Fonte: Pinterest

Vem que eu te conto

– por Daniely Duarte

Às vezes, pergunto-me se é bom ser assim. Pergunto-me se é bom não ser posse de um lugar ou não ser dono de algum. Não consigo responder. Apenas me lembro de que o dono do mundo não tem o mundo. Tem nada além do sentimento de participar de algo que observa. E só tem quando observa.

Voar costuma trazer-me esse tipo de pensamento. Sustentar-me sozinho acima das cabeças das pessoas não me permite voar por cima de suas mentes. E isso me inquieta, fascina. Cada mente é um mundo, cada mundo vai até onde seu mentor permite, e eu me atrevo por cima a voar. A voyer.

Ser um pombo me permite perambular por São Paulo sem deveras ser notado. Estar muito presente na vida das pessoas também nos faz invisíveis. E assim acho melhor, pois fico perto o suficiente para acreditar que estou dentro.

De cima da segunda torre do décimo terceiro prédio da Avenida Paulista, já vi muito mais esquinas de mundo do que qualquer itinerante conhecido meu. E foi lá onde notei a vontade que me sobe pelas penas de reparar o que vejo. Ai! Se a cena de uma despedida se juntasse com o titubear de um beijo tímido, e então as lágrimas da lembrança de mais cedo invadissem a ansiedade de chegar em casa… Um ato perfeito se forma em minha pequena cabeça! A vontade de entrelaçar e contar o que vi acelera meu coração de forma a me fazer voar de volta à Praça da Sé, onde se encontram ouvintes. No fim do dia, o interesse surpreendente de meus iguais por ouvir algo tão possivelmente executável por eles faz com que mais fascínio coloque brilho em meus questionamentos.

Boto-me a contar tudo o que vi. Os detalhes são o que fazem os ouvintes saírem de seus tempos e transporem-se para o mundo que crio no mundo deles. Divirto, inverto, invento. Ninguém parece notar que é uma colcha de retalhos sendo tecida diante de seus bicos. Minhas histórias chegam de Itaquera, Tremembé ou Jardins, sempre com clímax nas beiradas da minha querida Avenida Paulista, e os levam das pegadas sujas do chão da Sé às nuvens mais altas do que as que podem tocar.

Certo dia, após coletar cenas incrivelmente encaixáveis, faltava-me apenas um final. Esperei até o gesto certo acontecer na calçada e finalmente deixei a ansiedade levar-me ao encontro dos espectadores. Ao chegar, notei a presença de um novo integrante em meio ao grupo. Gostei de ter a atenção de um inédito ouvinte.

A história fora uma das mais belas que já montei. A satisfação de chegar ao fim dá-se pela percepção da própria percepção. Sentir-se segurando o único fio de verdade cria um extasiado sentimento de poder. Mas sua ruptura pode re-explodir os conflitos, que nunca desapareceram.

O novo integrante se manifestou. Instantes depois de terminar minhas falas, gritou: “Eu também já vi essa história acontecer!”. Pasmei. Como alguém poderia conhecer a história que acabei de criar com as cenas que só eu vi? Ele ainda completou: “É um belo filme!”.

Como ninguém ali sabia o significado daquela palavra, a noite acabou por aquilo mesmo. Mas eu não sosseguei. Quem seria o tal de “filme” que vira as mesmas cenas e montara a mesma história que eu? Sempre acreditei quando ouvia dizer que cada ponto de vista é uma verdade igualmente verdadeira, mas diferente. Como um outro ponto de vista construiria e exporia o mesmo mundo que o meu?

No dia seguinte, aquela torre serviu de cálice para os meus intrínsecos pensamentos, mais inquietos que o normal. Voltei tão decidido a tirar esse peso das asas que nem parei para sentir o vento formado onde o chão engole os trens, como de costume. Na praça, estava o novato, como se soubesse que eu viria por ele. Não me contive e perguntei quem era o tal de “filme”. Ele me pareceu menos surpreso do que eu esperava e com a resposta já pronta: “É a verdade passada na parede”. Sem mais um pio, fez-me querer segui-lo para onde queria que eu fosse. Tive a impressão de ter chegado pelos fundos. A sala escura estava cheia de pessoas com a mesma expressão que tenho quando estou em cima da torre. Todas olhando para a parede. Depois de algum tempo, peguei-me, como de praxe, hipnotizado pelas pessoas. O novato ao meu lado parecia do mesmo jeito, mas seu foco era outro. Na parede, seres achatados viviam a mesma história contada por mim na noite anterior. Meu mundo caiu. Ou melhor, caí de cima da segunda torre do décimo terceiro prédio da Avenida Paulista, em meio aos mundos aos quais assistia. E montava. E contava.

Ainda não me disseram o que são os filmes, mas tiro minhas próprias conclusões. Se eles são capazes de contar a mesma história que eu, e eu de criar a mesma história que eles, talvez aquilo de os pontos de vista serem sempre verdades diferentes não seja verdade. Mas algo me diz que nunca terei certeza disso. Porque mesmo não sendo apenas um ponto de vista, por lembrar-me dos outros em que já estive, todos estão onde eu os coloquei. A diferença entre saber e sentir pode ser enorme. Talvez nunca entenda as coisas que sinto, mas sei que sinto. E sinto. E talvez não seja para entender. Mas vou continuar contando.

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