Dona Carmen

Carmen Lúcia morava numa chácara – com mato, muitos animais, todo aquele cenário bucólico. Estava acostumada a ir para a escola obrigatoriamente com meia-calça e saia de pregas à moda da época, mesmo com temperaturas beirando 0ºC. Sempre foi muito dedicada: ajudava seus pais, lavava roupas, cozinhava, arrumava a casa e cuidava dos irmãos. Mas enfrentava com gosto o frio do percurso e o cansaço dos afazeres domésticos para completar as tarefas de casa. Ela, afinal, queria estudar.

Anos depois, quis ir à universidade. “Mas como? Uma menina assim, tão jovem?”, questionavam todos, “e sozinha?”. Seu pai foi contra a vontade da filha estudar – imagine lá uma menina desamparada e sem família na capital! Sua mãe, Neusa, aceitou a escolha da filha. Assim, sustentou-a com o escasso dinheiro que ganhava fazendo empadas, além de ter de conviver com o peso em ter contrariado o marido nos anos 60.

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Carmen Lúcia trabalhou desde muito cedo para conseguir cuidar dos custos de aluguel, transporte, alimentação e da vida – apesar da ajuda corajosa da mãe, a vida continuava sendo difícil. Mas sabia que, no fundo, trabalhava também porque tinha sede em aprender. Preencheu seus anos juvenis entre os árduos estudos e as longas jornadas de trabalho, em busca de uma vida melhor para si e de uma sensação de plenitude que tinha somente quando estava na frente de uma classe lotada de alunos.

Carmen Lúcia é uma das pessoas mais fortes que conheço. Com tantas barreiras, tantas marcas em si – dessas que não aparecem ao olho nu –, ela passa pela vida flutuando. Ela é a tradução literal de “resiliência”, também. Com todas as dificuldades que lhe foram impostas, desde um incêndio em sua casa quando recém-casada à perda de muita gente querida, dona Carmen não se deixa abater. Ela sacode a poeira e levanta a cabeça para viver.

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Dona Neusa e Carmen Lúcia fizeram o mundo ficar mais bonito com suas escolhas. E elas também fazem o meu mundo melhor. Dona Neusa infelizmente já se foi, mas era um dos seres humanos mais doces que já se viu, além de uma piadista de primeira mão e uma bisavó coruja como nenhuma outra. Dona Neusa foi daquelas mulheres com força no olhar e uma coragem inabalável. Dona Neusa foi uma das minhas perdas mais significativas, daquelas que doem por muito tempo, simplesmente porque ela faz muita falta neste mundo.

Já a dona Carmen é quem eu chamo, com orgulho, de “vó”. É quem estala os beijos mais altos na minha bochecha, quem sempre me recebe com um caloroso abraço em casa e quem tem a melhor mão na cozinha – ah, a comida de vó. Mas dona Carmen é muito mais. Dona Carmen se aposentou há anos, mas continua trabalhando incessantemente – e às vezes recebe broncas da família por conta disso. Ela não se mantém parada, porque seu dever com a vida é sempre muito maior; ela trabalha porque precisa estar sempre assim: em movimento.

Dona Carmen é uma das pessoas mais amorosas que conheço, mas também uma das mais fortes; é uma sonhadora, mas trabalhadora que só vendo. Essa mulher é de fibra. E tenho muito amor pela dona Carmen, além de uma felicidade em tê-la como minha vovó.

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Falei com dona Carmen essa semana e ela me contou que vai falar sobre ser mulher numa palestra – das várias que faz – e me convidou para prestigiá-la. Como não encher o coração de felicidade com um convite desses? Feliz dia das mulheres a todas – e abracem aquelas que são um exemplo a vocês e têm o seu amor. <3

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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