A inércia do escritor

Inércia de escritor

Escrevi este título na tela branca pra que houvesse algo nela. Essas letrinhas em preto, na fonte Times New Roman e de tamanho “12”. Porque nada é tão assustador a quem escreve – seja um jornalista, um poeta, um escritor; whatever – do que uma tela em branco. Aos mais antigos ou àqueles com complexo de antiguidade, como eu: não existe nada como uma folha branca para arrepiar os cabelos da nuca.

Há dois meses venho estado muito inerte – no sentido de “em repouso” – quanto à minha escrita, e acho, na verdade, que a escrita é uma forma de inércia. Deixe-me explicar: a inércia é, basicamente, a tendência em continuar sempre no mesmo movimento, ou no repouso, a não ser que uma força de fora te faça mudar esse movimento ou essa ausência de movimento. Na Física, se não houver uma força de fora, como a aceleração, o movimento não irá mudar.

E eu estava assim: inerte em repouso quanto à minha relação com a escrita. Não pegava mais meus bloquinhos para fazer anotações, deixei de ter uma caneta sempre à mão. Antes, o bloco de notas do celular fazia parte de uma interação direta em que os meus olhos captavam algo durante uma caminhada na rua, ou sei lá, e as minhas mãos transmitiam isso à folha, para se tornar uma futura ideia. E agora não mais.

O meu estado com relação à escrita era de repouso. Minha inércia consistia em eu continuar sem o ímpeto em escrever. E a força que mudou isso foi, enquanto lia “Cem Anos de Solidão”, dar de cara com palavras que eu não conhecia. Não que eu esteja perto de conhecer todas as palavras do Português, de forma alguma – ainda mais se tratando do Gabo. Mas eu jamais as havia sequer olhado no dicionário, e essa é uma tarefa frequente de quem escreve. Minha relação entre os fatos foi: “eu não conheço essa palavra porque não estou exercitando conhecê-las”. E isso me fez querer sair desta inércia.

A força necessária para me tirar da inércia do repouso foi a motivação em conhecer novas palavras, em desbravar os dicionários, em descobrir esse mundo dia a dia. E agora em diante, espero que a inércia em que eu permaneça seja a do movimento. Não acelerado, nem em grande velocidade, mas suficientemente satisfatório para uma produção de textos que me faça pensar em novas palavras que expressem o que tento escrever. Procurar novas palavras e, consequentemente, novas abordagens, deve ser o novo horizonte desta que vos fala.

Se for para ser inerte, que seja em movimento.

Carla Mereles

Morena de cidade alemã, tem na escrita a sua maior liberdade. Além disso, tem inquietação por tudo o que parece fora do lugar – ou num mesmo lugar há muito tempo. Crê na força das palavras, no poder catalisador da música (em especial a quem a faz) e, principalmente, na força sinérgica das pessoas. Gosta de ouvir e contar histórias, sempre que pode está na/pega a/bota o pé na estrada e deseja um dia ter a sabedoria em bem enxergar o mundo.

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