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Eu, eu mesma e um propósito equivocado

Dias atrás, estava na sala de espera de um consultório médico quando li uma frase que, naquele momento foi libertadora.

“Você não nasceu com um grande propósito de vida. A sua existência já é seu grande propósito”.

Não me lembro das palavras exatas, mas reli a frase repetidas vezes enquanto minha mente fazia diversos questionamentos, numa conversa interna a qual eu já estava habituada. Como assim eu não nasci com um grande propósito de vida? Estou esses anos todos correndo que nem louca atrás do quê, então? Mas, e essa angústia que me oprime e me desafia a descobrir o que eu vim fazer nesse mundo? O que eu faço com ela? Já tentei ignorá-la tantas vezes, mas ela sempre, sempre volta.

“Seja você mesmo e encontrará a felicidade” – dizia o parágrafo seguinte.

Ser eu mesma. Oras, mas não é justamente isso que eu tento fazer todos os dias? Foi por essa razão que eu tranquei minha primeira faculdade: resolvi largar um sonho que não era meu e partir para uma carreira que fosse a minha cara. E também foi pensando em ser eu mesma que larguei um empregão e aceitei recomeçar do zero, ganhando um salário bem menor (…). Seja lá qual for a receita de felicidade que a matéria queria passar, ela definitivamente não funcionava comigo. Estava decidida a passar para a reportagem seguinte quando li destacado, em negrito:

“Não confunda quem você é com os desejos do seu ego”.

Precisei fazer nova parada e ter mais uma conversinha comigo mesma. O texto insinuava que eu não era quem pensava ser e sim o que os outros esperavam que eu fosse. Será que, mesmo depois de tanta busca, dos livros de autoajuda e workshops sobre autoconhecimento, eu ainda estava presa àquela cilada?

Li a matéria até o final, mas foi o início provocador que levei junto comigo. Desde esse fatídico dia na sala de espera, posso dizer que a costumeira angústia em encontrar algo que nem eu sei o que é está diminuindo. E, no lugar, brotou um misto de alegria e gratidão. Se o simples fato de existir já é meu maior propósito, penso que acordar cedo todos os dias e vencer a famigerada preguiça seja uma grande vitória – pelo menos sobre mim mesma.  Isso quer dizer que me dedicar com carinho aos cuidados da minha família e da minha casa fazem parte do meu propósito também. O café da manhã na mesa, o cheirinho de amaciante nas roupas, o lanchinho saudável na lancheira.

Estas e várias outras coisinhas pequenas que faço – e gosto – costumavam ficar de fora quando eu pensava em meu propósito de vida. Estava exausta com a busca desenfreada em atingir um objetivo: fazer da minha vida profissional a razão da minha existência, onde eu pudesse ser reconhecida e valorizada.  Mais tranquila, hoje consigo perceber que a felicidade está bem pertinho de mim, nas atividades simples, porém grandiosas do meu dia-a-dia. A verdade é que, no fundo, fiquei feliz de saber que aquele propósito era equivocado. Agora, me resta ser persistente e, principalmente vigilante, para não deixar que o ego venha e me confunda outra vez.

Ana Kienen

O sorriso é sua marca registrada. Vive com a cabeça borbulhando ideias e novos projetos, lamentando o dia ter apenas 24 horas. Sensível, chora mais de alegria do que de tristeza. Sua capacidade em lembrar memórias de infância é invejável, não deixando escapar aromas e sensações. Professora, gosta de escrever, cantar, dançar e atuar – nada profissionalmente – seu palco é mesmo a sala de aula.

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