A menininha e meus sonhos

Era uma típica tarde de quando tinha lá meus 11 ou 12 anos: depois das aulas da escola, passava o resto do dia brincando na rua. Naquela ocasião, estava com dois amiguinhos na praça da pirâmide e, numa dessas brincadeiras dessa fase de fim-de-infância, corria ansioso atrás de um deles.

Parei, sem saber por que, assim que ela apareceu no meu campo de visão. A menina acabara de cruzar a rua e, então, a caminhar pela calçada da praça. De mãos dadas com ela, uma pequenina criança que parecia ter seus 3 anos. Já a menina que cruzou a rua e atraiu meu olhar também era muito jovem, diria que beirava os dezoito anos.

Normalmente essa cena não seria marcada pela minha memória. Era bastante crua, corriqueira demais, chegava quase a ser banal. Contudo, inexplicavelmente essa lembrança se transformou em uma das mais marcantes da minha infância.

Tudo começou com um movimento para lá de estranho: a menina mais velha agachou em frente à mais nova e, com um galho fino, dava leves – e indelicadas – batidinhas na fralda da pequena. Depois, como se com pressa, levantou-se e virou as costas, afastando-se.

O tempo parou nesse momento. Não respirava.

A menina, desta vez a menor, se fez manhosa e pôs-se a chorar incessantemente. Foi então que esticou seus curtos braços e pediu colo – com um desespero tão grande que tudo em seu redor pareceu escurecer. A mais velha já parecia irritada; virou-se, estalou a boca, agachou mais uma vez e, após praguejar algo, acolheu a pequena nos braços. Então, apertou o passo, voltando ao mesmo lugar de onde havia vindo.

Era claro para mim o que tinha acabado de acontecer.

Com o coração apertado, assisti ao momento de indecisão de quando ela virou a esquina e saiu de vista. O destino da pequena era incerto… E as duas eram apenas crianças.

A menina mais velha só precisava desenvolver mais um pouco de coragem…

– Fica tranquilo – um dos meninos virou e falou para mim – ela só estava treinando a outra.

Aflito, pergunto: – você acha, mesmo?

– Claro que não. Você acredita, mesmo, que ela estaria treinando a outra?, ele respondeu.

Antes que desse de ombros, ele bateu no meu braço e gritou: “tá com o Murilo!”.

Minha cabeça foi longe e demorou alguns segundos para processar tudo aquilo que tinha visto. Quando me dei por mim, já estava correndo. Movia as pernas sem saber se estava fugindo daquela memória recém-formada que pairava sob a minha retina ou se queria apanhar um de meus amigos.

***

Acordei mais confuso que o normal naquela manhãzinha de março. A noite anterior tinha sido cheia de sonhos e símbolos doidos, todos ligados a anseios e abandonos. Para confundir-me mais a cabeça, imagens daquele dia na praça da pirâmide repassavam como um filme diante dos meus olhos.

Maluco como sempre fui, não tardou muito até que eu estalasse a boca, arregalando os olhos, e sorrisse logo em seguida.

Hoje, sinto como se eu fosse aquela menina mais velha e como se meus sonhos fossem representados pela menina mais nova.

Quantos deles, desses sonhos, tentamos deixar de lado, talvez por achá-los imaturos demais, pequenos demais?

Espanto-me.

Se é apenas uma questão de ter coragem para abandonar, quantos estão perdidos dentro de nós mesmos?

E aí, me vejo caminhando nas esquinas das minhas entranhas, aflito, procurando cada sonho que abandonei.

A alguns deles, bastou um caloroso abraço para que me perdoassem o abandono. De outros, mais incisivos, encontrei hostis respostas à minha desistência. Foi bem difícil acalmá-los.

E, muitos sonhos, inúmeros sonhos meus ainda estão perdidos.

Às vezes, chego a me deparar com ilusões disfarçadas de sonhos. Essas foram, dentre todas as experiências, as mais difíceis de resolver. Isso porque, quando desvendadas, elas alfinetam diretamente o coração como castigo antes de desaparecerem. Elas fazem doer. E trazem um grande conforto quando neutralizadas. É que elas deixam de fazer parte da gente e isso, no final das contas, faz muito bem.

A busca prossegue.

Ávido vou, aos poucos, descobrindo mais sobre mim mesmo.

Porque hoje… Hoje, isso é só o que importa.

😉

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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