Fonte: Tumblr

São Domingos

– por Daniely Duarte

Não me lembro de entrar. Perdida no ar do som dos pedidos de muitas Marias a uma Senhora, estive em mim quando reparei as cicatrizes das paredes.
Em busca de contemplar o encontro nas costas de quem procura, pedi para me sentar ao fundo. A mão esquerda me puxou, enquanto a direita apontava lugares mais à frente.
O vermelho das memórias de um incêndio que não vi teceu-se abaixo de estáticos fios de cabelos brancos e soou como pedido de oração.
Minhas preces têm sotaque brasileiro. Aos risos, não tem problema.
A mão direita me puxou, enquanto a esquerda apontava o altar. As costas eram minhas. O sol da primavera iluminou o português. O sorriso do português iluminou o espanhol, o francês e o pouco de alemão.
Ele trouxe Beatles, amor e Vinícius de Moraes. Eu aceitei. A grandeza me invadiu. Eu estremeci. Busquei-me no conforto de me sentar ao fundo e abri os olhos no altar. Expandi a mente com os braços e pedi coragem para integrar a mim o que for maior que eu. Façamos dos menores, melhores.
Subi. Oramos todos, com sotaques tanto faz. Tentei descer. Fiquei.
Contemplei, de frente, o encontro nos rostos de quem procura. Inseri o sol nessa memória. A grandeza me invadiu. Eu agradeci.

Com a licença de 26 de abril de 1500, essa foi minha primeira missa em Portugal.

26 de abril de 2016.

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