Negrito

As mangas e carambolas rotas são ornamentos comuns dos passeios e veredas pelas ruas de Assunção. Entre as rachaduras da calçada, brotam flores e se decompõem os frutos das tantas árvores que se espalham por qualquer lado da capital paraguaia.

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Foto: João Vítor Krieger

Poderia se dizer até que o Paraguai, à primeira vista, serve de metáfora para o próprio Paraguai. 

Não sei se saberia elaborar. Mas some a isso o som da cumbia onipresente, os ônibus coloridos e a atmosfera pulsante do país e você tem, à primeira vista, o mesmo cartão de visita que teria qualquer viajante a adentrar o Paraguai e suas cidades injustamente infames. É sempre uma visão divertida.

Talvez eu já tenha até dito ou escrito isso. Mas não importa. Não nos atenhamos a esse ponto por ora.

Voltemos um instante às árvores de fruta como ponto de partida. Tal como nas calles e avenidas, o panorama do quintal da família Martinez se dividia igualmente entre um sobrado de fachada vagamente espanhola e os arbustos e o pé de carambola.

Usualmente, a casa oferece ao ocupante temporário a sensação de se habitar um corpo vivo. Os cães rondam a casa industriosamente Carros entram e saem, de modo que sempre se pode ouvir um motor roncando. E mesmo o visitante mais introspectivo sempre se deparará com mais uma conversa e mais uma cuia de tererê gelado.

Na metade desse verão, estamos sem a Polka Paraguaia de costume. É fim de tarde num domingo desses que serve para pouco além de comer, dormir e perder a carteira.

Negrito se murió”, diz Madre de supetão, surgindo pela porta sem cerimônias.

Hermana e eu estamos sentados na sala trabalhando. É evidente que a surpresa nos assusta. Negrito era o mais velho dos cães, grisalho e débil, que enfim resolvera deixar de lutar com sua própria falta de vitalidade.

 

Hermana a encara surpresa.

“Puedes imaginar el estado de tu abuelo y abuela”, diz Madre,fitando a Hermana.

Hermana não reage de pronto. O silêncio permanece suspenso no ar por mais alguns momentos, até que Madredeixa o quarto de novo.

Tardo a reagir. Ao enfim cruzar os corredores rumo ao quintal, noto que a casa parece ter se mantido em estado de suspensão: a televisão dialoga sozinha com seu espanhol embolado, e o ventilador de teto gira à toa.

Ali, aos fundos da casa, a família assiste Cuñado e Hermano cavarem uma pequena cova sob o pé de carambola.

Abuelo e Abuela, como donos do cão, são efetivamente os que mais sofrem. O aspecto brincalhão ou dócil de ambos agora se mantém velado e sufocado. Ao seu entorno, Madre e Cuñada velam Negrito discretamente, tentando distrair Sobrino e Sobrina ao mesmo tempo de se darem conta do que aquilo tudo significava.

Foto: Edinho Irizawa

Foto: Edinho Irizawa

As moscas que normalmente voam em torno dos frutos em decomposição agora rondam agitadas o cadáver deNegrito, estirado no chão em seu canto de sempre.

Aproximo-me de Abuelo e Abuela.

“Lo siento”, digo-lhes atrapalhadamente, como normalmente fazia em função do meu espanhol bagunçado. “Por el perro. Es una lastima”, digo na tentativa de emendar, e repouso uma mão sobre o ombro de Abuelo.

Ambos me sinalizam genericamente que estaria tudo bem. Não está, é claro, mas que eu não me preocupasse.

Kiki, o outro cão, corre animado por minhas pernas. Ao fundo, Cuñado e Hermano cavam diligentemente a cova deNegrito.

“Sabias que gatos sempre sabem voltar para casa, não é verdade?”, me diz Abuelo.

Abuela nos observa, esperando a deixa de censurar Abuelo e uma de suas galhofas.

“Sim, é verdade. E o gato e o kavaju também”, conta. ‘Kavaju’ quer dizer ‘cavalo’ em Guarani; tenho a sensação de que ele está prestes a contar uma história.

“Tínhamos um gato branco e belíssimo há muito tempo. E na Costanera tem um clube náutico, certo?” — Acertei em cheio. Ele prossegue. — “Então. Um dia fui até lá com um compañero deixar esse gato para que não voltasse, porque a gente não conseguia mais mantê-lo. E depois fomos comer pescado ali por perto.

Me parece ser uma anedota demasiado distante da situação que estamos. Gatos e pescados. Mas sem dúvida qualquer distração é certamente melhor do que ir muito a fundo na situação já declarada da morte deNegrito. Seu rosto avermelhado e inchado mostra fagulhas de alegria ao dissertar sobre qualquer outra coisa, daquele jeito engraçado dele, aflorando suas bromas e imitações.

Ele inclina sua cabeça e me olha por cima dos óculos tortos. Aquele sorriso bufão vale ouro.

“E aí pegamos o carro e voltamos. Adivinha o que aconteceu? É claro, o gato estava lá tranquilo, como se absolutamente nada tivesse acontecido.”

Abuela intercede.

Los perros también”, ela diz.  “Aquele ali, o Harry, só vai até a esquina, mas o outro conhece o bairro todo. Sai correndo pela porta, explora uns tantos quarteirões e depois retorna logo mais”, afirma.

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Foto: Fotociclo (https://www.facebook.com/elfotociclo/)

Outro dia, foi justamente o outro cão que deixei fugir ao sair pro trabalho. Não sei dizer como, mas se esgueirou entre o portão e eu e saiu correndo pelo bairro, pro meu pânico. Conhecia bem o instinto explorador do Harry, e nos distraímos com a imagem mental do chow-chow preto correndo por uma vizinhança de Assunção.

É bom saber que o Negrito deixou sua mente momentaneamente, aliás. Não fosse por sua cova e as pás arremessando terra para o alto ao fundo dessa cena toda, o domingo certamente teria passado batido, de tão ordinário.

Abuelo segue.

“E um compañero meu tinha um kavaju também que era excepcional. Muito manso. Ele precisava frequentemente dirigir suas carroças para levar encomendas por aí, e para isso usava o cavalo”, contava. “Y bueno, te dizia que, se você não deixa o gato ou o cavalo do outro lado de um rio ou algo assim, eles inevitavelmente voltam.”

Abuela assentia.

“E você sabe que um dia pediram esse cavalo emprestado. Así nomás. Disseram ‘vou ali, usar o cavalo só um pouco e te devolvo amanhã’. Meu compañero concordou, claro — era boa gente — e lá se foram com o cavalo”, me contou.

Às vezes ele pausava e me fitava. Eu gostava desse efeito dramático, mesmo que a história fosse comicamente prosaica, sobre cavalos e carroças.

“O cavalo era muito manso. Foi tranquilo embora, mesmo sem seu dono, como se não fosse nada”, explicava.

Ao fundo, Madre distraía Sobrino para que não ficasse muito curioso com aquele buraco enorme no chão. ‘¿Negrito está dormiendo?’, escuto-lhe dizer.

“E no dia seguinte, quando foram buscar o kavaju, ele não estava mais lá”, dizia Abuelo. “Assim mesmo, simplesmente não estavam. Até perguntou como, e responderam que não sabiam — ‘fomos ali fazer não sei o que, e quando voltamos, ele tinha fugido’, e pronto. O cavalo se foi.”

“E então? Encontraram o cavalo?”, perguntei.

“A verdade é que não. O buscaram e não encontraram em lugar nenhum. Mas ao cabo de três dias—“

“Ele apareceu?”

“Sim, apareceu. No terceiro dia ele de repente voltou trotando tranquilíssimo, entrou pela porteira que ficara aberto e se pôs em seu lugar onde sempre ficava”, conclui. “Gatos e cavalos sempre voltam a sua casa. Cachorros também”, me diz, passando a fitar a grama, pensativo.

Nisso, Cuñado e Hermano resolvem enterrar o cão, e o pegam pelas patas. A visão ao fundo passa a ser de Negritosendo carregado como se fosse um pedaço de carnes e ossos.

Abuela e Abuelo os acompanham, enquanto os demais se retiram.

 

Negrito parece não se acomodar muito bem no buraco que fora cavado, mas logo é ajeitado pelos dois que prepararam seu sepulcro. Seus olhos entreabertos são uma visão tétrica, e triste para os dois mais velhos ali parados.

A terra volta a ser jogada no buraco, tapando Negrito com baques surdos e concluindo o rito aos poucos. Penso no meu próprio avô, agora falecido, e no jeito jocoso com que tratava a morte, mesmo em uma cerimônia bastante parecida ainda no Brasil.  Não consigo deixar de pensar que talvez ali ambos contemplem sua própria efemeridade e isso os entristeça de igual maneira.

A bem da verdade, todo o cenário se anuncia dessa maneira, com as carambolas suculentas e rotas no chão. Os primeiros passos de Sobrina, que mal tinha 1 ano de idade, fazem oportuno contraponto ao cambaleio cansado de Abuelo.

Logo mais tornamos a sentar. Abuelo sorve seu tererê sem dizer nada.

O cão sempre sabe aonde voltar, assim como o cavalo e o gato, a não ser que se ponha um obstáculo suficientemente grande para forçar seu abandono. De igual forma, Madre, Hermana, Sobrinos, Abuelos e Cuñadosse punham em suas posições anteriores. Seguem com sua aparente função na casa e no seu ofício particular à posição ocupada: fazer a comida, sorver outra cuia de yerba, distrair as crianças, limpar algum quarto ou o que fosse.

 

De igual modo, os outros cães tornaram a rondar a casa. Alguém ligou o carro e o manobrou para sair de novo. Outra carambola caía no gramado, e as moscas voavam em círculos incautas e ansiosas por qualquer matéria decomposta e convenientemente jogada pelo quintal.

Meu tempo no Paraguai é curto. Não terei muito tempo para pensar nas rachaduras na calçada e nos encaixes improvisados entre as tantas camadas de gente e os contextos extensos desse país inusitado.

Mas a pergunta permanece. Se o kavaju estiver certo, todos voltamos eventualmente para nossos lugares e nos colocamos onde deveríamos. E assim se põe o sol, e tudo deve seguir como se espera, com ou sem o Negritoenterrado sob algum arbusto.

Resta saber aonde vou eu.

João Vítor Krieger

João Vítor Krieger

Catarinense de sotaque meio vago e de 1992, gosto de cartões-postais, meios termos e de estar sempre com meu ukulele e uma gaita a tiracolo. Uso meu tempo tentando dar bom uso ao meu diploma de bacharel, voluntariando em alguma causa, e escrevendo histórias mais ou menos inventadas a cada duas terças-feiras aqui no Uma Boa Dose. Sonho em viver em um mundo onde as pessoas não achem o alemão um idioma tão feio assim, e onde Assunção esteja sempre a 15 minutos de casa.
João Vítor Krieger

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