Daminha de Vermelho

Enquanto via o tracinho chato do editor de texto piscar na tela, escrevi e reescrevi um começo de algo mais de mil vezes.

O problema não eram ideias escassas, falta de criatividade ou não saber o que falar. Isso tinha de sobra! A matemática dava zero na hora de focar em algo. Não conseguia de jeito algum! E esse era um incidente que se alastrava por diversos cantos da minha vida, não só em uma simples tarefa.

A primeira coisa que fiz foi o que todo mundo costuma fazer: uma lista. Sim, listei tudo o que poderia possivelmente abordar num escrito. Eu queria falar muita coisa sobre muita coisa. Queria comparar a vida à uma fazenda, depois escrever uma carta para o meu Eu do futuro, depois para o meu Eu do passado. Quis muito, quase tudo. Mas não saí do lugar.

Desisti. Respirei fundo. Olhei para o teto. Sorri. Mordi a mão.

Fechei os olhos.

Uma porção de imagens passaram diante dos olhos. Memórias se mesclavam e formavam filmes lúdicos, coloridos e preto e branco. Vozes ecoavam distantes e ao mesmo tempo tão próximas e claras. Sorri de novo. Nem nas lembranças mantinha o foco.

Aquela recordação de quinta, materializada em uma menininha vestida de vermelho, veio depois de algum tempo. Ela se aproximou com pressa e logo aninhou-se em meu colo.

– Oi, amiguinha – saudei-a com um sorriso – você quer um pouco de atenção, né?

Ela me sorriu de volta, manhosa, e assentiu com a cabeça. Abraçou-me em seguida e voltei àquela manhã de feriado.

Minha família, quase que inteira, estava bem ali, a poucos metros de distância de mim. Estava envolto por vozes e risos conhecidos desde tão logo me dei por gente. Fiquei ofegante. Sentia uma completude difícil de explicar.

A memória avançou rápido. Danada daquela daminha de vermelho! Mal havia revisitado aquela manhã de quinta e já estava no comecinho da tarde. Vi-me chegar na mesa de pique-nique. Mamis estava lá, sozinha, me observando chegar.

Ela não quis ir à trilha, portanto, ficou com a árdua tarefa de cuidar de todos os pertences, inclusive os comes e bebes do passeio.

Levantou aflita.

– Nossa – exclamou – vocês demoraram bastante! Preciso ir ao banheiro.

– Demoramos tanto assim? – a trilha era longa, então foi normal termos perdido a noção do tempo.

– Quase três horas.

Senti um baque. Mesmo por escolha própria, ela ficou quase que a manhã toda sozinha enquanto o restante da família, juntos, curtia a trilha.

No decorrer do dia, interagi com ela com certa frequência, mas notei que havia uma grande distância entre nós. Nos últimos eventos familiares, lembrei-me, pouco havíamos conversado. Falávamos as mesmas coisas. Fazíamos as mesmas perguntas e dávamos as mesmas respostas. Sempre.

Um  silêncio no peito se fez.

Voltei ao presente chateado. A daminha de vermelho já não estava mais em meu colo.

– Eu não vim por isso, sabe? – ela se justificou, em pé, do meu lado direito.

– Eu sei. Ou acho que sei.

– Mas é curioso. O resultado foi bem curioso. Mamis,  mamis –  disse e riu baixinho.

Confesso que eu não sei lidar muito bem com as minhas memórias. A maioria que me visita é recente, logo, me aparecem como crianças. É muito estranho ouvir comentários adultos de crianças.

– Curioso é eu lidar com lembranças personificadas. Isso é maluquice.

Falei sozinho. Ela já não estava mais aqui.

Abri os olhos com calma.

A primeira imagem que focalizei foi a tecla R do teclado.

Levantei a cabeça com certa tontura e olhei para a tela do monitor. O Word estava repleto de llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll. Ri sozinho. Há tempos não era novidade esse sono incomum que se instalara em meu corpo e essas pescadas que sempre davam em sonhos curiosos e inquietantes.

Além disso, tinha aquela recém quase dislexia e aquela dificuldade de expressão que acompanhavam-me no meu dia-a-dia. Havia uma razão, agora clara, por detrás delas – era essa distância que se fazia entre não só a mim emamis, mas, também, de certa forma, entre mim e todo o resto da vida.

Uma incomum saudade desenfreada de tudo, incluindo até mesmo do que ainda tenho, indicava-me uma grande situação: uma despedida antecipada oriunda de uma partida que ainda estava longe de acontecer.

Era meu adeus estampado em cada palavra minha, se dissipando nas ideias, pensamentos, anseios, ações e sonhos que tinha.

Era eu dando tchau a tudo sem ter que dá-lo, assim, de graça.

Muita coisa ainda há de mudar – eu penso. Mas a vida muda o tempo todo. Qual a novidade disso?

Enquanto o horizonte exibe um futuro com barreiras que já começam a se quebrar, sinto-me pronto para alcançar meus sonhos com toda força que tenho nas pernas.

E quando vejo-me nesse futuro tão pronto, sorrio.

E quando olho para trás, vejo minha família. A de sangue e a que escolhi para mim. Eles acenam-me. Eu aceno-lhes de volta.

Não é um adeus – penso – nos veremos muito em breve. Mas, ainda assim, não deixa de sê-lo.

Não há razão para voltar atrás agora.

Neste momento, mais do que nunca, tudo é só questão de tempo.

***

Vivendo um período de transição, já começo a notar os primeiros reflexos das escolhas que fiz há tão pouco tempo.

Não posso negar ou esconder a ansiedade que exala pela pele – É aquela sensação de “chega logo” e “espera mais um pouco” que toma conta do coração ao mesmo tempo. Confuso, eu sei, mas é o mais próximo que consigo chegar do sentimento que tem tomado conta de mim recentemente.

Cada vez mais próximo – não paro de pensar – morro de ansiedade.

Logo, logo, vai chegar.

Por ora, é o que importa!

Até a próxima.

😉

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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