificuldades, não hesite em pedir ajuda. Seja para si mesmo, para Deus, para quem for. Seu maior instrumento é você mesmo e, não contar com ele é tão ruim quanto rezar sem ter fé.

Aprender a dizer adeus é tão essencial quanto aprender a caminhar. Um está, no fim das contas, atrelado ao outro. Só precisamos descobrir o momento certo para fazê-lo. Com isso, tudo está resolvido.

Até a próxima.

🙂

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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