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1997

Lá em casa, presente de Natal é coisa séria. Talvez não seja intencional, mas os melhores sempre chegaram via Papai Noel e, mais tarde, quando as crenças infantis já não me bastavam, pelo correio. Foi no Natal que ganhei minha primeira bicicleta sem rodinhas, a Barbie Ginasta e a coleção inteira dos livros “Desventuras em Série”. Mas nenhum Natal foi tão especial quanto o de 1997.

Não me lembro com detalhes da ceia, do amigo oculto ou das tradicionais apresentações musicais da minha família. Só me lembro de acordar na manhã do dia 25 e rasgar, com mãos sonolentas, o embrulho cor de rosa que apareceu ao pé da minha cama. Lá dentro, ao fundo, estava um modelo simples de aparelho de som da Panasonic, com um – já ultrapassado – toca fitas na parte da frente, um – ainda moderno – leitor de CD e, de brinde, um controle remoto que foi muito mais útil como microfone imaginário. Eu tinha apenas seis anos e algumas remelas nos olhos quando tirei daquela caixa o que viria a ser meu melhor amigo por muitos anos e, possivelmente, meu primeiro grande amor.

Ele tocou, primeiro, alguns discos de Sandy & Junior e da Marisa Monte, fieis companheiros da infância e, mais tarde, meus CDs caseiros e mixados, os favoritos da adolescência. Durante todas as minhas fases musicais, esteve lá por mim – e aguentou firme cada uma delas. Aos 13, por exemplo, entrei nas aulas de pintura e cismei de treinar meus recém adquiridos talentos no radinho. Pintei o cinza monótono do meu Panasonic com flores, nuvens, sóis e estrelas de vários tamanhos, alternando cores vivas e um evidente excesso de tons azuis.

Foto: Pinterest

Memória boa não é uma das minhas características, mas me recordo vividamente de contar as horas para a aula acabar e finalmente poder ir para casa ouvir música por horas a fio. O ritual era sempre o mesmo: engolia a comida do almoço com rapidez, corria até o quarto, ainda de uniforme, fechava a porta com chave, ligava o ventilador – sempre no médio, para não perder nenhum detalhe por conta do barulho – e deitava no chão de madeira. Ali, deitada, passei horas – ou anos? – ouvindo as mesmas músicas de sempre, sonhando acordada, cantando junto, chorando de saudade e rindo de mim mesma por inventar diálogos imaginários que nunca chegaram a existir.

Na falta de um site como Vagalume, me sentava à frente do fiel escudeiro, agora colorido, com papel e caneta em punho, dando pause a cada frase para transcrever a letra da música e aprender a cantar junto com meus cantores preferidos. Foram cadernos e mais cadernos de letras de músicas transcritas pacientemente com caligrafia impecável, canetas coloridas para destacar o refrão e adesivos decorativos nos cantos de cada página.

Alguns Natais mais tarde, ganhei um aparelho de som ultra moderno, desses com entrada USB, cinco compartimentos para CDs e várias regulagens de volume. Ele era melhor, mais potente e, apesar do Panasonic ser consideravelmente menor em tamanho, não deixou nenhum espaço para o novo amigo na minha memória afetiva.

E assim fomos, eu e o radinho, por muito tempo. Até que o mp3 aconteceu. O Media Player aconteceu. O Winamp aconteceu. O Kazaa aconteceu. O YouTube aconteceu. O Spotify aconteceu. E a música virou portátil. Seria lindo se não fosse, ao mesmo tempo, tão trágico. A portabilidade fez da música uma arte de segundo plano e, por bons instantes, entrei em pânico por não conseguir me lembrar da última vez que realmente ouvi uma canção. Não é dirigir e ouvir música, não é trabalhar e ouvir música, não é estar entre amigos e ouvir música, não é ir a um show e ouvir música. É deitar no chão de madeira e não fazer mais nada além de respirar e reparar em cada nota que ecoa no quarto enquanto encaro o teto.

Já faz algum tempo desde que liguei meu radinho pela última vez, mas a nossa relação ainda é a mesma. Se me sinto triste, feliz, ansiosa ou brava, não são de palavras que preciso. É do silêncio preenchido por uma melodia familiar. É acalmar o ritmo com o contrabaixo, para compensar o descompasso da própria vida.

Não se consome mais música como antigamente e não se faz mais 1997, mas se faz saudade como nunca se fez, em notas musicais.

Acho que vou pedir um rádio novo nesse Natal.

Bruna Estevanin

Bruna Estevanin

Bruna é uma jornalista inquieta que adora ouvir histórias e nunca recusa um convite para jogar baralho. Acredita mais em ações que em palavras e as pessoas que enrubescem quando estão envergonhadas são as suas favoritas. Nas horas vagas, ela inventa teorias sobre comportamento humano, rabisca uma ideia e outra e coleciona guardanapos.
Bruna Estevanin

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