13 Andares

Depois de quase 3 anos por aqui, publicando nas terças-feiras textos quinzenais – embora nem sempre tão quinzenais –, chego a 50 posts. Essa é uma breve história sobre o porquê de escrever e o amor por boas doses.

***

Vem cá, vou te mostrar um lugar diferente”, me diz Gabi, cruzando a passos largos a Plaza de la Democracía e alguma rua central de Assunção.

Os carros e ônibus desse trânsito paraguaio quase a atropelam umas três vezes, mas sua postura permanece inalterada.

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Foto: Rolando Zerpp (http://goo.gl/OV2c8o)

Calculo que tenha sido isso que nos tenha dado acesso ao interior do Hotel Guaraní, sem que o senhor de smoking no hall de entrada gelado – apesar do verão escaldante de janeiro – nos quisesse perguntar pelo quarto ou a reserva. Gabi, tão segura e decidida na sua direção, muito bem passaria por uma hóspede ali.

Ao meu redor, o piano de cauda desafinado e os outros estrangeiros bem vestidos nos denunciavam a quantidade de estrelas desse hotel, provavelmente a única construção triangular da cidade. É um lugar de pompa.

Esperamos o elevador.

Olhando para baixo, vejo minhas alpargatas sujas e surradas. Visto também uma bermuda qualquer, e até fitinha do Paraguai no tornozelo eu tenho. Não é possível que não me parem.

Viro para trás. O sujeito atrás do balcão está ocupado, e seu assistente me acompanha com os olhos. Sorrio meio inseguro, mas ele sorri também. Faz cara de “que descanses, señor!” e me dá assim um salvo-conduto para explorar o lugar. Que suerte.

Suspiro aliviado, e me volto para Gabi outra vez.

“Aonde estamos indo, afinal?”, pergunto.

“Espera”, ela responde, com aquele sorriso de desafio.

E me conduz pra dentro, tão logo o elevador para.

“Aperta o 13”, ela diz.

Os botões do elevador, quadrados e salientes, denunciam sua idade. O último número disponível é, com efeito, o 13, mas o aperto em vão. Gabi se diverte com essa visão, e sigo o apertando, como se o elevador fosse mudar de ideia com minha teimosia.

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Foto: wesharepics.info

“Ele não funciona, olha só”, afirma didática, apertando o 12. “Mas não tem problema, a gente sobe um lance de escadas”.

A campainha solta um barulho qualquer – um “plim” desses de filme, talvez – e nos leva até lá.

O espelho revela nossas caras queimadas do sol, e empolgação incontida. “O que está acontecendo?”, pergunto, mas ela não responde. Somos interrompidos entre o 7 e 8, mas logo voltamos a ficar sem companhia

“Como está o seu alemão?”, ela pergunta pouco antes do 10.

“Melhor que meu espanhol, com certeza”, digo.

“Eles não vão saber a diferença! Se nos pararem”, e o elevador atinge o 12, ao que saímos e ela completa: “você diz que estamos perdidos e só buscávamos nossos amigos da Áustria, sei lá”.

Contornamos o corredor triangular e entapetado com carpete bordô do 12, nos esvaindo por uma porta de emergência e subindo um lance de escadas que enfim nos levaria ao 13.

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Foto: panoramio.com (http://goo.gl/jhcd6F)

Não sei bem o que esperar, poucos degraus antes de chegar na última saída de incêndio, marcada pelo nosso número da sorte. Um quarto secreto dela, num hotel assim? Algum amigo dela, ou algum objeto que ela teria escondido ali? Quem sabe até um piano afinado, chego a pensar, e me divirto com o tipo de coisa e a sequência do que me deixaria mais empolgado.

Errei rude. O lance de escadas entre o 12 e o 13 nos separava de outra coisa.

Tão logo adentramos última porta da escadaria, damos de cara com cadeiras com pernas quebradas, fios elétricos pendurados do teto, algum entulho e um grande vão de cimento e azulejos quebrados. As paredes dão poucas pistas do sol lá fora, salvo pelas frestas e rachaduras.

“Está abandonado?”, eu pergunto.

“Óbvio que sim, mas não é isso que importa”, e Gabi já está muito à frente de novo. “Aqui está a surpresa.”

O último ambiente acessível é um grande salão triangular. Um andar a menos, e estaríamos diante de quartos numerados, alguma arte genérica em quadros pela parede e tapetes bordô. Ali, no entanto, as paredes eram grandes janelas que ocupavam toda a parede, e nos davam acesso direto à varanda.

Da varanda, para um fim de tarde, e dali, para Assunção e o mundo.

Nossos passos deviam ser tomados com cautela. O vão entre a janela e o parapeito era estreito, mas nos dava espaço suficiente para contemplar, a dois, o Rio Paraguay ao longe, a Costanera, o Panteón de los Heroes e até a Igreja de Encarnación.

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Foto: João Vítor Krieger

“Meu livrinho de viagens não faz menção a esse lugar”, comento. “Procurei bastante por algum panorama da cidade, mas não tinha visto nenhum e esse lugar é incrível.”

Surpresa”, diz Gabi, já desfazendo o agradecimento que já solto de imediato.

Ela me fita, e ajeita os cabelos. ‘Ga-bri-e-la’. Pronuncio seu nome sorvendo cada sílaba, como se reconhecesse a surpresa que ela fora por inteiro, e não somente aqui, num plot twist constante. A gente se protagoniza nos melhores cenários, sempre nos sets menos prováveis.

“Mas qual é o porquê disso, afinal?”

“Hm?”, murmura distraída.

“Centro da cidade, hotel de luxo, vista inacreditável. E justamente o terraço ou último andar é o que está abandonados”, indago. “Não é um desperdício?”

“O que você acha que quer dizer o 13?”, me pergunta.

‘Só um número’, afirmo com as sobrancelhas.

“Azar, João. Superstição, sabe?”, me diz. “Eles acharam que é azar terminar o prédio no 13º andar, e aí deixaram assim. Por isso o elevador não sabe até aqui, percebe?”

Estou perplexo. Não consigo imaginar o engenheiro e o arquiteto do prédio pensando nisso. Dois sujeitos paraguaios de capacetes amarelos, munidos de um desenho técnico e o projeto do edifício, discutindo passionalmente o azar ou sorte de ter um andar a menos ou a mais, trocando farpas e verdades em Guarani e Espanhol.

A bem da verdade, não sei se queria saber se era mesmo isso. Alguns segundos a mais de pensamento poderiam me devolver a hipótese de uma reforma, assim tão simples, e de um elevador desativado por segurança. Mas que graça teria isso?

Ainda na varanda do 13º, o panorama nos brinda com o sol, dessa vez poente.

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Foto: Tumblr

Parte do tempo se divide localizando prédios no meio do panorama – “ali a gente estava”, ela diz, apontando para um pequeno prédio da Mariscal Estigrarribia – e elogiando a ocasião e a visão com olhares e sorrisos.

No tempo que nos restava, Gabi ainda me levava para um pequeno tour pela sua vida, ali do nosso cenário de escombros no 13º andar. Visitamos os bosques da Universidad Nacional, soubedo seu cão que se chama Perro, sua adolescência turbulenta e a difícil vida em Eusebio Ayala.

Chegamos até a trocar frases feitas, mas não me lembro de nenhuma. Bom sinal.

Nossa despedida seria breve. Afinal, o ônibus sempre vinha rápido demais e sempre pegava a gente de surpresa. Mas ficar perplexo na despedida também era um passatempo. E só em Assunção que a gente chegava em casa assim meio inebriado de vida, como se queimados de uma noite ensolarada.

Se aquele piso fora projetado mesmo desse jeito pensando na sorte ou no azar, afinal, realmente não consigo concluir.  O que importa é que lá não foi difícil de encontrar uma forma diferente felicidade ali no Paraguai, por sorte e assim sem cerimônia, em pronúncia e significado. Uma realidade que imita devaneios, e pronto. Eso nomás.

Assunção, como suspeitava, é cheio de pequenas surpresas e grandes descobertas.

***

Semanas depois, estou de novo muito longe dali.

Da nossa janela de novo em Santa Catarina, o pôr do sol não nos brinda com a mesma emoção do atardecerassunceno. De fato, a sucessão de dias parece mais insípida que antes.

Buscando uma cura para a insipidez, encontro aqui o tal do palpite.

Nada novo, é claro, mas nem por isso deixo de registrá-lo: a gente vive boas histórias não tão constantemente, e é pelo zelo de sua permanência e infinidade que a gente as escreve e lhes dá um lugar para existir no papel.

Assim, evidentemente, é sempre possível retornar para qualquer cenário desses de filme imaginado tal como era, sem precisar comprar outro bilhete da Gol ou inventar uma máquina do tempo. Reler um registro assim, arrisco dizer, é praticamente ter álbum de fotos que se pode habitar por alguns minutos, mesmo que a realidade tenha sido distorcida a gosto de quem a descreveu.

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Foto: Macky del Rosario

Há destino pior, afinal, do que o esquecimento e a completa ignorância?

Agora minhas retinas se cansam com o brilho infértil da tela do meu computador, mas sei que deve haver nelas mais um tanto de sorrisos que merecem resgate. Gabi e a vista do Guarani Splendor são bons exemplos, que inclusive já estão a salvo.

Mas há muito o que fazer ainda. Se isso for compilar um livro, não sei, mas estou convencido de há, alhures,histórias suficientes para replicar  Em Busca do Tempo Perdido, ao menos no número de tomos e páginas.

E enquanto isso, há de se explorar outros terraços e prédios (os novos e abandonados) para confirmar essa teoria de azar dos paraguaios. Até que fica fácil de alternar essa cumbia meio louca de viver, entender e tornar eternas as histórias e boas doses que nos aparecem.

Boas doses: eis aí um estilo de vida, para escrever e viver. Que a música das batidas do meu teclado nunca deixem de estar em sincronia com o mundo lá fora.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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