Posso sentar na janela?

Sempre gostei de me sentar próximo à janela.  No ônibus, metrô, trabalho, escola, faculdade, a janela sempre foi a minha escolha número 1. Não pela beleza urbana a qual ela me possibilita enxergar – eu gosto muito mais da natureza, sério – tampouco somente pela possibilidade em ver o céu (às vezes nem dá para enxergá-lo direito). Para mim, a minha proximidade a janelas proporciona muito mais do que uma simples paisagem.

Num dia comum de pressão no trabalho, virar-me para aquele retângulo de vidro a um palmo de distância do meu rosto me dá um estupendo conforto: além da copa gigantesca da árvore centenária que vejo se sobrepondo aos prédios da cidade – são necessárias três janelas para enxergá-la por inteiro – e da fértil imaginação que me remete à vida aquela árvore deve proporcionar, lembro-me que, o que quer que esteja enfrentando naquele momento, é virtual e passageiro – ainda há um mundo inteiro lá fora pronto para me acolher.

Janelas são mágicas. Isso porque elas só existem quando você está entre quatro paredes – já parou para pensar nisso? – e servem para te lembrar de que há muito mais coisas do que você pode enxergar naquele momento do que o que está nesse cubículo. Além de luz, trazem porções de realidade. São um totem: só basta dar uma espiadinha através dela para “desvirtualizar”.

Janelas são memórias. E elas marcam você.

Ainda me dá um friozinho na barriga quando me lembro daquele 29 de Dezembro. Na ocasião, minha mente trabalhava com tanto ímpeto, que até doía a cabeça. Apesar disso, a memória só me remete às expressões “Uau”, “Caraca”, “Gente do céu!”, “Meu Deus!”, se repetindo infinitamente como um disco riscado na cuca. Eu estava dentro de um avião – enclausurado há mais de 10 horas – e espiava, incrédulo, debruçado na janela, o meu novo mundo lá fora.

Vi prédios, casas, quintais, ruas, tudo meio coberto de neve – uma cidade toda cinza com leves toques descoloridos como respingos de cândida em um tecido qualquer. Vi neve! Eu não me esqueço desse detalhe porque aquelas manchas brancas eram a prova de que eu estava em outro lugar, em outra realidade. Eram a minha pílula vermelha.

Boa parte das memórias que eu tenho envolvem janelas. Talvez por isso esse meu apreço.

Uma outra ocasião memorável foi num sábado qualquer. Não passava das 13 horas e estava no ônibus fretado da empresa rumo a mais um dia de labuta. O dia estava lindo: céu azul e com poucas nuvens. Admirava justamente essa paisagem, inebriado pelos nuances de azul que inundavam minha visão, quando notei que todas as nuvens presentes estavam quase que enfileiradas. Não sei explicar o porquê, mas ver aquela formação me fez me sentir pequeno perto de toda aquela imensidão, como se um grão de areia numa extensa praia. O peito se encheu de sensações muito atípicas, difíceis de por em palavras. Uma, porém, pulsava entre todas as outras: gratidão; era grato por estar ali, por ser quem era, por ter dito a grande oportunidade de trabalhar numa multinacional e, acima de tudo, por ter a vida que tinha naquele momento. Era um daqueles momentos da nossa existência que a gente sente que não precisa por nada na vida ou tirar algo dela, sabe? Quase que uma epifania…

Janelas…

Grandes ou pequenas, quadradas ou redondas, de madeira ou metal, orgânicas ou urbanas… Elas nos convidam a olhar através delas e a ver outro lado, a olhar lados de um mundo fora do que vivemos naquele momento.  Só precisamos olhar para elas.

😉

Murilo Igarachi

Murilo Igarachi

Paulistano com descendência na Lua. É daqueles que você tem cantando sozinho na fila do metrô ou balançando as pernas como uma criança num banco de praça qualquer. Questiona tudo o que vê e busca achar um sentido para tudo, em especial para a vida e seus misteriosos mecanismos. Amante nato de natureza, apesar de ser de exatas, ama dias ensolarados e chuvas de verão. A cada duas Quintas, aparece espalhar doses de vida, amor em suas mais variantes e você, muito você. :3
Murilo Igarachi

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